Sabe, por vezes, a gente se pega navegando pelos serviços de streaming numa noite qualquer, cansado, a mente pedindo algo que não exija muito, mas que ainda assim entregue alguma faísca. E é nessa busca, entre tantas opções que prometem mundos e fundos, que me deparei com Missão Clandestina, um thriller de ação lançado lá em 2022. Eu, que já vi de tudo um pouco, desde os épicos grandiosos até os filmes de nicho mais esquisitos, confesso que senti uma pontada de curiosidade. Afinal, um filme que mistura assassinos de operações especiais, agentes do DEA e ciberterrorismo, tudo isso com Tom Berenger no elenco? Pensei: “Bem, pode ser uma boa distração, ou talvez uma surpresa agradável.” E, como bom cinéfilo que sou, a surpresa é sempre bem-vinda, não é mesmo?
A premissa, você tá ligado, é daquelas que te puxam logo de cara: um veterano assassino das operações especiais, Nick Falconi, interpretado com aquela austeridade cansada que só Tom Berenger consegue entregar, se vê cruzando o caminho de Anthony, um agente do DEA, vivido por Cam Gigandet. A gente sabe, desde o primeiro momento, que essa dupla improvável não se formou por acaso. O pano de fundo? Uma organização terrorista cibernética com planos megalomaníacos para derrubar a rede elétrica e, consequentemente, o mundo como o conhecemos. É o clássico “ticking clock”, mas com um toque de modernidade digital que, convenhamos, sempre nos deixa um friozinho na espinha sobre o que é possível hoje em dia.
O que me prendeu, de verdade, não foi apenas a urgência da trama, mas a maneira como o filme tenta explorar a colisão entre esses dois mundos. Berenger, com seus olhos de quem já viu e fez muita coisa errada no passado, traz uma melancolia ao seu Falconi, um assassino aposentado, talvez em busca de uma redenção ou, no mínimo, de uma última missão com algum propósito maior. Você quase sente o peso de suas escolhas, o cheiro de pólvora e arrependimento que o acompanha. Ele não é o herói de capa, mas o anti-herói que sabemos que, no fundo, pode ser o único capaz de fazer o que precisa ser feito. Ao lado dele, Cam Gigandet, como Anthony, representa uma geração diferente, mais ligada nas nuances da investigação moderna, mas com a mesma fibra para a ação. A dinâmica entre eles, o choque de métodos e personalidades, é o motor que impulsiona boa parte do mistério e da tensão. Um é a força bruta, a experiência visceral; o outro, o olhar perspicaz, a bússola moral que ainda tenta se manter de pé em um mundo cinzento.
E não posso deixar de mencionar a presença de Jeff Fahey, interpretando LaRusso, que sempre adiciona uma camada extra de imprevisibilidade a qualquer projeto em que se envolva. Aquela sua maneira peculiar de entregar as falas, aquele olhar que tanto pode ser de um aliado quanto de um predador, eleva as cenas em que aparece. Do outro lado da moeda, Jonathan Avigdori como Sadiq e Sara Seyed como Rashida, os antagonistas, trazem o rosto humano, ou a falta dele, por trás da ameaça cibernética. Eles não são meros vilões caricatos; há uma intenção, uma ideologia distorcida que os move, e isso, por si só, já é um ponto a favor para o roteiro de D. Glase Lomond, que busca dar um pouco mais de substância a esses personagens.
| Atributo | Detalhe |
|---|---|
| Diretor | Tibor Takács |
| Roteirista | D. Glase Lomond |
| Produtor | Elias Axume |
| Elenco Principal | Tom Berenger, Cam Gigandet, Jeff Fahey, Jonathan Avigdori, Sara Seyed |
| Gênero | Ação, Mistério, Thriller |
| Ano de Lançamento | 2022 |
| Produtora | Premiere Entertainment Group |
A direção de Tibor Takács, um nome que talvez alguns já associem a filmes mais diretos ao vídeo, é competente no que se propõe. Não espere a grandiosidade de um blockbuster de centenas de milhões de dólares. Mas ele sabe o que faz com o orçamento que tem, entregando sequências de ação que, se não são revolucionárias, são eficazes. Há uma crueza nas cenas de tiroteio, um senso de urgência nas perseguições que te mantém grudado na tela. A história nos leva por locações na fronteira entre os EUA e o México, um cenário que por si só já evoca tensão e a ideia de linhas tênues, de zonas cinzentas onde a lei e a ilegalidade se misturam de maneiras complexas. A ameaça de um blecaute global, orquestrado por armas militares e planos de assassinato, ressoa com medos muito reais que a nossa sociedade digital enfrenta hoje. É quase como se o filme dissesse: “Olha só, o perigo não vem só de uma bala, mas também de um código malicioso.”
O roteiro, apesar de seguir algumas batidas que já conhecemos do gênero, consegue costurar o mistério de forma a nos fazer querer saber o que acontece em seguida. Não é um filme que reinventa a roda, mas que a faz girar com uma energia satisfatória. A questão da aposentadoria do assassino, o dilema moral de Falconi, a busca incessante do agente do DEA – tudo isso se entrelaça para formar uma narrativa que, embora por vezes previsível em seus arcos, entrega o que promete: uma boa dose de adrenalina e um quebra-cabeça para resolver.
No fim das contas, Missão Clandestina é um filme que, para mim, caiu como uma luva em uma daquelas noites em que a gente só quer ser levado por uma boa história de ação e mistério. É um lembrete de que nem todo filme precisa ser uma obra-prima para ser apreciado. Às vezes, o que precisamos é de um bom elenco, uma trama envolvente e uma direção que saiba entregar a tensão no momento certo. E, nesse quesito, ele não decepciona. Se você, como eu, aprecia um bom thriller que mescla a velha guarda com as novas ameaças, e não se importa em mergulhar num universo onde a linha entre o certo e o errado é quase invisível, dê uma chance a essa missão. Você pode se surpreender com o quão engajante pode ser essa jornada pela sobrevivência da nossa rede elétrica – e, quem sabe, da própria civilização.




