Os Bons Companheiros

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Os Bons Companheiros: Uma Ode à Violência e à Beleza da Degradação

Confesso: quando me deparo com Os Bons Companheiros, em 2025, a quase-trinta e cinco anos de seu lançamento original em 1990, sinto um arrepio que vai além da nostalgia. É uma sensação visceral, uma mistura de fascínio perturbador e admiração estética por uma obra-prima do cinema, que continua a ressoar com a mesma potência brutal que causou quando explodiu nas telas. Mais que um filme de gângsteres, é um mergulho na alma podre e fascinante do sonho americano distorcido.

A história acompanha a trajetória de Henry Hill, um jovem italo-americano do Brooklyn que se encontra irremediavelmente envolvido com a máfia desde a adolescência. Sob a tutela de figuras imponentes como Jimmy Conway, interpretado por um Robert De Niro em estado de graça, e o explosivo Tommy DeVito, vivido por um inesquecível Joe Pesci, Henry ascende na hierarquia do crime organizado, experimentando os prazeres e os horrores de um mundo regido pela violência e pela traição. É uma jornada eletrizante, que se desenrola numa dança frenética entre a sedução do poder e a inevitável queda. Mas não esperem um conto de fadas, afinal estamos falando de Scorsese.

A direção de Scorsese é, simplesmente, brilhante. A câmera parece dançar com a narrativa, imersa na frenética energia da vida mafiosa. Os planos-sequência, famosos pela sua fluidez e intensidade, nos jogam no meio da ação, sem respiro. A montagem nervosa, a trilha sonora inesquecível – a sinergia entre todos os elementos contribui para uma imersão total no universo sujo e brutal de Henry. Não é à toa que, mesmo depois de décadas, muitos consideram a obra uma referência inabalável do gênero. Aquele comentário sobre Scorsese amar detalhes, realmente se confirma aqui: a atenção minuciosa aos detalhes, seja nas roupas, nas festas opulentas ou nas cenas de violência crua, constroem um nível de realismo e imersão raramente visto no cinema. Contudo, discordo parcialmente da afirmação de que Scorsese não se interessa pelo crime em si. Sim, o foco é na experiência humana, mas o crime é o palco, o motor da narrativa, e Scorsese o filma com uma maestria cinematográfica única.

Atributo Detalhe
Diretor Martin Scorsese
Roteiristas Nicholas Pileggi, Martin Scorsese
Produtor Irwin Winkler
Elenco Principal Robert De Niro, Ray Liotta, Joe Pesci, Lorraine Bracco, Paul Sorvino
Gênero Drama, Crime
Ano de Lançamento 1990
Produtoras Winkler Films, Warner Bros. Pictures

E as atuações? Elas transcendem o talento. Ray Liotta entrega uma performance tão visceral como a narrativa frenética do filme: Henry é um personagem complexo, ambíguo, e Liotta o retrata com uma autenticidade cativante, apesar de toda a violência, traição e degradação. De Niro é imponente e carismático, construindo um retrato poderoso de Conway, a personificação da frieza calculada. Já Pesci, simplesmente rouba a cena em cada frame em que aparece, a energia incandescente e a imprevisibilidade de Tommy DeVito se tornam memoráveis. É um elenco impecável que eleva o filme a um nível de arte cinematográfica.

Apesar de suas qualidades inegáveis, Os Bons Companheiros não está isento de críticas. A glorificação – ainda que crítica – da violência, mesmo que em nome do realismo, pode incomodar. Para alguns, a longa duração pode ser um obstáculo, e a quantidade de personagens pode causar uma confusão em primeira vista. Mas, para mim, esses “defeitos” são, na verdade, parte do seu fascínio. A brutalidade é inerente à história e, mesmo que não aprecie o nível de violência, é impossível ignorar sua importância na narrativa.

O filme explora temas complexos: a lealdade, a traição, o desejo de ascensão social, as consequências da violência e, claro, a corrupção sistêmica. A jornada de Henry é um estudo de caso sobre a natureza humana, suas fraquezas, suas aspirações e sua capacidade de autodestruição. Há uma melancolia profunda, um senso de inevitabilidade que paira sobre a narrativa. A ascensão e queda de Henry são um espelho da própria América, revelando suas contradições e os seus obscuros submundos.

Em 2025, Os Bons Companheiros continua a ser uma obra-prima cinematográfica que desafia, cativa e assombra. É um retrato cru e brutal de um mundo obscuro, mas com uma beleza cinematográfica que é impossível ignorar. Recomendado para aqueles que apreciam um cinema ousado, visceral e extremamente bem construído, que te deixa sem fôlego até os créditos finais. Se você ainda não viu, faça isso imediatamente. Se você já viu, assista de novo. A experiência, garanto, será igualmente impactante.