A Matriarca

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A Matriarca: Um Funeral, Um Aniversário, e a Verdade Que Nascemos Para Esconder

Ah, o cinema brasileiro! Vez ou outra, ele nos presenteia com obras que se entranham na alma, que nos fazem revisitar nossas próprias cicatrizes familiares e os nós desfeitos de nossa história. E poucas vezes essa experiência foi tão visceral quanto em A Matriarca, longa-metragem dirigido por Lula Oliveira, que estreou em nossos cinemas em 15 de março de 2024 e, um ano e meio depois, ainda ecoa na memória de quem o viu. Este não é um filme para o espectador passivo; é um convite – ou um desafio – para mergulhar no labirinto das relações humanas, onde a dor e a celebração se encontram em um abraço inescapável.

A Premissa Que Desafia Nossas Convenções

A Matriarca nos joga em um cenário que, por si só, já é um paradoxo poético: um aniversário e um velório acontecendo simultaneamente, unidos pelo fio tênue do destino e da ironia. A matriarca da família, figura central e pilar da narrativa, parte exatamente no dia em que deveria celebrar mais um ano de vida. Este evento catalisador reúne uma família repleta de segredos, histórias não contadas e feridas que o tempo, ao invés de curar, apenas escondeu sob camadas de formalidade e silêncio. O filme se dedica a esmiuçar esses “mistérios e realidades intensivas” que permeiam a convivência familiar, revelando as intrincadas teias que nos ligam uns aos outros, para o bem e para o mal. É um drama puro, denso, que não teme confrontar o espectador com a crueza da emoção.

A Maestria Por Trás das Câmeras e a Trama de Múltiplas Vozes

A direção de Lula Oliveira é, sem dúvida, um dos grandes pilares de A Matriarca. Ele conduz a narrativa com uma sensibilidade rara, criando uma atmosfera claustrofóbica e intimista que nos faz sentir parte daquele reencontro agridoce. A câmera de Oliveira não apenas observa; ela investiga, vasculha os olhares, os gestos contidos, os suspiros que carregam volumes de história. Não é um ritmo frenético, mas sim uma cadência meditativa que exige nossa total atenção, recompensando-nos com profundidade a cada cena.

O roteiro, assinado por uma equipe robusta – João Rodrigo Mattos, o próprio Lula Oliveira, Inês Figueiró, Ana Luiza Penna e Fábio Rocha – é um trabalho de ourivesaria. A construção dessa complexa tapeçaria de “estórias secretas” é feita com uma destreza impressionante. Cada diálogo, cada silêncio, parece carregar o peso de gerações. É evidente que as múltiplas mentes por trás do texto permitiram uma exploração multifacetada dos dilemas familiares, garantindo que nenhum personagem fosse unidimensional e que cada perspectiva fosse, de alguma forma, compreendida, mesmo que não justificada. A DocDoma Filmes, na produção, merece aplausos por dar vida a uma visão tão ousada e desafiadora.

Atributo Detalhe
Diretor Lula Oliveira
Roteiristas João Rodrigo Mattos, Lula Oliveira, Inês Figueiró, Ana Luiza Penna, Fábio Rocha
Produtores Lula Oliveira, Kico Póvoas, João Rodrigo Mattos, Adler Paz, Marcos Carvalho
Elenco Principal Aicha Marques, Analu Tavares, Barbara Borgga, Caco Monteiro, Evelin Buchegger
Gênero Drama
Ano de Lançamento 2024
Produtora DocDoma Filmes

O Coração Pulsante do Filme: O Elenco

Mas onde A Matriarca realmente se eleva a um patamar de excelência é em suas atuações. O elenco principal – Aicha Marques, Analu Tavares, Barbara Borgga, Caco Monteiro e Evelin Buchegger – entrega um trabalho de conjunto que é de tirar o fôlego. Não há um elo fraco aqui. Cada ator e atriz se entrega de corpo e alma aos seus personagens, infundindo-lhes uma autenticidade que beira o documental. Eles não interpretam; eles vivem a dor, a culpa, o carinho relutante, a saudade e a raiva que definem aquela família. A química entre eles é palpável, e as interações, por vezes sutis, por vezes explosivas, são o motor emocional que move o filme. A forma como conseguem comunicar anos de mágoa ou afeição com um simples olhar é um testemunho da profundidade de seu trabalho.

A Força e os Desafios de uma Experiência Imersiva

Os pontos fortes de A Matriarca são inegáveis: a originalidade de sua premissa, a profundidade psicológica dos personagens, a coragem de abordar o luto e os segredos familiares sem clichês, e a direção e atuações impecáveis. É um filme que nos lembra que, muitas vezes, as maiores tragédias e as mais belas celebrações acontecem no mesmo espaço, na mesma respiração.

No entanto, é preciso reconhecer que a intensidade e o ritmo deliberado do filme podem ser um desafio para alguns espectadores. A Matriarca não busca o entretenimento fácil; ele exige paciência, reflexão e uma disposição para se conectar com a complexidade emocional de seus personagens. Não é um “drama pipoca”, mas sim um drama que incita à introspecção e ao diálogo interno. Para mim, essa é uma virtude, não uma falha. É o que o torna tão autêntico e impactante.

O Legado e os Temas que Permanecem

Os temas de A Matriarca são universais e atemporais: o luto como um processo caótico e profundamente pessoal, a forma como os segredos familiares moldam gerações, o peso da memória, a busca por perdão e a inegável complexidade do amor dentro da família. O filme nos faz questionar o que realmente significa “se despedir” de alguém e como lidamos com a vida que continua após uma perda monumental. Ele é uma ode à resiliência humana e, paradoxalmente, à sua fragilidade.

Veredito Final: Um Encontro Inadiável com a Essência Humana

A Matriarca é, em minha opinião, uma das joias do cinema nacional recente. É um filme que dói, mas uma dor necessária, que nos limpa e nos faz enxergar com mais clareza as nossas próprias raízes. Lula Oliveira e sua equipe criaram uma obra-prima do drama familiar, que desafia, emociona e provoca reflexão muito tempo depois de os créditos rolarem.

Minha recomendação é clara e inequívoca: se você busca um filme que vá além do entretenimento superficial, que te convide a sentir e a pensar sobre a natureza da família, da morte e da vida, então A Matriarca é um encontro inadiável. Prepare-se para ser tocado, talvez até confrontado, mas saia da experiência com uma compreensão mais rica e matizada do que significa ser humano e parte de uma família. É o tipo de cinema que persiste, que se fixa em nossa memória afetiva, e que merece ser redescoberto e celebrado. Não perca esta experiência singular em plataformas digitais ou onde quer que esteja disponível. É um testamento do poder da narrativa brasileira.

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