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A Fera: Uma Luta Primal Pelo Instinto de Sobrevivência (e um Idris Elba no Auge)
Quando A Fera (Beast, no original) chegou aos cinemas brasileiros em agosto de 2022, há pouco mais de três anos, as expectativas eram curiosas. Um filme de suspense e ação protagonizado por Idris Elba, perseguido por um leão em plena savana africana? À primeira vista, soava como uma premissa quase B, daquelas que ou se tornam um clássico cult pela ousadia ou desmoronam sob o peso da própria ideia. Mas, caros leitores, permitam-me dizer que o longa-metragem de Baltasar Kormákur, apesar de suas imperfeições, entregou muito mais do que a simplicidade da sinopse sugeria. E isso é algo que, como crítico, aprecio imensamente: a capacidade de surpreender.
A Alma Ferida na Imensidão Selvagem
A trama nos apresenta ao Dr. Nate Samuels (Idris Elba), um homem que carrega o peso de uma perda recente e dolorosa – a de sua esposa. Na tentativa de se reconectar com as filhas, Meredith (Iyana Halley) e Norah (Leah Sava Jeffries), e com o passado, ele as leva para uma reserva na África do Sul, o mesmo lugar idílico onde conheceu sua falecida companheira. A viagem, idealizada como um bálsamo para as feridas da família, rapidamente se transforma em um pesadelo brutal e claustrofóbico. Um leão, movido por uma fúria atípica e devastadora, começa a persegui-los implacavelmente. O que era para ser um retiro pacífico se torna uma corrida desesperada pela vida, com Nate tendo que usar cada grama de seu instinto paterno e de sobrevivência para proteger suas filhas. O amigo da família, Martin Battles (Sharlto Copley), um biólogo e guarda-caça local, tenta desesperadamente ajudá-los, mas a fera se mostra um adversário implacável e quase sobrenatural em sua astúcia.
A Dança da Câmera e o Coração Pulsante de um Pai
É no cerne da execução que A Fera realmente encontra seu rugido. Baltasar Kormákur, o diretor islandês conhecido por suas histórias de sobrevivência e confrontos com a natureza (vide “Everest” e “À Deriva”), mais uma vez demonstra sua maestria em criar tensão e imersão. Uma das críticas que li à época do lançamento elogiou a cinematografia, descrevendo-a como “gorgeous” e destacando a forma como a câmera se move “cut-free during the vast majority of scenes”. E eu não poderia concordar mais. Essa técnica de longos takes, sem cortes aparentes, não é apenas um mero exibicionismo técnico; ela é fundamental para nos arrastar para dentro da savana, para a vastidão e o perigo iminente. Sentimos o calor, a poeira e, acima de tudo, a vulnerabilidade dos personagens. O esplendor da África, com sua beleza estonteante e seu perigo latente, é capturado de forma visceral, fazendo com que a paisagem se torne um personagem tão ameaçador quanto o próprio leão.
O roteiro de Ryan Engle, embora não seja a epopeia mais complexa que você verá, é funcional e eficaz para o gênero. Não é um tratado filosófico sobre a condição humana, mas uma máquina bem-engrenada de suspense e adrenalina. Houve quem achasse o enredo “really, really poor”, e entendo o ponto de vista de que a profundidade dramática poderia ser maior. No entanto, para um filme que se propõe a ser um thriller de sobrevivência, a simplicidade de sua premissa permite um foco inabalável na ação e na tensão, que é onde o filme brilha. A forma como a angústia de Nate pela perda da esposa se entrelaça com sua luta para proteger as filhas, transformando-o em um “pai urso” em face de um leão real, é um toque inteligente que dá peso emocional à perseguição.
| Atributo | Detalhe |
|---|---|
| Diretor | Baltasar Kormákur |
| Roteirista | Ryan Engle |
| Produtores | Will Packer, James Lopez, Baltasar Kormákur |
| Elenco Principal | Idris Elba, Leah Sava Jeffries, Iyana Halley, Sharlto Copley, Martin Munro |
| Gênero | Thriller, Ação, Terror, Aventura |
| Ano de Lançamento | 2022 |
| Produtoras | RVK Studios, Will Packer Productions, Universal Pictures, dentsu |
E por falar em peso emocional, Idris Elba é, sem sombra de dúvida, a âncora do filme. Sua performance como Dr. Nate Daniels é um tour de force de vulnerabilidade, desespero e, finalmente, uma resiliência indomável. Ele nos convence de sua dor e de seu amor incondicional pelas filhas, fazendo com que cada decisão, por mais arriscada que seja, pareça justificada. É uma atuação que eleva o material. As jovens Leah Sava Jeffries e Iyana Halley também entregam performances convincentes como as filhas aterrorizadas, mas também corajosas, criando uma dinâmica familiar crível sob extrema pressão. Sharlto Copley, como Martin, adiciona a dose necessária de conhecimento local e experiência, sendo a ponte entre a civilização e a selvageria, e seu papel é crucial para contextualizar a ameaça do leão.
O Rugido e a Reflexão: Forças e Fraquezas
Os pontos fortes de A Fera são evidentes: a direção imersiva de Kormákur, a cinematografia de tirar o fôlego, a atuação central de Idris Elba e a tensão constante. O leão, em sua representação digital, é convincente o suficiente para nos manter na ponta da cadeira, e seus ataques são brutais e impactantes. O filme é um exemplo sólido de como criar um “thriller de criatura” moderno, onde o monstro é assustador, mas a história humana por trás dele é o verdadeiro motor. A mensagem sobre o luto e a importância da família em meio à adversidade ressoa de forma clara.
Contudo, não seria uma crítica honesta sem abordar as fraquezas. O roteiro, como mencionei, pode ser considerado um tanto linear e previsível para quem busca originalidade narrativa profunda. Não há grandes reviravoltas ou mistérios complexos; é um jogo de gato e rato direto. Alguns personagens secundários, como Kees, interpretado por Martin Munro, poderiam ter mais desenvolvimento, mas suas funções são mais arquetípicas do que profundas. E, sim, há momentos em que a suspensão da descrença é testada, especialmente nas capacidades do leão de encontrar os personagens em situações impossíveis. Mas, francamente, em um filme de ação e terror como este, eu estou disposto a aceitar essas licenças poéticas em nome da emoção.
Uma Conexão Emocional com a Natureza Selvagem
Para mim, A Fera tocou em algo primal. Crescemos com histórias de confrontos entre o homem e a natureza selvagem, e há uma beleza assustadora em ver a vulnerabilidade humana diante de uma força que não pode ser domesticada. O leão aqui não é apenas um animal; ele é a personificação da dor, da fúria e do caos incontrolável. E o Dr. Samuels, em sua jornada de luto, precisa enfrentar essa “fera” externa para lidar com as suas próprias feras internas. É um filme que, apesar de sua roupagem de suspense de ação, fala sobre a resiliência do espírito humano e a força inabalável do amor familiar.
Conclusão: Um Rugido que Vale a Pena Ouvir
A Fera talvez não reinvente a roda dos thrillers de sobrevivência, mas faz o que se propõe com maestria e uma paixão palpável. É um filme que mantém o espectador grudado na tela do início ao fim, com sequências de ação bem coreografadas e uma tensão que raramente diminui. Para quem busca uma experiência cinematográfica eletrizante, com um Idris Elba entregando uma de suas performances mais intensas e um vislumbre brutal da beleza e do perigo da África selvagem, este longa-metragem é uma recomendação clara e entusiasmada.
Se você perdeu A Fera em 2022 ou não teve a chance de vê-lo nas plataformas digitais desde então, recomendo que o procure. Prepare-se para ser transportado para a savana, para sentir a adrenalina e para testemunhar a força indomável de um pai que luta para proteger sua família. É um filme que, para mim, provou que a simplicidade da premissa, quando bem executada, pode ser tão impactante quanto a mais complexa das narrativas. Um rugido que ainda ecoa em minha memória cinematográfica.




