Billy the Kid

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É fascinante como algumas figuras históricas, por mais controversas que sejam, simplesmente se recusam a desaparecer. Billy the Kid é uma dessas. Quantas vezes já ouvimos sua balada, cada uma com uma nota diferente, uma interpretação nova? Desde os gibis da infância até os faroestes clássicos, a imagem do jovem pistoleiro, rápido no gatilho e com um sorriso torto, parece eternamente gravada no imaginário popular. E é exatamente por essa fixação que, quando soube que Michael Hirst, o mestre por trás de dramas históricos densos como Vikings e The Tudors, estava se debruçando sobre a vida de Billy, minha curiosidade, pra ser bem sincero, disparou como um Colt .45.

Eu, particularmente, sempre tive um fraco por histórias que desmistificam o herói ou, no caso de Billy, o anti-herói. E é isso que Billy the Kid, a série que estreou em abril de 2022, promete e, em grande parte, entrega. Não é apenas mais uma história de tiroteios e perseguições a cavalo – embora haja muito disso, acredite. É, acima de tudo, uma tentativa de espiar por trás da lenda, de entender o menino antes do Kid.

A série nos puxa para o Novo México de meados do século XIX, um caldeirão de poeira, suor, esperança e desespero. Começamos com as raízes de William H. Bonney, ou Henry McCarty, ou Billy, como preferir, um jovem de origem irlandesa que, como tantos outros imigrantes da época, buscava uma nova vida, ou talvez, fugia da velha. É nessa jornada de autodescoberta e, inevitavelmente, autoperdição, que a série brilha. A maneira como Hirst tece a narrativa, mostrando as pequenas escolhas, as grandes fatalidades e as influências que moldam um pistoleiro, é hipnotizante. Não é uma ascensão súbita ao crime, mas uma erosão gradual da inocência, um passo hesitante após o outro, até que não há mais volta.

E nesse turbilhão de areia e sangue, surge Tom Blyth como Billy. Olha, eu tenho que tirar o chapéu. Tom não apenas veste o chapéu e empunha o revólver, ele encarna o jovem. Há uma dualidade constante em seu olhar: a vulnerabilidade de um garoto que perdeu muito cedo, a chama da ambição, a astúcia necessária para sobreviver e, por vezes, um lampejo de crueldade que gela a espinha. Ele nos mostra a ingenuidade de quem ainda não sabe onde a linha foi traçada, e a frieza de quem já a cruzou muitas vezes. É um trabalho de personagem denso, que evita a caricatura e abraça a complexidade.

Atributo Detalhe
Criador Michael Hirst
Elenco Principal Tom Blyth
Gênero Faroeste, Drama
Ano de Lançamento 2022
Produtoras Epix, Amblin Television, MGM+ Studios, De Line Pictures, One Big Picture, MGM Television, Viaplay Group, Amazon MGM Studios

Um dos pontos cruciais da série é o encontro de Billy com Jesse Evans, líder da temível quadrilha Seven Rivers. Jesse, já imerso em uma vida de roubo de gado e saques a pequenas vilas, representa a trilha que Billy poderia seguir, ou talvez, a que ele já estava predestinado a trilhar. A dinâmica entre os dois é um motor potente, um estudo sobre influência e escolha. Jesse é uma força da natureza, um amigo traiçoeiro e um mentor perigoso. É o tipo de amizade que te puxa para baixo, mesmo quando você jura que está subindo. O drama que surge dessa relação é palpável, e as sementes da Guerra do Condado de Lincoln, que viria a definir a fama (ou infâmia) de Billy, são plantadas bem ali, no terreno fértil da lealdade e da traição.

O que me cativou profundamente foi a forma como a série respira. A produção, com gigantes como Epix, Amblin Television e Amazon MGM Studios por trás, é grandiosa e detalhada. Dá pra sentir a poeira que gruda nos lábios, o ranger da sela sob o peso do cavaleiro, o cheiro metálico da pólvora após um tiro. O cenário do Velho Oeste não é apenas um pano de fundo pitoresco; ele é um personagem em si, vasto e impiedoso, moldando a vida de todos que ousam pisar nele. As paisagens são deslumbrantes e opressoras ao mesmo tempo, reforçando a sensação de isolamento e a necessidade de se impor para sobreviver.

Billy the Kid não se contenta em recitar os fatos que já conhecemos. Ela mergulha nas motivações, nas pequenas injustiças que acendem a chama da vingança, na constante luta pela sobrevivência em uma terra sem lei. É um drama sobre a perda da inocência, sobre a construção de um mito e sobre as consequências inescapáveis de uma vida vivida à margem. Michael Hirst e sua equipe conseguem a proeza de nos fazer sentir empatia por um homem que a história pintou como um fora-da-lei impiedoso, ao mesmo tempo em que não nos deixam esquecer a violência que ele perpetrou.

Então, sim, a série é um faroeste, um drama, mas é também uma meditação sobre o que nos torna quem somos. É sobre como o destino pode ser moldado pelas circunstâncias, mas também pelas escolhas que fazemos quando nos encontramos com o diabo na encruzilhada. E, pra mim, depois de tantas versões do mesmo conto, essa série de 2022 é uma das mais humanas e viscerais representações de Billy the Kid que já vi. Mesmo que ainda não tenha chegado oficialmente ao Brasil, espero que um dia você, leitor, possa mergulhar nesse Velho Oeste que pulsa com tanta vida — e morte. Vale cada momento de tensão, cada tiro, cada olhar complexo de Tom Blyth.