Por que diabos a gente se sente tão atraído por histórias de espionagem? Acho que é porque, no fundo, todos nós somos um pouco curiosos, fascinados pelos segredos que se movem nas sombras, pelas pessoas que vivem na linha tênue entre a lealdade e a traição. Eu, pelo menos, sempre fui. E é essa faísca de curiosidade que me puxou para Raqqa: Spy vs. Spy, um filme que prometia mergulhar de cabeça nesse universo, mas em um cenário que, por si só, já grita perigo e complexidade: Raqqa.
Lembro-me de quando o trailer começou a pipocar nas redes, há quase um ano, e a simples menção de Raqqa – o nome da cidade, o palco onde se desenrolaram tantas tragédias recentes – já me dava um nó no estômago. Não é só um cenário; é um personagem em si, um local marcado por escombros, memórias e cicatrizes que o diretor Gerardo Herrero, com uma precisão quase cirúrgica, consegue fazer respirar na tela. O filme, lançado mundialmente no final de 2024, não chegou ainda ao Brasil, mas, para quem caçou, como eu, uma forma de ver essa obra, a experiência é visceral.
A verdade é que ‘Spy vs. Spy’ não é uma daquelas produções que te entrega respostas fáceis. Pelo contrário. A cada minuto, a trama te empurra mais para um labirinto moral onde as distinções entre “certo” e “errado” se dissolvem como açúcar na água quente. É um thriller que te arrasta para dentro das entranhas da espionagem pós-conflito, onde a desconfiança é a única moeda de troca e cada olhar esconde um universo de intenções.
E falando em olhares, o elenco é um show à parte. Álvaro Morte, que a gente já conhece e admira pela sua capacidade de se transformar completamente, aqui entrega um personagem que é pura tensão contida. Você vê nos seus olhos a exaustão, a astúcia, a dúvida. Ele não só interpreta um espião; ele é um. Cada gesto, cada pausa na fala, é um tic-tac de um relógio que pode explodir a qualquer momento. Ao seu lado, Mina El Hammani brilha com uma força silenciosa, uma presença que equilibra a intensidade de Morte. Sua personagem não é uma mera coadjuvante; ela é uma peça central nesse xadrez de traições, e El Hammani a imbui de uma resiliência que te faz questionar o que realmente a move.
| Atributo | Detalhe |
|---|---|
| Diretor | Gerardo Herrero |
| Roteirista | Irene Zoe Alameda |
| Produtores | Mariela Besuievsky, Gerardo Herrero |
| Elenco Principal | Álvaro Morte, Mina El Hammani, Abdelatif Hwidar, Fariba Sheikhan, Ben Temple, Sara Hwidar, Cristina Kovani, Déborah François, Ali El Aziz, Juan Carlos Vellido |
| Gênero | Thriller |
| Ano de Lançamento | 2024 |
| Produtoras | Malika y el Saharaui A.I.E, Angle Production, Tornasol Media |
Não é só uma questão de quem é o bom e quem é o mau. A roteirista Irene Zoe Alameda foi muito inteligente em construir um universo onde a linha que separa os lados é tão tênue que chega a desaparecer. A gente se vê torcendo por um, desconfiando do outro, e de repente, as posições se invertem. Abdelatif Hwidar e Fariba Sheikhan, com suas performances, adicionam camadas de ambiguidade que enriquecem ainda mais essa teia. Eles não são caricaturas; são pessoas com suas próprias agendas, seus próprios medos, suas próprias cicatrizes que se encaixam nesse mosaico de vidas quebradas em Raqqa. E Ben Temple? Ah, ele tem aquele jeito de nos fazer duvidar de tudo, de ser a figura imponente que talvez saiba mais do que diz, ou talvez menos.
O que me prendeu do início ao fim foi a forma como Herrero conduz a narrativa. Não há pressa, mas também não há frouxidão. O ritmo é como o coração de alguém sob pressão: ora acelerado em perseguições tensas pelos mercados poeirentos e becos estreitos, ora desacelerado em momentos de silêncio perturbador, onde o barulho da própria respiração dos personagens parece ensurdecedor. Dá para sentir o cheiro da poeira, o calor sufocante, a umidade do ar noturno, quase como se você estivesse lá, com a garganta seca. É uma imersão sensorial que te deixa inquieto na poltrona.
Raqqa: Spy vs. Spy é um daqueles filmes que ficam com você muito depois que os créditos sobem. Ele te força a pensar sobre as motivações por trás das ações humanas em situações extremas, sobre o custo da informação, sobre a sobrevivência em um mundo que parece cada vez mais caótico. Não espere um final feliz embrulhado para presente. Espere um final que te provoca, que te faz questionar a moralidade, a lealdade e o preço da paz em regiões onde a guerra nunca realmente termina. E, sinceramente, é exatamente isso que a gente precisa ver de vez em quando no cinema: uma história que nos desafia, que nos tira da zona de conforto e nos lembra da complexidade inesgotável do ser humano. É uma experiência, e das boas.




