Amonite

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Ammonite: Um fóssil de emoção que resiste ao tempo

Cinco anos se passaram desde que vi Ammonite, e ainda sinto a reverberação daquela experiência. Não é a mais fácil das lembranças, mas é certamente uma das mais profundas. Francis Lee, o mesmo diretor de God’s Own Country, nos presenteia com outro mergulho na melancolia, na solidão e, acima de tudo, no poder avassalador do amor reprimido numa Inglaterra do século XIX. O longa-metragem, lançado originalmente em 2020 e chegando ao Brasil em 2 de junho de 2021, conta a história de Mary Anning (Kate Winslet), uma paleontóloga empobrecida que luta para sobreviver em Dorset. Seu dia a dia é marcado pela busca incansável por fósseis, uma tarefa árdua e solitária que a distancia do mundo e de si mesma. A chegada de Charlotte Murchison (Saoirse Ronan), a esposa de um geólogo rico, irá mudar tudo, num encontro que desenterra algo muito mais profundo do que os antigos tesouros da terra.

A direção de Lee é, como sempre, impecável. Ele tece uma atmosfera densa, carregada de uma melancolia quase palpável, utilizando a paisagem desolada de Dorset como pano de fundo para as emoções reprimidas de suas personagens. A câmera, muitas vezes parada, observa os personagens com uma delicadeza quase dolorosa, permitindo que as atuações falem por si mesmas. E falam, com uma força incomum.

Kate Winslet está simplesmente magnífica como Mary. Ela encarna com uma sutileza impressionante a dor, a solidão e a fragilidade da personagem, sem nunca cair no melodrama barato. É uma atuação que transcende a atuação, é uma imersão completa numa alma torturada e apaixonada. Saoirse Ronan, por sua vez, oferece o contraponto perfeito. Charlotte é uma figura mais complexa, inicialmente contida e insegura, que aos poucos se abre ao turbilhão de emoções que a consome. A química entre as duas atrizes é palpável, visceral, e é o motor que impulsiona todo o filme. A relação entre elas, embora ambígua e carregada de uma tensão sexual palpável, nunca é explícita demais, deixando espaço para a interpretação e intensificando a experiência do espectador.

Atributo Detalhe
Diretor Francis Lee
Roteirista Francis Lee
Produtores Iain Canning, Fodhla Cronin O'Reilly, Emile Sherman
Elenco Principal Kate Winslet, Saoirse Ronan, Gemma Jones, James McArdle, Alec Secăreanu
Gênero Romance, Drama
Ano de Lançamento 2020
Produtora See-Saw Films

Apesar de suas qualidades indiscutíveis, Ammonite não é isento de críticas. A lentidão do ritmo pode ser um obstáculo para alguns espectadores, e alguns podem achar a história demasiadamente contida. A falta de ação, ou melhor, a sua substituição pelo suspense da construção relacional, é proposital, mas pode não agradar a todos. Entretanto, acredito que esta lentidão é precisamente o que permite ao filme respirar, mergulhando na intimidade e complexidade da relação entre as duas mulheres. Para mim, a “afinação” da narrativa, a priorização do desenvolvimento psicológico sobre a construção de arcos narrativos superficiais, é um dos pontos altos do filme.

O filme explora temas como o amor reprimido, a solidão, a busca pela identidade e a dificuldade de se viver em uma sociedade que não compreende, e até mesmo reprime, as diferenças. Lee não oferece respostas fáceis, não há um arco narrativo de redenção fácil e superficial. Em vez disso, ele apresenta a complexidade de uma relação que desafia as convenções sociais e as limitações de uma época opressiva. A mensagem é potente e perturbadora. O amor não é um jardim florido, mas um campo de batalha onde se lutam contra os próprios demônios e contra um mundo hostil.

Em conclusão, Ammonite é um filme que exige paciência e atenção, mas que recompensa generosamente aqueles que se entregam à sua atmosfera única e às performances poderosas de seu elenco. Não é um filme para todos, mas para aqueles que apreciam o cinema lento e reflexivo, que se encantam com a sutileza das emoções e com a beleza contida, Ammonite é uma experiência cinematográfica inesquecível. Recomendo fortemente sua busca em plataformas de streaming. Se você busca respostas fáceis, talvez este não seja o filme para você, mas se busca emoções profundas, reflexões sobre o amor, a solidão e a luta pela identidade, vá em frente, assista Ammonite. Você não se arrependerá. Ele permanece, como um fóssil precioso, intacto na minha memória, uma prova de que a arte pode, de fato, transcender o tempo.