Com as Próprias Mãos: Um Documentário que Arranha a Alma do Brasil
Duas décadas depois de “Tropa de Elite”, o Brasil ainda luta com o fantasma das milícias. Com as Próprias Mãos, um documentário lançado em 8 de dezembro de 2023, não oferece respostas fáceis, mas sim uma jornada angustiante e essencial para entender as raízes desse câncer social. O filme acompanha a jovem jornalista Yasmin Santos em sua busca pela história de Luarlindo Ernesto, a única testemunha ocular da formação do primeiro esquadrão da morte brasileiro, há sessenta anos. A partir do encontro desses dois personagens, testemunhamos um mergulho desconcertante na história obscura do Rio de Janeiro.
A direção de José Francisco Tapajós é impecável. Ele evita o sensacionalismo barato, optando por um estilo quase minimalista, deixando que as imagens e os depoimentos falem por si. A câmera se torna uma testemunha silenciosa, mas presente, nos colocando no centro da narrativa. A construção narrativa, co-escrita com Lucas Camargo de Barros, é brilhante. Não se trata de uma simples linha cronológica, mas de um mosaico que se forma gradualmente, revelando a complexidade da história e a fragilidade da memória. A edição, sinérgica com a direção, é cirúrgica na sua precisão, intercalando as entrevistas contemporâneas com imagens de arquivo que trazem uma atmosfera opressiva e visceral.
O elenco, composto majoritariamente por pessoas interpretando a si mesmas, é o ponto alto do longa. Luarlindo Ernesto, com sua fragilidade e peso dos anos, entrega uma performance visceral e emocionante. A própria Yasmin Santos demonstra uma sensibilidade jornalística rara, deixando de lado a postura imparcial para se mostrar empática e até vulnerável. A presença de Victor Viana e César Oiticica Filho, embora menos presentes, adiciona camadas importantes à discussão. Em nenhum momento a construção se sente artificial, o que é um triunfo considerando o delicado equilíbrio necessário num filme que mistura documentário com reconstituições (não declaradas como tais, aumentando o impacto emocional).
| Atributo | Detalhe |
|---|---|
| Diretor | José Francisco Tapajós |
| Roteiristas | José Francisco Tapajós, Lucas Camargo de Barros |
| Produtor | Victor Viana |
| Elenco Principal | Luarlindo Ernesto, Yasmin Santos, Victor Viana, César Oiticica Filho |
| Gênero | Documentário |
| Ano de Lançamento | 2023 |
| Produtoras | Pacto Filmes, Canal Curta! |
Um dos pontos fortes de Com as Próprias Mãos é a sua capacidade de nos confrontar com a brutalidade da violência estatal, sem cair em moralismos fáceis. O filme não julga, mas apresenta os fatos, as cicatrizes e as consequências dessa violência que se perpetua ao longo das décadas. Por outro lado, a ausência de um maior contexto histórico, apesar do mergulho profundo na vida de Luarlindo, poderia ser apontado como uma fraqueza. A narrativa, focada quase exclusivamente na experiência individual, às vezes limita a compreensão do cenário sociopolítico mais amplo.
A mensagem principal do filme, entretanto, é inegável: o esquadrão da morte não foi um evento isolado. Sua criação representou uma falha sistêmica, um sintoma de uma sociedade profundamente desigual e violenta. O filme funciona como um alerta, um lembrete de que as consequências da violência se estendem por gerações, afetando não apenas as vítimas diretas, mas toda a sociedade. Em 2025, dois anos após o lançamento, o impacto do filme ainda é discutido em círculos acadêmicos e jornalísticos – prova de sua importância e relevância.
Em resumo, Com as Próprias Mãos é um documentário excepcional, uma obra-prima de fôlego que exige a atenção de todos. É um filme desconfortável, sim, mas absolutamente necessário. Sua força reside na sua honestidade brutal e na sua capacidade de humanizar uma história que frequentemente é apresentada de forma abstrata. Recomendo fortemente sua exibição, principalmente para aqueles que buscam uma compreensão mais profunda da história recente do Brasil e das raízes da violência que nos assola. Este não é um filme para ser visto com leviandade; é um filme para ser sentido, para ser pensado, para ser debatido – e, quem sabe, para ajudar a mudar o futuro. Disponível em diversas plataformas digitais, busque assisti-lo.




