Órfã 2: A Origem

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Ah, Órfã. Quem não se lembra do choque que aquele filme nos deu lá em 2009? Aquela reviravolta no final, o arrepio na espinha que nos acompanhou por dias… E assim, quando a notícia de um prelúdio, Órfã 2: A Origem, começou a circular, confesso que minha primeira reação foi uma mistura de ceticismo e uma curiosidade quase mórbida. Como revisitar algo tão icônico sem diluir a magia do original? Como trazer de volta Leena Klammer, a criança-mulher psicopata, sem que a tentativa de de-aging parecesse um truque barato? Mas, sabe, às vezes a gente se engana de um jeito delicioso.

Minha motivação para mergulhar neste artigo é justamente essa surpresa. Eu esperava uma repetição forçada, um caça-níqueis, e o que encontrei foi um thriller astuto que, de alguma forma, consegue se sustentar, e até mesmo inovar, sobre os ombros de seu predecessor. É uma prova de que, com a criatividade certa, até mesmo uma história cujos maiores segredos já foram revelados pode encontrar um novo fôlego.

A trama nos joga diretamente no passado sombrio de Leena Klammer (Isabelle Fuhrman), antes mesmo de ela se tornar a infame Esther Albright. Vemos sua “residence” – leia-se: prisão de segurança máxima na Estônia, como bem lembrou um dos críticos, onde ela é um perigo latente para quem quer que cruze seu caminho. A sequência de sua fuga é brutal, engenhosa e nos lembra, de forma visceral, a mente calculista e a força letal que habitam aquele corpo aparentemente frágil. Ela orquestra um plano brilhante para escapar e, impulsionada por um desejo insaciável de ter uma família e uma vida normal — ou sua versão distorcida de uma — ela se direciona aos Estados Unidos, assumindo a identidade de Esther, a filha desaparecida há anos da rica família Albright.

Aqui, o filme já começa a brincar com as nossas expectativas. Nós, o público, sabemos quem Leena realmente é. Sabemos da sua idade real, da sua natureza de psicopata sem escrúpulos, da sua capacidade para a manipulação e para o assassinato. A tensão, então, não vem de uma revelação chocante sobre quem é Esther, mas de como Leena vai se encaixar nesta nova família e, crucialmente, de como ela se compara com a “Esther” que conhecemos no primeiro filme.

Atributo Detalhe
Diretor William Brent Bell
Roteiristas Alex Mace, David Leslie Johnson-McGoldrick, David Coggeshall
Produtores James Tomlinson, Ethan Erwin, Hal Sadoff, Alex Mace
Elenco Principal Isabelle Fuhrman, Julia Stiles, Rossif Sutherland, Hiro Kanagawa, Matthew Finlan, Samantha Walkes, David Lawrence Brown, Lauren Cochrane, Gwendolyn Collins, Kristen Sawatzky
Gênero Terror, Thriller
Ano de Lançamento 2022
Produtoras Dark Castle Entertainment, Entertainment One, Eagle Vision

Isabelle Fuhrman, aos vinte e poucos anos, reprisa seu papel com uma maestria que beira o inacreditável. A equipe de produção usou uma combinação inteligente de perspectivas forçadas, dublês infantis e, sim, um pouco de magia digital, mas o cerne da performance é pura Fuhrman. Seus olhos ainda carregam aquele brilho infantilmente malicioso, sua voz ainda oscila entre a doçura e uma frieza cortante. Ela consegue nos fazer acreditar que aquela criatura ainda é a mesma, com a mesma sede de sangue e a mesma genialidade ardilosa. É uma daquelas performances que desafiam a lógica, e você se pega quase aplaudindo a audácia dela.

No entanto, o que realmente eleva Órfã 2: A Origem e o transforma de uma mera curiosidade em um thriller genuinamente empolgante é a introdução da família Albright e, em particular, de Julia Stiles como Tricia Albright. A sinopse já nos entrega a grande “rugas inesperada”: esta mãe protegerá sua família a qualquer custo. E quando digo “qualquer custo”, você, leitor, precisa entender que a dinâmica entre Leena/Esther e Tricia é o motor pulsante deste filme. Não é mais uma lobinha em pele de cordeiro contra um bando de ovelhas inocentes. Não, aqui temos um duelo de titãs, um embate de vontades e segredos de família que subverte completamente o que esperávamos.

Tricia não é uma vítima passiva. Ela é inteligente, complexa e tem seus próprios demônios e objetivos. Julia Stiles entrega uma performance que é um contraponto perfeito à loucura de Fuhrman, criando uma tensão palpável que permeia cada cena. Você sente o ar pesar quando as duas estão juntas em quadro. O filme se transforma numa espécie de jogo de xadrez psicológico, onde cada movimento de uma é respondido com uma contramovimento da outra, e nós, na plateia, estamos ali, roendo as unhas, tentando adivinhar quem vai dar o xeque-mate primeiro. O Detective Donnan (Hiro Kanagawa) e o filho Gunnar (Matthew Finlan) adicionam camadas a essa teia de enganos, mas é no olho no olho entre Leena e Tricia que a mágica acontece.

O diretor William Brent Bell (conhecido por filmes como Boneco do Mal) abraça o tom que o filme precisa. Ele não tenta ser excessivamente sério ou um terror puro de jumpscares. Em vez disso, ele mergulha de cabeça no aspecto de thriller psicológico, com toques de humor negro e uma atmosfera de suspense constante. Os roteiristas Alex Mace, David Leslie Johnson-McGoldrick e David Coggeshall merecem o crédito por ousarem ir além da simples recriação. Eles entenderam que, para um prequel funcionar, ele precisava trazer algo novo para a mesa, uma nova perspectiva sobre a personagem central e sobre o conceito de família e lealdade. Eles nos dão uma female psychopath que encontra sua rival, e a experiência é, para minha surpresa, revigorante.

Em vez de ser uma mera “origem” no sentido de explicar tudo, Órfã 2: A Origem é uma extensão astuta, uma releitura do mito de Esther que nos mostra a versatilidade de Leena como uma impersonator e escaped mental patient em busca de seu lugar no mundo, não importa o custo. É um filme que joga com as nossas expectativas, nos faz questionar quem é o verdadeiro monstro, e quem, afinal, está manipulando quem. Você se pega prendendo a respiração, rindo nervosamente das situações mais absurdas e, no final, saindo da sala com aquela sensação gostosa de ter sido enganado de uma forma muito, muito inteligente.

Para os fãs do original e para quem busca um thriller psicológico esperto e deliciosamente perturbador, Órfã 2: A Origem entrega uma experiência que, para minha surpresa, superou as expectativas e me deixou pensando por dias sobre as infinitas facetas da maldade e do instinto materno — de ambas as partes. É um pedaço de cinema que prova que, às vezes, as sequências e os prelúdios podem, sim, ter seu próprio brilho.