O Projeto Monstro

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Uma imersão visceral no submundo digital do terror, O Projeto Monstro (The Monster Project), lançado em 18 de agosto de 2017, redefine a experiência do gênero através de sua estética de filmagem encontrada e a intrínseca incorporação de elementos screenlife e livestream. Dirigido por Victor Mathieu, que também assina o roteiro ao lado de Corbin Billings e Shariya Lynn, a obra se posiciona não apenas como um filme de terror com criaturas sobrenaturais, mas como um comentário aguçado sobre o voyeurismo e a performance na era da hiperconectividade.

A tese central que sustenta O Projeto Monstro é a desestabilização da fronteira entre o real e o encenado, forçando o espectador a confrontar o horror não como uma ficção distante, mas como um evento transmitido em tempo real, com todas as suas imperfeições e brutalidades. O filme transcende a mera premissa de um grupo caçando monstros, transformando o ato de filmar e transmitir em um dispositivo narrativo que questiona a própria natureza da evidência e da experiência traumática quando mediada por câmeras e telas. A autenticidade da câmera portátil torna-se uma ferramenta para explorar a vulnerabilidade humana diante do inexplicável e a insaciável sede por conteúdo extremo.

A direção de Victor Mathieu revela uma compreensão profunda das convenções do found footage, subvertendo expectativas ao infundir a narrativa com a urgência e a imprevisibilidade de uma transmissão ao vivo. Mathieu não se limita a emular o estilo amador; ele o eleva, utilizando a limitação da perspectiva para amplificar o terror. Sua abordagem deliberada em manter as criaturas (vampiros, lobisomens, demônios) frequentemente fora de foco ou apenas parcialmente visíveis em jump scares cria uma atmosfera de pavor que é muito mais potente do que qualquer revelação explícita. A câmera, operada pelos personagens Shayla (Yvonne Zima) e Devon (Justin Bruening), torna-se uma extensão de sua própria percepção, um olhar desesperado que luta para registrar o indizível.

Tecnicamente, o filme se destaca pela engenhosidade de sua mise-en-scène. A fotografia, executada por Michael Williams, com sua estética granulada e iluminação natural ou artificial limitada (lanternas, luzes de celular), confere uma textura palpável de realismo documental. A montagem, coesa e rítmica para um filme do gênero, por vezes emprega cortes abruptos para simular falhas de transmissão ou para intensificar a sensação de pânico, como na sequência onde o grupo tenta escapar de uma criatura no sótão, com a imagem oscilando entre o breu e flashes de terror. O roteiro, embora simples na premissa, é eficaz em construir a tensão e o dilema moral dos personagens, cujas personalidades e motivações são reveladas sob a pressão extrema da gravação. A atuação do elenco principal, particularmente de Yvonne Zima, que como Shayla transita da curiosidade voyeurística para um desespero avassalador, é notável. Em um momento crucial, quando Shayla é confrontada com a verdadeira natureza das criaturas, seu tremor incontrolável e a dificuldade em manter a câmera estável comunicam um terror genuíno que transcende o diálogo.

Direção Victor Mathieu
Roteiro Victor Mathieu, Corbin Billings, Shariya Lynn
Elenco Principal Yvonne Zima (Shayla), Justin Bruening (Devon), Toby Hemingway (Bryan), Jim Storm (Richard), PeiPei Alena Yuan (Shiori)
Gêneros Ação, Terror
Lançamento 18/08/2017

Os temas centrais de O Projeto Monstro gravitam em torno da espetacularização do sofrimento e da busca incessante por validação no mundo digital. O grupo, em sua tentativa de criar um conteúdo viral, se vê enredado em uma situação que foghe ao controle, onde a linha entre o caçador e a presa é obliterada. A obsessão pela filmagem e pela audiência é uma metáfora para a sociedade contemporânea, que consome vorazmente a desgraça alheia. Há uma cena particularmente marcante onde, mesmo em meio ao caos e à ameaça iminente, um dos personagens questiona se a transmissão ainda está ativa, priorizando a visibilidade à própria segurança. Esse instante encapsula o cerne temático do filme: o custo da notoriedade na era digital.

Dentro do nicho de Terror Found Footage Sobrenatural com Elementos Screenlife, O Projeto Monstro encontra paralelos temáticos e estéticos com obras que exploram a fragilidade da realidade documentada. Não se trata de uma comparação com o terror tradicional, mas com o subgênero que prioriza a imersão pela perspectiva da câmera dos protagonistas. Nesse contexto, o filme dialoga com a atmosfera de perseguição no desconhecido de “A Bruxa de Blair” (1999), onde a ausência de uma visão clara da ameaça intensifica o medo, e com a urgência claustrofóbica e a brutalidade inabalável de “[REC]” (2007). Ambas as obras utilizam a câmera como uma extensão do pânico, transformando o espectador em testemunha ocular de eventos aterrorizantes. Enquanto “A Bruxa de Blair” mergulha no folclore e na psicologia da perda, e “[REC]” foca na epidemia e no caos urbano, O Projeto Monstro adiciona uma camada de comentários sobre a cultura da internet e a mídia de transmissão ao vivo, elevando a relevância cultural do formato.

O Projeto Monstro é uma experiência cinematográfica para aqueles que buscam um terror que desafia as convenções, explorando a tensão através da perspectiva subjetiva e da estética lo-fi. É uma obra que não se contenta em apenas assustar, mas que provoca reflexões sobre a nossa própria relação com a imagem e a verdade na era digital. Recomenda-se para fãs de found footage que valorizam a imersão e a verossimilhança acima dos jump scares gratuitos, e para aqueles interessados em como a tecnologia pode amplificar, e por vezes distorcer, a experiência do horror.

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