Ángela

Pôster dramático: Mulher com franja séria no centro, dois homens ao fundo. Fundo escuro em tons de verde-azul, clima de suspense.
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A gente vive num mundo onde as telas estão sempre pipocando novidades, né? E, convenhamos, muitas delas passam batido, deixando aquela sensação de “ok, próximo!”. Mas aí, de vez em quando, a gente tropeça numa joia, algo que agarra a gente pela alma e não solta. Foi exatamente isso que aconteceu comigo com Ángela. Não foi um lançamento que causou barulho estrondoso por aqui – afinal, ainda não chegou oficialmente no Brasil, e isso, por si só, já me provoca a ir atrás, a cavar mais fundo no que o mundo lá fora está produzindo. Mas essa série, lá de 2024, da Buendía Estudios, ficou reverberando na minha cabeça por mais de um ano, e percebi que precisava sentar e destrinchar o porquê.

Por que Ángela? Porque ela é um espelho, e espelhos, às vezes, são incômodos. A série começa com a premissa de uma vida que, para os olhos de fora, é perfeita. Angela, interpretada com uma profundidade arrepiante por Verónica Sánchez, parece ter tudo em Londres: um lar aconchegante, uma rotina estabelecida, um casamento… ah, o casamento. É aqui que a “confortável existência” dela começa a desmoronar, não de uma vez, num estalo explosivo, mas em micro-rachaduras que, para o espectador, são quase mais angustiantes de observar.

A beleza (e o terror) de Ángela reside na forma como Norberto López Amado, o criador, nos mergulha na percepção distorcida e isolada da protagonista. Não é sobre um soco no rosto logo de cara. É sobre aquele aperto sutil no pulso, a voz um tom acima do normal por uma bobagem, o olhar que promete controle em vez de afeto. Daniel Grao, no papel de Gonzalo, o cônjuge, é assustadoramente bom. Ele não é o vilão caricato com um bigode retorcido. Ele é o homem charmoso, o “bom marido” que, por trás das portas fechadas, tece uma teia invisível de manipulação e ameaças. A maneira como ele desarma Angela emocionalmente, plantando dúvidas sobre a própria sanidade dela, é de dar um frio na espinha. Você vê o pavor crescendo nos olhos de Verónica Sánchez, a forma como ela recua, quase imperceptivelmente, quando ele entra no cômodo, como se o ar ficasse mais pesado.

A sinopse fala em “reconhecer maus-tratos domésticos”, e essa é a virada da série. Não é um despertar abrupto, mas uma lenta e dolorosa epifania. E é aí que entra Edu, o detetive, vivido por Jaime Zatarain. Ele é a ponte para a realidade externa, a primeira fresta de luz num quarto escuro demais. Mas mesmo essa ajuda externa não é um conto de fadas. A série nos mostra a burocracia, a descrença, a dificuldade de provar o que muitas vezes só existe em sussurros e cicatrizes invisíveis. A angústia de Angela não diminui; ela apenas se transforma, de um medo paralisante para uma determinação desesperada.

Atributo Detalhe
Criador Norberto López Amado
Elenco Principal Verónica Sánchez, Daniel Grao, Jaime Zatarain
Gênero Drama
Ano de Lançamento 2024
Produtora Buendía Estudios

O que me prendeu em Ángela foi essa dança entre o silêncio e o grito. A produção da Buendía Estudios é primorosa em construir essa atmosfera de tensão constante. A cinematografia de Londres, muitas vezes sombria e claustrofóbica, reflete o estado de espírito de Angela. Os sons ambientes são usados com maestria – o ranger de uma porta, o silêncio pesado depois de uma discussão – tudo contribui para a sensação de que o perigo espreita em cada esquina, em cada pensamento dela. O ritmo da narrativa é como uma corda de violino sendo esticada: começa devagar, com notas melancólicas, e vai aumentando a tensão até atingir um ponto quase insuportável.

Ángela é um drama intenso que nos convida a confrontar uma realidade dura e, infelizmente, muito comum. É sobre a busca pela liberdade, sobre a coragem de romper com o que te aprisiona, mesmo que essa ruptura signifique uma “perigosa perseguição”. A série não romantiza a fuga, não apresenta soluções fáceis. Ela mostra o preço, a cicatriz que fica, mas também a força que se encontra no abismo. E essa é a grande lição. Porque, no final das contas, quem de nós nunca se sentiu aprisionado por algo, seja uma rotina, um relacionamento ou as próprias expectativas? Ángela nos lembra que, por mais confortável que uma gaiola possa parecer, o desejo de voar é inerente ao ser humano. E que, às vezes, para voar, a gente precisa cair primeiro. É uma série que grita sem precisar de muitos alaridos, e por isso, merece ser assistida. Se você tiver a chance de encontrá-la, mergulhe. Mas prepare-se, porque ela vai te acompanhar por um bom tempo.

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