A Última Palavra

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A Última Palavra, dirigido por Mark Pellington e lançado em 3 de março de 2017, emerge como uma obra cinematográfica que transcende a premissa de um mero drama cômico para se aprofundar na complexa tapeçaria da vida, legado e o poder redentor das conexões humanas. O filme não se contenta em apresentar uma mulher idosa em busca de um epitáfio perfeito; ele questiona a própria noção de como a vida é lembrada e, mais crucialmente, como ela pode ser reescrita até o último suspiro.

A tese central da narrativa reside na ideia de que um obituário é mais do que um relato factual da vida; é um reflexo da percepção, um testamento do que se deseja que seja lembrado, e uma oportunidade de confrontar a verdade nua e crua. Harriet Lauler, interpretada com maestria por Shirley MacLaine, é a personificação dessa luta entre a imagem meticulosamente curada e a dolorosa realidade de uma existência que, apesar de bem-sucedida, carece de afeto e autenticidade. O filme argumenta que a verdadeira “última palavra” sobre uma vida não é escrita por um jornalista, mas sim forjada nos laços que construímos e nas transformações que ousamos empreender, independentemente da idade.

A direção de Mark Pellington, frequentemente associado a thrillers psicológicos e narrativas mais sombrias, surpreende em A Última Palavra com uma sensibilidade e calor que, embora atípicos, são profundamente eficazes. Pellington utiliza sua experiência em criar atmosferas intensas para dar peso à solidão inicial de Harriet, empregando planos longos e composições que enfatizam o isolamento da personagem em sua mansão impecável. Contudo, à medida que a improvável amizade entre Harriet e a jornalista Anne Sherman (Amanda Seyfried) floresce, a linguagem visual se expande. A paleta de cores gradualmente se torna mais vibrante, e a câmera, antes estática, adquire um dinamismo que reflete a libertação emocional das protagonistas. É notável como Pellington consegue extrair a gravidade do passado de Harriet, incluindo sua tentativa de suicídio, com a mesma sobriedade que um cineasta de suspense aplicaria a um ponto de virada crucial, mas com uma nuance empática que eleva o drama pessoal.

Tecnicamente, o roteiro de Stuart Ross Fink é uma das forças motrizes do filme, equilibrando comédia ácida e momentos de profunda introspecção. O diálogo é afiado e revela habilmente as camadas de cada personagem, desde as tiradas controladoras de Harriet até a timidez inicialmente cínica de Anne. A química entre Shirley MacLaine e Amanda Seyfried é palpável e evolui de uma colisão de personalidades para uma cumplicidade genuína. MacLaine, com sua conhecida ferocidade cênica, entrega uma Harriet que é inicialmente repulsiva em sua tirania, mas gradualmente revela uma vulnerabilidade e um arrependimento que humanizam a personagem de forma tocante, especialmente na cena em que discute abertamente sua dor com Anne, sua voz embargada transmitindo décadas de solidão. Seyfried, por sua vez, navega a transformação de Anne de uma escritora de obituários desiludida para uma amiga e defensora com uma autenticidade comovente, seu olhar expressando uma mistura de frustração e afeição. O design de som, por sua vez, utiliza a rádio como um elemento narrativo chave; a voz de Harriet no ar, inicialmente apenas para ditos populares, evolui para um confessionário público, amplificando o tema de autodescoberta e a quebra de barreiras pessoais.

Direção Mark Pellington
Roteiro Stuart Ross Fink
Elenco Principal Shirley MacLaine (Harriet Lauler), Amanda Seyfried (Anne Sherman), Anne Heche (Elizabeth), Thomas Sadoski (Robin Sands), Philip Baker Hall (Edward)
Gêneros Comédia, Drama
Lançamento 03/03/2017
Produção Franklin Street, Myriad Pictures, Parkside Pictures, Wondros

Os temas centrais de A Última Palavra são múltiplos: o legado que deixamos, a busca por redenção, a natureza da amizade e a luta entre controle e autenticidade. A tentativa de Harriet de microgerenciar seu próprio obituário é a prova visual de seu desejo de controlar a narrativa de sua vida, mesmo post-mortem. No entanto, a verdadeira redenção surge não da escrita de um obituário idealizado, mas de atos espontâneos, como o episódio de vandalismo em um muro público – uma cena de libertação catártica para Harriet, que ali demonstra seu desejo de quebrar as próprias regras autoimpostas. A road trip subsequente com Anne e os jovens que Harriet “adota” metaforicamente, serve como uma jornada física e emocional, desfazendo a rigidez de sua vida passada e abrindo caminho para novas experiências e relacionamentos genuínos. É nessas interações imprevisíveis que Harriet começa a redefinir seu legado, não através de palavras cuidadosamente escolhidas, mas através de ações significativas.

Dentro do nicho de dramédias de redenção e amizade intergeracional, A Última Palavra encontra paralelos em obras que exploram transformações tardias na vida impulsionadas por conexões inesperadas. Este subgênero de filmes frequentemente aborda a superação de barreiras sociais e pessoais através da interação entre gerações distintas. Pode-se traçar uma linha comparativa com “Conduzindo Miss Daisy” (1989), que celebra a evolução de uma complexa amizade entre uma mulher idosa e seu motorista mais jovem, superando preconceitos e diferenças para alcançar um profundo respeito mútuo. De forma análoga, “Gran Torino” (2008), embora de tom mais sombrio, compartilha o arcabouço de um protagonista idoso e recluso que, através do relacionamento com um jovem de uma cultura diferente, encontra um propósito renovado e um caminho para a redenção, reavaliando a própria vida e o que significa deixar uma marca. Ambos os filmes exploram a dinâmica cultural e identitária de preencher lacunas geracionais, permitindo que personagens mais velhos encontrem um novo significado e deixem um legado mais significativo através de suas interações com o mundo jovem.

Em sua essência, A Última Palavra é uma meditação tocante e bem-humorada sobre a fragilidade da vida e a força da conexão humana. Longe de ser apenas uma história sobre a morte, é um vibrante hino à vida e à possibilidade de recomeçar a qualquer idade. O filme é indicado para o público que aprecia narrativas com coração e humor, que se permitem refletir sobre o propósito da existência e o poder transformador de uma amizade inesperada. É uma obra que questiona o que verdadeiramente importa quando as cortinas da vida começam a se fechar, e oferece uma perspectiva otimista sobre a capacidade humana de crescimento e amor.

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