Vinte anos. É engraçado como algumas histórias nos acompanham pela vida, virando quase marcos na nossa memória afetiva. Lançado originalmente em 2004, há mais de duas décadas, A Lenda do Tesouro Perdido (ou, para os íntimos, “National Treasure”) não é apenas um filme; é quase um portal para um tempo em que o cinema de aventura tinha um charme peculiar, um misto de grandiosidade blockbuster com uma inocência quase infantil que, devo dizer, faz uma falta danada hoje em dia.
Eu, particularmente, sempre tive um fraco por aquelas narrativas que pegam a história — aquela de museu, de livro didático empoeirado — e a viram do avesso, injetando uma dose cavalar de adrenalina e mistério. E é exatamente isso que Jon Turteltaub, com o toque mágico de Jerry Bruckheimer na produção, nos entregou aqui. A ideia central, veja bem, é daquelas que te fazem arregalar os olhos: Benjamin Franklin Gates, interpretado com a energia peculiar de Nicolas Cage, precisa roubar nada menos que a Declaração de Independência dos EUA. Sim, VOCÊ ouviu direito. O documento mais sagrado, mais protegido, com guardas, alarmes e tudo o que se pode imaginar. E por quê? Por um lendário tesouro, é claro. Ou ele pega, ou uma pista vital cai nas mãos erradas. É um dilema que faria qualquer historiador ou membro do FBI arrancar os cabelos, mas que para o espectador, é pura eletricidade.
E aqui entra a voz que mencionei. Cage, ah, Nicolas Cage. Ele não interpreta Ben Gates; ele é Ben Gates. Com aquele olhar meio alucinado, meio genial, ele nos convence de que um homem pode, de fato, ter a história americana tatuada na alma a ponto de decifrar enigmas que atravessam séculos. Ele é o arqueólogo amador, o caçador de tesouros com um senso de dever histórico quase obsessivo, e sua performance é o motor que impulsiona essa expedição louca por Nova York, Filadélfia e Washington D.C. Ele não apenas busca um tesouro; ele sente a história, vive a lenda e nos faz sentir junto.
Mas não é só ele. A química é um ingrediente secreto que muitas produções tentam replicar, e aqui, ela flui naturalmente. Diane Kruger, como Abigail Chase, a cética e brilhante arquivista que se vê arrastada para essa teia de segredos e sociedades secretas, oferece um contraponto delicioso à intensidade de Gates. Ela é a voz da razão, a especialista em artefatos históricos que precisa constantemente processar a realidade alucinante em que foi jogada. E Justin Bartha, como Riley Poole, o gênio da computação sarcástico e um tanto ansioso, é o alívio cômico que quebra a tensão com tiradas precisas. Ele é o cara que faria as perguntas que a gente, na poltrona, está fazendo. E Sean Bean? Bem, Sean Bean. Ele surge como Ian Howe, o vilão pragmático e implacável, e a gente já espera o drama. A perseguição entre eles é um balé de astúcia e adrenalina, um verdadeiro jogo de gato e rato que te prende à tela. E não podemos esquecer Jon Voight, interpretando Patrick Gates, o pai de Ben, cuja relação de conflito e, eventualmente, de parceria, dá uma profundidade inesperada à caça ao tesouro, ligando tudo a uma história familiar rica em “história secreta” e mitos.
| Atributo | Detalhe |
|---|---|
| Diretor | Jon Turteltaub |
| Roteiristas | Cormac Wibberley, Jim Kouf, Marianne Wibberley |
| Produtores | Jon Turteltaub, Jerry Bruckheimer |
| Elenco Principal | Nicolas Cage, Diane Kruger, Justin Bartha, Sean Bean, Jon Voight |
| Gênero | Aventura, Ação, Thriller, Mistério |
| Ano de Lançamento | 2004 |
| Produtoras | Walt Disney Pictures, Jerry Bruckheimer Films, Saturn Films, Junction Entertainment |
O filme é um verdadeiro quebra-cabeças, um emaranhado de riddles e pistas escondidas em locais icônicos da história dos EUA. Da Declaração de Independência ao Lincoln Memorial, passando por igrejas ancestrais e, claro, o famoso Independence Hall, a gente é levado numa jornada que mistura a emoção de uma caça ao tesouro com a fascinação pela história da Revolução Americana. É uma aula divertida de história revisionista, que pega figuras históricas como Benjamin Franklin e Jefferson e os insere numa trama digna de um thriller, cheia de códigos e mistérios. Eu diria que é como um guia turístico extremamente empolgante, só que com a FBI na cola e piratas modernos tentando te matar.
Alguém pode até dizer que a trama é um tanto “baseada em mitos, lendas ou folclore” e que as coincidências são forçadas, ou que certas atuações vacilam em alguns momentos – e talvez Diane Kruger tenha tido uns momentos mais “iffy” no começo, como uma crítica por aí sugeriu. Mas, sinceramente, quem se importa? A Lenda do Tesouro Perdido nunca prometeu ser um documentário histórico ou um drama premiado. Ele prometeu aventura, ação e mistério, e entregou tudo isso com juros. É um filme que sabe exatamente o que é e não tem vergonha de ser. A gente se entrega à busca, ao desejo de decifrar o próximo passo, de ver o tesouro. A cada tradução, a cada pista nova, a gente se sente parte da expedição, torcendo para que a história e o legado dos fundadores americanos, através dessa lente ficcionalizada, revelem seus segredos.
Vinte anos depois do seu lançamento em 2004 (e da sua estreia no Brasil no dia 31 de dezembro do mesmo ano, um belo presente de fim de ano!), a gente olha para trás e percebe que talvez o verdadeiro tesouro, como disse aquela crítica que li recentemente, tenha sido o próprio filme que assistimos. É uma cápsula do tempo para um tipo de entretenimento que não subestima a inteligência do público, mas também não o sobrecarrega com pretensões. É a história e a aventura de um jeito que faz a gente sonhar em encontrar nosso próprio mapa secreto escondido por trás de um documento antigo. E por isso, A Lenda do Tesouro Perdido continua sendo, para mim, um achado valioso.

