Ah, o futebol. Uma paixão que nos une e nos divide, um campo onde o drama humano se desenrola com uma intensidade quase teatral. E poucas histórias no universo da bola capturaram essa essência de forma tão visceral quanto a de Luís Figo e sua transferência bombástica de Barcelona para o Real Madrid. Para quem, como eu, respirou e viveu o futebol dos anos 2000, essa saga não é apenas um capítulo na história; é um trauma coletivo, uma virada de página que marcou uma era. É por isso que, quando O Caso Figo: A Transferência que Mudou o Futebol desembarcou nas telas em 2022 – e já lá se vão três anos desde então –, eu sabia que precisava mergulhar de cabeça.
Não é todo dia que um documentário consegue desvendar as camadas de uma história tão complexa e emocionalmente carregada, permitindo que os próprios protagonistas, já com a poeira baixada e a perspectiva do tempo, revelem suas verdades. E é exatamente isso que Ben Nicholas e David Tryhorn, com uma habilidade cirúrgica, conseguem entregar. Eles não apenas narram os eventos; eles nos transportam para o epicentro de uma negociação que desafiou a lógica, a lealdade e, por vezes, a decência.
Imagine a cena: estamos em meados de 2000. Luís Figo é mais do que um jogador; ele é o coração pulsante do Barcelona, o capitão, o ícone. Os cânticos da torcida no Camp Nou reverberam seu nome com uma reverência quase religiosa. Ele é o camisa 10, o craque inquestionável, a personificação da alma culé. E de repente, o impensável. A possibilidade de ele cruzar a linha inimiga para o maior rival, o Real Madrid, sob a batuta de um ambicioso Florentino Pérez, que acabara de prometer, em plena campanha eleitoral, que traria o português para o Bernabéu. Você se lembra daquele sentimento de incredulidade? Daquele friozinho na barriga que transformava a euforia do jogo em um nó no estômago?
O documentário faz um trabalho primoroso em não apenas recontar essa história, mas em nos fazer sentir a tensão de cada telefonema, a ambiguidade de cada promessa, a frieza de cada contrato. As entrevistas são a espinha dorsal: Figo, naturalmente, com sua voz que ainda parece carregar o peso de ter sido o pivô de um terremoto. Ele não se esquiva das perguntas, embora sua postura transmita uma certa resignação, uma tentativa de justificar decisões complexas. Mas ele não está sozinho. A genialidade do filme reside em trazer à tona as diversas vozes que moldaram essa saga: Pep Guardiola, o amigo e colega de time, que nos oferece uma visão íntima da dor da perda e da surpresa da traição, sem um pingo de rancor; Roberto Carlos e Fernando Hierro, que nos dão a perspectiva do lado vencedor, do Real Madrid que via em Figo a peça que faltava para o projeto dos “Galácticos”.
| Atributo | Detalhe |
|---|---|
| Diretores | Ben Nicholas, David Tryhorn |
| Elenco Principal | Luís Figo, Pep Guardiola, Roberto Carlos, Fernando Hierro, José Ramón de la Morena, Jorge Valdano, Paulo Futre, José Veiga, Joan Gaspart, Florentino Pérez |
| Gênero | Documentário |
| Ano de Lançamento | 2022 |
| Produtora | Pitch Productions |
E que tal os arquitetos por trás dos panos? Florentino Pérez, com seu sorriso maroto, que ainda hoje transborda a satisfação de um mestre estrategista que moveu as peças certas num tabuleiro onde ninguém esperava tamanha audácia. E Joan Gaspart, o presidente do Barcelona à época, cuja figura transpira a angústia e a frustração de quem tentou segurar o inevitável, de quem viu seu projeto e sua reputação desmoronarem. Essas vozes, somadas às de jornalistas como José Ramón de la Morena e dirigentes como Jorge Valdano e o próprio agente de Figo, José Veiga, constroem uma tapeçaria de narrativas que se entrelaçam e, por vezes, se contradizem sutilmente. É aí que o filme brilha: ele não busca um culpado, mas explora as múltiplas facetas de uma escolha que teve consequências gigantescas.
A direção de Nicholas e Tryhorn é ágil, mas nunca frenética. Eles misturam com maestria imagens de arquivo – aquelas cenas icônicas de Figo em campo, a fúria da torcida culé atirando objetos (inclusive a famigerada cabeça de porco!) quando ele retornou ao Camp Nou com a camisa branca – com as entrevistas atuais, criando uma ponte entre o passado e o presente que é tanto nostálgica quanto dolorosa. O ritmo varia, alternando momentos de explicações detalhadas sobre cláusulas contratuais e movimentos nos bastidores, com cortes rápidos para a emoção pura dos gramados e das arquibancadas. É um balé cinematográfico que reflete o caos e a ordem do futebol de alto nível.
“O Caso Figo” transcende a mera história de uma transferência. É um estudo de caráter, de ambição, de lealdade e, talvez mais importante, da comercialização crescente do esporte que amamos. Mostra como o futebol, em sua essência, ainda é sobre paixão e identificação, mas que, nos bastidores, é um jogo de poder e dinheiro, onde fortunas são feitas e reputações, destruídas. O que a transferência de Figo nos ensinou, e o que o documentário reforça com uma clareza cristalina, é que não há intocáveis no futebol; que o amor de uma torcida, por mais ardente que seja, pode ser posto à prova por cláusulas de rescisão e cifras milionárias.
Assistir a este documentário três anos após seu lançamento ainda me causa um arrepio. Ele não se propõe a resolver o debate de “certo ou errado”, mas sim a nos convidar a revisitar um momento crucial, a refletir sobre as escolhas que fazemos e as consequências que elas carregam. É um filme essencial não apenas para os amantes do futebol, mas para qualquer um interessado na complexa teia de relacionamentos humanos, onde a linha entre herói e vilão é, muitas vezes, tênue e mutável. Uma obra que, como a própria transferência de Figo, deixou uma marca indelével na história, e que continua a reverberar no imaginário de quem um dia se viu cativado pela magia – e pelo drama – da bola.




