A cinematografia contemporânea frequentemente nos convoca a confrontar narrativas históricas dolorosas, e Espírito Indomável (Indian Horse), dirigido por Stephen S. Campanelli, emerge como uma obra visceral nesse panorama. Lançado em 13 de abril de 2018, este filme transcende a mera dramatização ao oferecer um olhar implacável sobre o sistema de escolas residenciais no Canadá e seus impactos devastadores na vida dos povos das Primeiras Nações, utilizando o hóquei no gelo como um inesperado — e complexo — catalisador de resiliência e trauma.
A tese central de Espírito Indomável não reside apenas na denúncia das atrocidades cometidas contra crianças indígenas, mas na argumentação de que, mesmo diante de uma tentativa sistemática de apagamento cultural e individual, o espírito humano encontra formas de sobrevivência e, em última instância, de busca por redenção. O filme explora como Saul, o protagonista, canaliza sua dor e o trauma da assimilação forçada em uma habilidade extraordinária no hóquei, transformando o esporte, paradoxalmente, em um refúgio e em um campo de batalha para sua identidade e seu legado roubado.
Stephen S. Campanelli, cuja vasta experiência como operador de câmera para cineastas como Clint Eastwood lhe conferiu uma sensibilidade apurada para a composição visual e a narrativa subjacente, imprime em Espírito Indomável uma direção que privilegia a intimidade e o realismo. Sua abordagem é marcada por um olhar atento aos espaços e às microexpressões, que sublinham a opressão e o isolamento. O diretor utiliza uma paleta de cores fria e desaturada nas cenas ambientadas na escola residencial de St. Jerome, onde a arquitetura austera e a iluminação difusa intensificam a sensação de claustrofobia e desespero. Em contraste, os flashbacks para a infância de Saul na natureza e as sequências de hóquei, especialmente aquelas que antecedem o abuso, exibem tons mais quentes e uma vitalidade visual que servem para acentuar a perda do paraíso inocente.
Tecnicamente, o filme é um exemplar de como a mise-en-scène pode amplificar a experiência narrativa. A fotografia, sob a direção de Yves Bélanger, é fundamental para transmitir a jornada emocional de Saul, alternando closes intensos que capturam a vulnerabilidade e a raiva do protagonista com planos abertos que enfatizam sua solidão ou, inversamente, a vastidão do gelo onde encontra sua liberdade temporária. A edição de David B. Thompson habilmente costura os diferentes períodos da vida de Saul (interpretado por Sladen Peltier aos 6, Forrest Goodluck aos 15 e Ajuawak Kapashesit aos 22 anos), criando uma ponte fluida entre o trauma infantil e suas reverberações na vida adulta. A atuação dos três atores que dão vida a Saul é notável, com Sladen Peltier entregando uma performance de sofrimento silencioso e resiliência infantil que é profundamente comovente, enquanto Forrest Goodluck capta a fúria e o talento emergente do adolescente. Contudo, é Ajuawak Kapashesit quem encarna o peso do trauma acumulado, notavelmente na cena em que Saul, já adulto, revisita as memórias da escola e a dor explode em um momento de catarse dolorosa e necessária, exibindo uma química crua com a própria memória de seu passado. A contribuição de Edna Manitowabi como Naomi, a avó de Saul, é igualmente vital, servindo como a voz da memória e da ancestralidade que o protagonista luta para reconectar.
| Direção | Stephen S. Campanelli |
| Roteiro | Dennis Foon |
| Elenco Principal | Sladen Peltier (Saul (6 years)), Forrest Goodluck (Saul (15 years)), Ajuawak Kapashesit (Saul (22 Years)), Edna Manitowabi (Naomi), Michael Murphy (Father Quinney) |
| Gêneros | Drama |
| Lançamento | 13/04/2018 |
| Produção | Devonshire Productions, Screen Siren Pictures |
Os temas de Espírito Indomável são multifacetados e urgentes. A assimilação forçada e o abuso nas escolas residenciais são o cerne da narrativa, mostrando como a língua, a cultura e a identidade foram sistematicamente erradicadas. O filme ilustra isso com cenas de crianças sendo punidas por falarem sua língua materna ou tendo seus longos cabelos cortados, símbolos de sua herança. O racismo e o preconceito permeiam a jornada de Saul no mundo do hóquei, onde ele enfrenta a hostilidade da audiência e de adversários que o veem como um “outro”, um invasor. No entanto, é no gelo que Saul encontra uma voz, uma forma de expressão que transcende as barreiras impostas pela sociedade, usando sua visão quase mística para prever a trajetória do disco. O hóquei, inicialmente um escape, transforma-se em um catalisador para a confrontação de seu trauma, levando-o a um caminho de cura e à tentativa de reconciliação com sua herança.
Dentro do nicho de dramas históricos sobre o impacto do colonialismo e a busca por identidade em povos nativos, Espírito Indomável se alinha a obras que abordam o trauma geracional e a resiliência cultural com um forte enfoque cultural e identitário. Nesse contexto, podemos compará-lo a:
1. “A cerca da Liberdade” (Rabbit-Proof Fence, 2002), dirigido por Phillip Noyce: Um filme australiano que aborda a política das “Gerações Roubadas”, onde crianças aborígenes eram removidas de suas famílias para serem “educadas” em campos de assimilação, similar ao sistema de escolas residenciais. Ambos os filmes exploram a força do espírito humano em face da opressão institucional, focando na jornada física e emocional de crianças para reencontrar suas raízes.
2. “Rhymes for Young Ghouls” (2013), dirigido por Jeff Barnaby: Este drama canadense, que apresenta uma abordagem mais sombria e elementos de realismo mágico, também se passa em uma escola residencial indígena no Canadá, mostrando a resistência e a sobrevivência de uma jovem Mi’kmaq. Ambos os filmes compartilham o cenário opressor e a temática da luta pela dignidade e identidade contra um sistema brutal.
Espírito Indomável é uma contribuição essencial e corajosa ao cinema que busca iluminar verdades históricas dolorosas. É um filme necessário para aqueles interessados em história social, nos desafios enfrentados pelos povos indígenas e no poder da resiliência humana. Longe de ser apenas uma crônica de sofrimento, a obra de Campanelli convida à reflexão sobre a capacidade de cura e a importância de reconectar-se com as raízes culturais. Sua relevância perdura, ecoando as vozes daqueles que sobreviveram para contar suas histórias.




