A filmografia de Steven Soderbergh é pontuada por uma exploração incansável das nuances do crime, da moralidade e das complexidades humanas que se desdobram em meio a grandes planos. Em 2017, após um período de suposta “aposentadoria”, o diretor retornou com Logan Lucky: Roubo em Família, uma obra que, embora ressoe com seu passado no gênero de assalto, se distingue notavelmente pela sua perspectiva e estética. Longe dos diamantes e cassinos opulentos de Las Vegas, Soderbergh nos transporta para as pistas empoeiradas e o charme peculiar da Carolina do Norte, redefinindo o que um filme de roubo pode ser.
A tese central que sustenta Logan Lucky é a desconstrução do arquétipo do gênio criminoso. O filme celebra a “engenhosidade blue-collar”, provando que a inteligência não se limita a diplomas universitários ou a grandes fortunas. Jimmy e Clyde Logan, demitidos e estigmatizados pela “maldição da família”, são os catalisadores de um plano meticuloso para roubar um cofre sob o circuito de corridas de NASCAR. Este não é um assalto de alta tecnologia com lasers e sistemas avançados; é um golpe de pura astúcia, aproveitando-se de conhecimentos locais e da capacidade de pensar fora da caixa, subvertendo as expectativas do público sobre quem pode orquestrar um grande roubo e, mais importante, quem merece fazê-lo.
A direção de Steven Soderbergh, que também assume a cinematografia sob o pseudônimo de Peter Andrews, é uma das forças motrizes do filme. Após a trilogia Ocean’s, Logan Lucky representa um ajuste tonal perceptível. Soderbergh emprega uma paleta de cores mais terrosa, com uma iluminação que simula a luz natural e a poeira ambiente, conferindo à narrativa uma autenticidade crua que contrasta com o brilho polido de seus trabalhos anteriores. A câmera, muitas vezes operada em um estilo mais descontraído, acompanha os personagens de perto, mergulhando o espectador em seu mundo. A montagem, característica de Soderbergh, é precisa, mas não apressada, permitindo que a comédia se desenvolva organicamente e que a tensão cresça gradualmente antes da execução do plano.
No plano técnico, a atuação é um pilar fundamental. Channing Tatum entrega um Jimmy Logan com uma gravidade silenciosa e uma vulnerabilidade palpável, mas com um brilho de determinação nos olhos que contradiz a percepção de sua falta de sorte. Adam Driver, como Clyde, é um contraponto sublime, com seu braço protético e uma entrega humorística e de poucas palavras que irradia uma inteligência subestimada. Contudo, é Daniel Craig, como Joe Bang, o especialista em explosivos, quem rouba as cenas. Seu sotaque sulista exagerado e sua persona excêntrica, que oscila entre a genialidade e a loucura controlada, são um show à parte, como evidenciado na cena em que ele explica a química de um explosivo usando gominhas de ursinho. O roteiro, assinado por Jules Asner (pseudônimo de Rebecca Blunt), é um triunfo de diálogos afiados e de uma construção de enredo que se desdobra com uma sagacidade impressionante, permitindo reviravoltas que são tanto inesperadas quanto orgânicas à trama.
| Direção | Steven Soderbergh |
| Roteiro | Jules Asner |
| Elenco Principal | Channing Tatum (Jimmy Logan), Adam Driver (Clyde Logan), Daniel Craig (Joe Bang), Riley Keough (Mellie Logan), Katie Holmes (Bobbie Jo Chapman) |
| Gêneros | Comédia, Crime, Ação, Drama |
| Lançamento | 17/08/2017 |
| Produção | Fingerprint Releasing |
Os temas centrais de Logan Lucky ecoam a realidade da classe trabalhadora americana. A “maldição dos Logan”, uma série de infortúnios familiares, é uma metáfora para as lutas econômicas e as percepções sociais negativas que muitas vezes atingem comunidades rurais. A irmandade entre Jimmy e Clyde, e a participação de Mellie (Riley Keough), são a espinha dorsal emocional do filme, destacando a lealdade familiar como um refúgio contra as adversidades. A fala de Joe Bang sobre “baratas”, referindo-se aos Logans como sobreviventes que sempre encontram um jeito de se virar, encapsula perfeitamente a resiliência e a capacidade de adaptação dos personagens, transformando a desvantagem em uma forma de vantagem.
No nicho de comédias de assalto “blue-collar” com um toque de drama e ambientação sulista, Logan Lucky se posiciona de forma singular. Para verificar a expertise, é mandatório compará-lo com outro trabalho do mesmo diretor. O filme se distingue marcantemente de Onze Homens e um Segredo (2001), também de Steven Soderbergh. Enquanto Onze Homens exalta o glamour e a sofisticação de um assalto em Las Vegas, com personagens impecavelmente vestidos e tecnologia de ponta, Logan Lucky abraça a estética e a mentalidade do “redneck” americano, trocando os ternos caros por roupas de trabalho e o planejamento high-tech por um conhecimento empírico do terreno e da logística de uma corrida de NASCAR. A justificativa para esta comparação reside na habilidade de Soderbergh em adaptar sua assinatura de direção – planos meticulosos, reviravoltas inteligentes e um elenco estelar – para explorar diferentes extratos sociais e suas respectivas abordagens ao crime, mostrando que a complexidade do assalto pode ser tão fascinante na simplicidade do campo quanto no luxo da cidade, com um enfoque identitário claro na representação das comunidades do Sul dos EUA.
O momento mais memorável do filme, aquele que solidifica a tese da engenhosidade subestimada, é a sequência do “resgate” e “retorno” de Joe Bang à prisão. A intrincada dança entre os irmãos Logan e a equipe da prisão, orquestrada com precisão de relógio e um timing cômico impecável, é uma prova da capacidade dos personagens de manipular o sistema e de explorar cada falha com um brilho surpreendente. A cena, que é um assalto dentro de outro assalto, é executada com uma leveza que mascara sua complexidade, ressaltando o quão eficientes e invisíveis os Logans podem ser.
Logan Lucky: Roubo em Família é uma joia inesperada na carreira de Steven Soderbergh, um filme que prova que o entretenimento inteligente pode vir de onde menos se espera. É uma comédia de assalto com coração e inteligência, uma celebração dos underdogs e uma desconstrução carinhosa de estereótipos. Para quem busca uma narrativa de crime astuta, com personagens memoráveis e um senso de humor único, tudo sob a batuta de um mestre do cinema, este filme é uma escolha essencial. É uma prova vibrante de que, no cinema, assim como na vida, a aparência pode ser enganosa, e o verdadeiro tesouro reside na originalidade e no espírito humano.




