Liza, A Fada Raposa, emerge do cinema húngaro como uma obra singular que desafia as convenções do gênero de comédia romântica. Lançado em 2015 e dirigido por Ujj Mészáros Károly, o filme mergulha no universo de Liza, uma enfermeira trintona e solitária que, ao buscar o amor, se vê involuntariamente transformada em uma fada raposa por um ciumento espírito pop-star japonês. Cada pretendente que se aproxima de Liza encontra um fim macabro, catapultando a narrativa para um território de fantasia sombria e humor absurdo que o distingue de produções contemporâneas.
A essência de Liza, A Fada Raposa, reside na sua mordaz desconstrução do ideal romântico. Longe de ser apenas uma fábula excêntrica sobre uma maldição, o filme funciona como uma ácida sátira às pressões sociais impostas às mulheres para encontrar um parceiro, especialmente após os 30 anos. Através de um humor negro e um universo visual estilizado, Ujj Mészáros Károly explora a toxicidade da solidão e a idealização do amor, revelando como a busca desesperada por conexão pode levar a consequências grotescas e, paradoxalmente, à autodescoberta. O filme argumenta que a verdadeira maldição não é o espírito ciumento, mas a própria expectativa social que sufoca a individualidade em nome de um ideal romântico inatingível.
Ujj Mészáros Károly, em sua estreia na direção de longa-metragens, demonstra uma visão autoral audaciosa e meticulosa. Seu estilo é imediatamente reconhecível pela paleta de cores saturada, enquadramentos simétricos e uma mise-en-scène que remete tanto ao kitsch japonês dos anos 70 quanto à estética fantasiosa de contos de fadas distorcidos. Há uma clara influência do cinema de diretores como Jean-Pierre Jeunet (Amélie Poulain) na forma como cada detalhe visual é orquestrado para construir um mundo particular, mas Károly injeta uma dose de macabro e bizarro que o diferencia. A transição fluida entre a realidade mundana de Liza e as alucinações coloridas e musicais com o fantasma de Tomy Tani é um testemunho da sua habilidade em navegar por diferentes tons e realidades narrativas.
A fotografia de Péter Szatmári é um dos pilares da identidade visual do filme. Com uma iluminação que realça as cores primárias e secundárias vibrantes, cada quadro parece uma pintura pop-art cuidadosamente composta. A câmera frequentemente adota planos estáticos e simétricos, enfatizando a rigidez e a solidão da vida de Liza em seu pequeno apartamento, contrastando com a dinâmica e caótica manifestação do fantasma. A edição, com seu ritmo sincopado, alterna entre momentos de comédia física e cenas de contemplação melancólica, utilizando cortes bruscos e transições surreais para pontuar as mortes grotescas dos pretendentes, o que acentua o humor negro. O design de som é igualmente crucial, com a trilha sonora de Balázs Szabó e as canções pop-orientais do fantasma de Tomy Tani não apenas ambientando o filme, mas também servindo como um eco constante da influência japonesa e do estado mental de Liza. A atuação de Balsai Mónika como Liza é um feito de nuance e expressividade. Ela transita da timidez desajeitada para a angústia desesperada e, finalmente, para uma aceitação quase cômica de seu destino, comunicando a complexidade de sua personagem através de expressões faciais sutis e um timing cômico impecável, como na cena em que tenta explicar a “maldição” a um novo pretendente com uma mistura de pavor e resignação.
| Direção | Ujj Mészáros Károly |
| Roteiro | Ujj Mészáros Károly, Hegedűs Bálint |
| Elenco Principal | Balsai Mónika (Liza), David Sakurai (Tomy Tani), Bede-Fazekas Szabolcs (Zoltán Zászlós), Schmied Zoltán (Henrik), Reviczky Gábor (Ezredes) |
| Gêneros | Comédia, Fantasia, Romance |
| Lançamento | 19/02/2015 |
| Produção | Origo Film Group, Filmteam |
O filme explora profundamente o tema da solidão e do desespero por conexão. Liza, vivendo em um isolamento autoimposto, projeta suas fantasias românticas na figura de um ídolo pop morto. A maldição da fada raposa, embora fantástica, serve como uma metáfora visceral para a dificuldade de se conectar em um mundo que exige perfeição e convenções românticas. A estética japonesa, com suas referências a animes e idols, não é apenas um adorno; ela representa a fuga de Liza para um mundo idealizado e inofensivo, onde ela pode controlar a narrativa de seu afeto. A fada raposa (kitsune no folclore japonês) é tradicionalmente uma criatura de dualidade, brincalhona e maliciosa, refletindo a natureza da “maldição” de Liza – que, em certa medida, a protege de relacionamentos superficiais e a força a confrontar sua própria identidade. A cena em que Liza, após mais uma morte acidental, olha para o espelho com uma mistura de culpa e um estranho senso de poder, sublinha a temática da autoaceitação e da reinvenção, mesmo que forçada por circunstâncias bizarras.
Liza, A Fada Raposa, posiciona-se em um nicho muito específico: o de “Comédia Romântica Fantástica Húngara com elementos de Humor Negro e uma Estética Kitsch Influenciada pela Cultura Pop Japonesa”. Esta categoria se distingue pela fusão de narrativas de romance com elementos sobrenaturais e uma abordagem visual altamente estilizada e irônica. O filme pode ser contextualizado ao lado de obras que celebram a excentricidade e a melancolia com um toque de surrealismo.
Primeiramente, a meticulosa direção de arte e a construção de uma protagonista singular e sonhadora, imersa em um mundo visualmente rico e particular, evocam o espírito de O Fabuloso Destino de Amélie Poulain (2001), dirigido por Jean-Pierre Jeunet. Ambas as obras compartilham uma estética que beira o onírico, com uma paleta de cores vibrantes e uma narrativa focada na jornada emocional de uma mulher solitária que tenta intervir no mundo à sua volta de maneiras incomuns. Contudo, Liza subverte a gentileza de Amélie com um humor muito mais sombrio e consequências macabras.
Em segundo lugar, a abordagem crítica e absurda sobre a pressão social para encontrar um parceiro e as dificuldades inerentes aos relacionamentos, envolta em uma fantasia mordaz, estabelece um diálogo com O Lagosta (The Lobster, 2015), de Yorgos Lanthimos. Embora O Lagosta opere com uma distopia mais formal e um tom de sátira social mais frio, ambos os filmes utilizam premissas fantásticas e extremas para dissecar as expectativas românticas da sociedade e as reações desesperadas dos indivíduos. Enquanto Lanthimos foca na imposição de um prazo para o amor, Károly explora a maldição que surge da idealização e do ciúme, ambos criticando a superficialidade e a artificialidade das interações amorosas contemporâneas.
Liza, A Fada Raposa, é um filme que transcende a mera comédia romântica, entregando uma experiência cinematográfica peculiar e memorável. É uma obra essencial para aqueles que buscam narrativas que ousam subverter clichês, apreciam um humor negro inteligente e se deleitam com uma estética visual distintamente autoral. O filme é um convite à reflexão sobre a solidão na era da conectividade, a pressão para amar e a busca pela identidade em meio a expectativas externas. Sua irreverência, combinada com uma profunda melancolia e um estilo visual deslumbrante, garante seu lugar como um marco do cinema de gênero europeu, cativando audiências que anseiam por originalidade e provocação. É particularmente recomendado para fãs de cinema alternativo, produções com forte influência de cultura pop asiática e narrativas que equilibram o excêntrico com o existencial.




