Ah, “Como Treinar o Seu Dragão”! Sabe, às vezes, a gente se pega pensando que certas histórias têm o poder de transcender a tela, de morar um cantinho especial da nossa memória afetiva. E é exatamente isso que acontece comigo quando penso nesse filme da DreamWorks. Em 2010, quando ele chegou, eu, como muitos, tinha aquela mania quase automática de comparar tudo que era animação com os titãs da Disney e Pixar. Era uma barra alta, né? Mas Como Treinar o Seu Dragão não só saltou essa barra, como fez parecer fácil, com uma graça e uma profundidade que me pegaram de surpresa. E é por isso que, mesmo hoje, em 2025, eu sinto a necessidade de revisitar essa obra e compartilhar o que a torna tão especial.
A trama, à primeira vista, é clássica: um jovem viking, Soluço (com a voz vulnerável e curiosa de Jay Baruchel), desajeitado e pouco hábil nas tradições guerreiras de sua ilha, Berk, onde caçar dragões é quase um rito de passagem. Seu pai, Stoico (Gerard Butler, com a imponência e o carinho latente de um pai viking), o vê como uma decepção. Mas o grande motor da história é o momento em que Soluço, em vez de matar um Fúria da Noite ferido – um dos dragões mais temidos –, decide ajudá-lo. Ele o nomeia Banguela, e é aí que a magia, e a filosofia, começam a desdobrar.
O que me fascina é a forma como o filme não tem medo de mergulhar na ignorância dos vikings. Eles veem os dragões como monstros, puros vilões, mas o Soluço e o Banguela nos mostram que essa percepção é apenas a ponta de um iceberg de preconceitos. É uma analogia tão poderosa para a nossa própria sociedade, não acha? Quantas vezes não julgamos o “outro”, o diferente, com base no medo e na falta de conhecimento? Soluço, o ferreiro aprendiz, com sua inteligência prática e seu coração aberto, não vê um inimigo, mas uma criatura assustada e, eventualmente, um amigo leal. A cena em que ele estende a mão para Banguela pela primeira vez, hesitante, quase tremendo, e o dragão responde com a mesma desconfiança e, depois, com um toque gentil, é de partir o coração de tão sincera.
E falando em Banguela, gente, que personagem! Os diretores Chris Sanders e Dean DeBlois, que também assinam o roteiro ao lado de William Davies, criaram uma criatura que, sem uma única fala, exala mais personalidade do que muitos personagens humanos. Seu design é espetacular, uma mistura perfeita entre o temível e o adorável, com aqueles olhos enormes e expressivos que refletem desde o humor brincalhão até a lealdade mais profunda. A animação, um dos pontos mais elogiados na época e que continua deslumbrante, é o que permite isso. As sequências de voo, então, são de tirar o fôlego. Eu me lembro de sentir o vento no rosto, a liberdade, a pura alegria de voar ao lado de Soluço e Banguela. É uma experiência imersiva que te faz sentir a maravilha e a adrenalina, como se você estivesse ali, de verdade, explorando florestas e montanhas no céu azul.
| Atributo | Detalhe |
|---|---|
| Diretores | Chris Sanders, Dean DeBlois |
| Roteiristas | Dean DeBlois, Chris Sanders, William Davies |
| Produtora | Bonnie Arnold |
| Elenco Principal | Jay Baruchel, Gerard Butler, Craig Ferguson, America Ferrera, Jonah Hill |
| Gênero | Fantasia, Aventura, Animação, Família |
| Ano de Lançamento | 2010 |
| Produtora | DreamWorks Animation |
O elenco vocal é um capítulo à parte, claro. Jay Baruchel incorpora a voz do Soluço com uma sensibilidade que capta perfeitamente o espírito do jovem viking que se sente um peixe fora d’água. Gerard Butler dá a Stoico a gravidade e o peso de um líder, mas também a fragilidade de um pai que tenta entender um filho tão diferente. E America Ferrera como Astrid? Ela começa cética e guerreira, mas sua jornada de compreensão ao lado de Soluço é um dos arcos mais gratificantes do filme. É bonito ver a forma como ela, uma guerreira por excelência, aprende a ver a força não apenas no combate, mas na empatia e na amizade.
O que “Como Treinar o Seu Dragão” faz tão bem é subverter expectativas. Ele pega a história clássica de “homem versus natureza” e a transforma em “homem aprendendo com a natureza”. Não é um filme que busca vilões unidimensionais; na verdade, o verdadeiro “vilão” é o medo, a incompreensão enraizada na tradição. E essa tradição, que parece inabalável, é lentamente desfeita pelo poder de uma amizade improvável. As cenas na arena, que deveriam ser de treinamento de combate, se transformam em momentos de profunda reflexão sobre o que significa ser forte, ser um guerreiro.
Para mim, o filme não é apenas uma aventura de fantasia vibrante, mas uma reflexão quase filosófica sobre a compaixão e a quebra de paradigmas. Ele nos ensina, de forma tão leve e divertida, que o amor e a empatia podem transformar o inimigo mais feroz em um pet leal e companheiro, e que a maior batalha é contra a nossa própria ignorância. É um filme que me deixa otimista, esperançoso, e me faz querer acreditar que o mundo pode ser um lugar mais gentil se a gente estiver disposto a estender a mão para o diferente, mesmo que ele tenha escamas e solte fogo. E isso, meu amigo, não é pouca coisa para um filme de animação de 2010. É a prova de que certas histórias, quando contadas com paixão e sinceridade, se tornam atemporais e continuam a aquecer nossos corações, ano após ano.




