Sabe, há pouco mais de um ano, em 29 de setembro de 2024, estreava nos cinemas brasileiros um documentário que me marcou de uma forma visceral, e que ainda hoje, quase um ano e meio depois, ecoa dentro de mim. Falo de O Grito, de Rodrigo Giannetto. E a minha motivação para escrever sobre ele agora, com essa distância temporal, é justamente a ressonância. Certas obras não são apenas vistas; elas são sentidas, absorvidas, e transformam a maneira como você enxerga certas realidades. É uma dessas.
Desde o primeiro momento, O Grito não te convida a apenas observar, mas a mergulhar, quase de forma sufocante, no universo do Regime Disciplinar Diferenciado (RDD). Você já ouviu falar, né? Aquele regime especial no cumprimento da pena, que arranca o presidiário de qualquer resquício de coletividade e o joga numa cela individual. Ali, o contato humano vira um luxo esporádico, as visitas são cerceadas, e a saída da cela, um evento raríssimo. O que Rodrigo Giannetto, com a ajuda dos roteiristas Fred Viotti e Jorge Souza, faz é nos puxar para dentro dessa realidade, não com uma palestra, mas com a vivência.
Eu me lembrei de uma vez que visitei uma cela antiga num museu, e a sensação de confinamento já me apertou o peito. Imagina isso multiplicado pela eternidade dos dias e noites, pela ausência de horizontes, pelo silêncio que, paradoxalmente, grita mais alto que qualquer barulho. O filme te mostra a frieza do concreto, a textura áspera das paredes, a luz difusa que não sabe se entra ou se fica. Não é dito que a solidão é esmagadora, mas a câmera permanece em ângulos que te fazem sentir a pequenez do indivíduo dentro daquele espaço minúsculo, o isolamento palpável. Vemos as mãos, talvez tremendo um pouco na borda de uma cama, não porque alguém descreve o nervosismo, mas porque a imagem do gesto fala por si.
E aqui está a nuance que a equipe de O Grito explora tão bem: não há julgamento fácil. Não se trata de glorificar ou demonizar o sistema, mas de desnudá-lo. Nos é apresentado o RDD como uma ferramenta, pensada para segurança, para controle, para isolamento de indivíduos considerados de alta periculosidade. E você, como espectador, se vê confrontado: “Será que isso é justo? Será que é eficaz? Onde está a linha entre punição e aniquilação da dignidade humana?” O documentário não te dá respostas prontas; ele te provoca a buscar as suas, e essa é uma das suas maiores forças. Não é uma história em preto e branco, é uma tapeçaria de tons de cinza, onde as justificativas se misturam com as consequências, e a ordem imposta se choca com o caos interno.
| Atributo | Detalhe |
|---|---|
| Diretor | Rodrigo Giannetto |
| Roteiristas | Fred Viotti, Jorge Souza |
| Gênero | Documentário |
| Ano de Lançamento | 2024 |
O ritmo do filme é algo a se destacar. Há momentos de silêncio denso, que te permitem processar, respirar (ou tentar respirar) o ar pesado daquela realidade. Então, uma frase, um depoimento, um corte de cena, quebra essa quietude e te atinge em cheio. É uma dança entre a lentidão opressora e a interjeição de uma dura verdade. Não há pressa, não há didatismo chato. É uma jornada que você faz junto com a equipe, desvendando as camadas desse sistema que muitos preferem não ver.
O Grito é um filme que, um ano depois, me faz questionar profundamente a nossa ideia de justiça, de reabilitação e, principalmente, de humanidade. Até que ponto a segurança de uns justifica a aniquilação quase total da identidade de outros? Será que um regime que tira tudo, exceto a respiração, realmente cumpre seu papel de ressocializar, ou apenas cria abismos ainda maiores? Eu, como espectador, fui levado a um lugar de desconforto necessário, um lugar onde as perguntas são mais importantes que as certezas. E é nesse desconforto que o verdadeiro “grito” do título reside: não é apenas o grito silencioso do preso, mas o grito que a obra arranca de nós, exigindo reflexão e, talvez, um olhar mais atento para o que construímos em nome da segurança. Um filme que, se você ainda não viu, deveria dar uma chance. Ele vai te cutucar, e isso, convenhamos, é essencial.




