O cinema sul-coreano, com sua habilidade singular de fundir gêneros e entregar narrativas de alto impacto, consolidou-se como uma força global. Neste cenário, Midnight Runners, dirigido e escrito por Kim Joo-hwan, emerge como uma obra exemplar de comédia de ação e crime que subverte expectativas, oferecendo uma perspectiva fresca sobre a busca por justiça. Lançado em 2017 pela Lotte Entertainment e uma constelação de estúdios, o filme não é meramente um entretenimento acelerado; ele se posiciona como um estudo vibrante da impetuosidade juvenil confrontando a morosidade burocrática, defendendo que a intenção pura, por vezes, é a bússola mais eficaz em um labirinto legal.
A tese central de Midnight Runners reside na dicotomia entre a idealização da lei e sua aplicação prática, evidenciada pela jornada de Ki-joon (Park Seo-joon) e Hee-yeol (Kang Ha-neul). A narrativa argumenta que a verdadeira justiça nem sempre se alinha com os protocolos estabelecidos, especialmente quando a vida humana está em jogo. O filme sugere que a paixão e a convicção de indivíduos, mesmo sem a chancela oficial, podem impulsionar ações mais decisivas do que um sistema por vezes paralisado por regras. Os protagonistas, ainda em formação, personificam essa busca por uma justiça imediata e visceral, desafiando a estrutura hierárquica que os impede.
A direção de Kim Joo-hwan é marcada por um ritmo frenético que oscila com maestria entre a comédia descompromissada e a ação brutal. O diretor emprega uma abordagem dinâmica, utilizando cortes rápidos em sequências de perseguição e luta que mantêm a adrenalina do espectador em alta, ao mesmo tempo em que permite que as cenas de diálogo respirem, garantindo que o humor surja naturalmente da química dos personagens. A evolução estilística de Kim, ainda que Midnight Runners seja um de seus primeiros grandes sucessos, já demonstra uma inclinação para narrativas que exploram a amizade masculina sob pressão, um tema que ele revisitou em trabalhos posteriores, aprimorando sua capacidade de construir relações críveis e cativantes.
Tecnicamente, o filme é um espetáculo de execução precisa. A atuação de Park Seo-joon e Kang Ha-neul é o pilar emocional da obra. A química entre os dois é palpável, transformando cada interação em um momento de genuíno bromance. Em particular, a cena em que Ki-joon tenta desesperadamente reanimar uma das vítimas com técnicas improvisadas, enquanto Hee-yeol tenta decifrar a situação caótica, ilustra a complementaridade e o desespero de ambos; a vulnerabilidade cômica de um contrasta com a inteligência prática do outro, carregando o peso da urgência e da inexperiência simultaneamente. O roteiro, também assinado por Kim Joo-hwan, equilibra com rara habilidade os momentos de alívio cômico com a seriedade sombria do tráfico humano, evitando que o tom se torne excessivamente leve ou pesado. A fotografia, com sua paleta de cores predominantemente urbana e noturna, enfatiza a sensação de urgência e perigo, especialmente quando os protagonistas se aventuram pelas vielas escuras do bairro coreano-chinês. O design de som, por sua vez, amplifica a tensão nas cenas de confronto e a comicidade nas interações verbais, criando uma experiência imersiva e envolvente.
| Direção | 김주환 |
| Roteiro | 김주환 |
| Elenco Principal | Park Seo Joon (Ki-joon), Kang Ha Neul (Hee-yeol), 성동일 (Professor Yang), 박하선 (Joo-hee), 고준 (Young-choon) |
| Gêneros | Comédia, Ação, Crime |
| Lançamento | 09/08/2017 |
| Produção | Lotte Entertainment, Movierock, Studio By The Library, Very Good Studio |
Tematicamente, Midnight Runners se aprofunda na questão da justiça vigilante versus a lei estabelecida. A dupla, movida por uma bússola moral inabalável e a impetuosidade da juventude, decide que a inação policial é inaceitável. O filme também aborda a marginalização e a invisibilidade de certas comunidades, como a dos Joseonjok (coreanos-chineses) retratada no filme, cujas vítimas são exploradas pela ausência de uma vigilância social mais atenta. A crueldade do esquema de tráfico de órgãos, com o vilão Young-choon (Go Joon) como uma figura fria e calculista, serve como um contraponto brutal ao idealismo dos jovens recrutas. A compaixão dos protagonistas pelas vítimas, independentemente de sua origem, é um tema central, provando que a humanidade básica pode superar as barreiras institucionais e preconceituosas. Um momento inesquecível é a corrida desesperada de Ki-joon e Hee-yeol através da cidade, transportando uma das vítimas feridas para o hospital, demonstrando fisicamente seu compromisso e a dificuldade de sua missão “extraoficial”.
No nicho de Comédia de Ação e Crime com Protagonistas Inexperientes, Midnight Runners encontra ressonância com outras obras sul-coreanas que misturam adrenalina, humor e um forte senso de justiça. Pode ser comparado a filmes como “Veteran” (2015) e “Extreme Job” (2019). Ambos os filmes compartilham a mistura de sequências de ação dinâmicas, um timing cômico afiado e a busca incessante por justiça por parte de personagens que, de alguma forma, operam fora das convenções ou são subestimados. Enquanto “Veteran” foca em um detetive experiente mas pouco ortodoxo e “Extreme Job” em uma equipe policial desajeitada que se infiltra sob disfarce, Midnight Runners eleva a aposta ao apresentar recrutas sem autoridade formal. A justaposição de seus métodos não convencionais com o crime organizado, muitas vezes enraizado em submundos sociais e culturais específicos, como a comunidade coreano-chinesa abordada em Midnight Runners, revela um subgênero robusto na Coreia do Sul que explora as lacunas entre a lei e a ordem, e a capacidade do indivíduo de fazer a diferença.
Midnight Runners é uma explosão de energia e carisma que não apenas diverte, mas também provoca reflexão. É um filme que ressoa profundamente com o público que valoriza histórias sobre amizade, coragem e a busca incansável pela justiça, mesmo quando o sistema parece falhar. É uma recomendação assertiva para fãs de comédias de ação que apreciam um toque de crítica social e personagens cativantes, consolidando-se como um dos destaques do cinema sul-coreano em seu ano de lançamento e um testemunho do poder da ação com coração.




