Consequências

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Consequências (Posledice), a aclamada obra de estreia do diretor esloveno Darko Štante, emerge como um drama pungente e sem concessões sobre a vulnerabilidade e a resiliência da juventude em um ambiente de confinamento. Lançado em 2018, o filme não se contenta em ser uma mera narrativa sobre a detenção juvenil, mas sim um estudo visceral das profundas implicações da repressão identitária e da luta por sobrevivência em um microcosmo de masculinidade tóxica.

A tese central da obra reside na exploração implacável das consequências – título que não poderia ser mais apto – de um sistema que, ao invés de reabilitar, frequentemente sufoca e distorce a identidade individual. Štante argumenta que a pressão para se conformar a normas heteronormativas e a hierarquias brutais dentro da instituição não apenas exacerba os problemas dos jovens detidos, mas também gera novas feridas psicológicas. O filme ilustra como a negação do eu, em particular da sexualidade, pode levar a atos de desespero e auto-sabotagem, tornando-se um comentário incisivo sobre a falência de certas abordagens correcionais.

A direção de Darko Štante, cuja experiência anterior inclui o trabalho com jovens em instituições similares, confere à Consequências uma autenticidade quase documental. Sua abordagem é marcada por um naturalismo cru, evitando qualquer glamorização da violência ou do ambiente prisional. Štante emprega uma estética despojada, com uma paleta de cores predominantemente fria e acinzentada que reflete a desolação do centro de detenção. A câmera frequentemente se move de forma ágil e próxima, quase como uma testemunha silenciosa, capturando a energia volátil e a tensão latente que permeiam cada interação.

Tecnicamente, o filme se destaca pela construção atmosférica e pela performance intensa de seu elenco. A cinematografia de Rok Nagode utiliza a luz natural de forma eficiente, criando sombras densas que acentuam a sensação de confinamento e o isolamento de Andrej. O design de som, muitas vezes minimalista, pontua a narrativa com ruídos ambientes do centro – o arrastar de pés, o ranger de portas, o eco de vozes – amplificando a sensação de aprisionamento. No centro de tudo está a atuação notável de Matej Zemljič como Andrej. Sua interpretação é um tour de force de contenção, transmitindo a angústia interna e a vulnerabilidade do personagem através de olhares furtivos, posturas defensivas e uma linguagem corporal que grita silenciosamente sua luta. A química com Timon Šturbej, que interpreta o carismático e perigoso líder Zeljko, é eletrizante. Em uma cena particularmente memorável no telhado da instituição, a tensão entre os dois é palpável, com Zeljko testando os limites de Andrej, cujas expressões sutis revelam um misto de medo e atração, encapsulando o dilema central do protagonista. O roteiro de Štante é conciso, preferindo a sugestão ao invés da exposição explícita, permitindo que o público preencha as lacunas emocionais e se envolva profundamente com o tormento de Andrej.

Direção Darko Štante
Roteiro Darko Štante
Elenco Principal Matej Zemljič (Andrej), Timon Šturbej (Zele), Gašper Markun (Niko), Rosana Hribar (Mati / Mother), Dejan Spasič (Oče / Father)
Gêneros Drama, Crime
Lançamento 18/10/2018
Produção Temporama

Os temas centrais de Consequências orbitam em torno da repressão sexual e da descoberta da identidade LGBTQ+ em um contexto hostil. Andrej, um homossexual enrustido, é forçado a confrontar seus desejos mais íntimos em um ambiente onde a homofobia é rampante e a vulnerabilidade é vista como fraqueza. O filme aborda as “consequências” não apenas dos pequenos crimes que levaram Andrej à detenção, mas, mais crucialmente, as repercussões devastadoras de sua sexualidade reprimida. A narrativa explora como os jovens problemáticos são moldados e, muitas vezes, ainda mais traumatizados por sistemas que deveriam corrigi-los, destacando a importância da aceitação e do apoio em vez da punição.

No panorama de dramas que exploram a identidade LGBTQ+ em ambientes opressivos, Consequências se posiciona firmemente no nicho do drama de amadurecimento LGBTQ+ em contexto de detenção juvenil, explorando dinâmicas de poder e repressão sexual. Dentro deste subgênero específico, o filme dialoga tematicamente com obras que abordam a homossexualidade em instituições fechadas e a pressão da conformidade masculina. Pode-se traçar paralelos com “Great Freedom” (Große Freiheit, 2021), que explora a repressão da homossexualidade em prisões pós-guerra na Alemanha, compartilhando o tema central da identidade e sobrevivência em um ambiente hostil e oprimido cultural e legalmente. Similarmente, “Moffie” (2019), de Oliver Hermanus, retrata a experiência de um jovem gay no serviço militar obrigatório na África do Sul do apartheid, espelhando a intensa pressão para suprimir a sexualidade em nome da conformidade masculina e das expectativas sociais. Ambas as obras, como Consequências, sublinham a brutalidade da invisibilidade forçada e as “consequências” pessoais da luta para existir autenticamente.

Consequências é um filme brutalmente honesto e uma adição essencial para quem busca narrativas sobre a complexidade da identidade juvenil, os perigos da repressão social e as falhas inerentes a certos sistemas de correção. Longe de ser um mero entretenimento, ele é um estudo de personagem instigante sobre a vulnerabilidade e a resiliência humanas, convidando a uma reflexão profunda sobre o custo da não-aceitação e a importância da empatia em face da adversidade. É um filme para o público que aprecia dramas intensos e de alto impacto emocional, com relevância duradoura para as discussões sobre direitos LGBTQ+ e a reforma juvenil.

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