Serei Amado Quando Morrer

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Serei Amado Quando Morrer, o documentário de Morgan Neville lançado em 2018, transcende a simples cronologia da produção de “O Outro Lado do Vento”, o projeto inacabado de Orson Welles. A obra se configura como uma autópsia cinematográfica da última grande batalha artística de um dos cineastas mais influentes e, paradoxalmente, mais marginalizados de Hollywood. Ele não é apenas um registro factual, mas uma reflexão pungente sobre o legado, a persistência artística e a, por vezes, cruel indiferença da indústria em relação a talentos que desafiam suas convenções.

A tese central que sustenta o documentário é a de que a saga de “O Outro Lado do Vento” espelha a própria trajetória de Welles após “Cidadão Kane”: um gênio incompreendido que, apesar de sua visão inabalável, foi constantemente sabotado por entraves financeiros, burocráticos e pela miopia de um sistema que ele tanto ajudou a definir quanto a perturbar. Neville argumenta que a conclusão póstuma do filme de Welles é menos uma vitória técnica e mais um epitáfio agridoce para um artista que buscava validação até o último suspiro, confrontando a questão fundamental: seria Welles amado e compreendido apenas depois de morrer?

Morgan Neville demonstra maestria na direção ao tecer uma narrativa complexa a partir de fragmentos. Sua escolha de entrelaçar imagens de arquivo inéditas do próprio Welles, capturadas durante os seis anos de intermitente produção de “O Outro Lado do Vento”, com entrevistas contemporâneas do elenco e da equipe, é a espinha dorsal de sua abordagem. Essa fusão temporal não apenas reconstrói os eventos, mas também infunde o documentário com uma melancolia reflexiva. Neville evita o tom sensacionalista, optando por uma reverência ponderada que permite a Welles, mesmo postumamente, ser o grande protagonista. A montagem habilidosa estabelece um diálogo contínuo entre a visão de Welles no passado e a interpretação de seus colaboradores no presente, criando camadas de compreensão sobre o homem e o artista.

Tecnicamente, o filme é um feito de edição e curadoria. A transição entre as imagens granuladas e de diversos formatos dos bastidores de “O Outro Lado do Vento” e a nitidez das entrevistas atuais é executada com fluidez. O design de som é crucial, com a narração de Alan Cumming servindo como um guia ponderado, pontuado pelas vozes de Peter Bogdanovich e Oja Kodar, cujos testemunhos pessoais e insights sobre Welles oferecem a profundidade emocional necessária. A utilização de trechos do filme inacabado, agora finalmente finalizado, permite ao espectador vislumbrar a audácia estética de Welles, reforçando a tragédia de sua luta para vê-lo concluído. É a montagem que dá ritmo e inteligência à obra, alternando a euforia da criação com a frustração do impasse, forçando o espectador a sentir a montanha-russa emocional que foi o processo de “O Outro Lado do Vento”.

Direção Morgan Neville
Elenco Principal Alan Cumming (Narrator (voice)), Peter Bogdanovich (Self), Oja Kodar (Self), Orson Welles (Self (archive footage)), Steve Ecclesine (Self)
Gêneros Documentário
Lançamento 31/08/2018
Produção Tremolo Productions, Royal Road Entertainment

Os temas abordados são universais, porém aqui ganham contornos shakespearianos. A busca por um legado duradouro e a obsessão artística são palpáveis. Welles, interpretado aqui por sua própria imagem e pelas palavras de seus próximos, é o eterno outsider, preso entre o desejo de inovar e a necessidade de financiamento. O documentário discute a natureza do envelhecimento para um artista cuja genialidade era medida por seu vigor criativo, e a frustração de ver seus projetos presos em um limbo legal e financeiro. Uma cena particularmente tocante, composta de imagens de Welles já idoso no set, demonstra sua paixão incansável e a crença inabalável em sua arte, mesmo quando o mundo parecia ter virado as costas. Essa obstinação se choca com a visão de Hollywood, muitas vezes avessa a ideias que fogem do molde comercial, perpetuando o ciclo de incompreensão que marcou a carreira tardia de Welles.

No nicho de Documentários Biográficos sobre Cineastas Icônicos e Projetos Inacabados, Serei Amado Quando Morrer se alinha a obras que desvendam a complexidade da criação cinematográfica sob pressão e a lenda de obras “malditas”. Filmes como Lost in La Mancha (2002), que narra a saga tortuosa de Terry Gilliam para rodar seu “Don Quixote”, e Jodorowsky’s Dune (2013), que explora o monumental projeto não realizado de Alejandro Jodorowsky, compartilham com a obra de Neville a exploração da ambição artística que transcende as barreiras práticas e financeiras. Ambos os filmes abordam a frustração inerente à visão grandiosa que não encontra eco na realidade de produção, focando na figura do diretor como um visionário que batalha contra um sistema que o limita, e o impacto cultural dessas obras inacabadas ou malfadadas, que, mesmo assim, reverberam na história do cinema.

Em suma, Serei Amado Quando Morrer não é apenas um registro histórico; é um lamento e uma celebração da obstinação artística. O filme se destina a cinéfilos, historiadores do cinema e a qualquer um interessado na psicologia do gênio criativo e nas intrincadas relações entre arte, dinheiro e legado. A obra de Morgan Neville serve como um poderoso lembrete de que, para alguns visionários, a verdadeira apreciação de sua arte pode, de fato, vir apenas depois de sua morte.