A Mãe

O ar de São Paulo, na periferia, tem um cheiro próprio. Uma mistura de poeira levantada por sonhos apressados, a fumaça de um churrasco em família e, muitas vezes, o odor metálico do medo. É esse o cheiro que sinto quando penso em A Mãe, um filme que, quase três anos após sua estreia nos cinemas brasileiros em novembro de 2022, ainda ecoa dentro de mim com uma urgência palpável. Não se trata apenas de mais um drama social; é um grito, uma ferida aberta, e eu sinto a necessidade de falar sobre ele porque, para nós, brasileiros, essa história não é ficção distante – é a esquina ao lado, o noticiário diário, o temor que habita tantos lares.

A motivação para mergulhar novamente nas camadas densas que Cristiano Burlan e Ana Carolina Marinho teceram neste roteiro não vem de um mero exercício crítico, mas de uma profunda inquietude. Quantas Marias, como a que Marcélia Cartaxo personifica com uma força visceral, nós conhecemos? Quantos Valdos desaparecem no limbo da invisibilidade e da injustiça? A Mãe nos arrasta para essa realidade sem suavizações, nos forçando a encarar uma dor que, embora específica de uma mulher, é universal em sua essência maternal e devastadora em suas implicações sociais.

Imagine a cena: Maria, uma mãe solo, volta para casa no turbilhão noturno de uma São Paulo que nunca dorme, e o silêncio que a recebe não é o da paz, mas o da ausência. Valdo, seu filho adolescente, simplesmente não está lá. Começa então uma odisseia. Não é uma busca romântica ou heroica; é a jornada exaustiva e desesperada de uma mulher que pisa no calo da noite, dos becos, das hierarquias não-oficiais do tráfico local. Suas perguntas, inicialmente sussurradas, logo se transformam em berros roucos que ameaçam desestabilizar a frágil “tranquilidade” de quem detém o poder nas ruas. E a resposta que lhe dão é um soco no estômago, um balde de água fria jogado sobre qualquer vestígio de esperança: Valdo foi assassinado pela polícia.

É neste ponto que o filme de Burlan, com a precisão de um cirurgião e a sensibilidade de um poeta das ruas, mostra a que veio. Maria, incredulidade e fúria incandescentes nos olhos, se recusa a aceitar. Seu instinto de mãe não cabe na narrativa conveniente que lhe é imposta. E então, essa busca incessante pela vizinhança vira uma busca vertiginosa pela verdade. Não é só encontrar o filho, é resgatar sua memória, sua dignidade, e, por extensão, a sua própria.

Atributo Detalhe
Diretor Cristiano Burlan
Roteiristas Ana Carolina Marinho, Cristiano Burlan
Produtores Ivan Melo, Cristiano Burlan, Henrique Zanoni, Priscila Portella
Elenco Principal Marcélia Cartaxo, Dunstin Farias, Mawusi Tulani, Ana Carolina Marinho, Henrique Zanoni
Gênero Drama
Ano de Lançamento 2022
Produtora Bela Filmes

Marcélia Cartaxo, no papel de Maria, não atua; ela é Maria. É como se a câmera capturasse a alma de uma mulher real, moldada pela resiliência e marcada pela dor. A maneira como ela arrasta os pés cansados, o olhar perdido que, de repente, se acende com uma faísca de desafio, o tremor quase imperceptível das mãos que desejam abraçar o filho mas só encontram o vazio – tudo isso nos conta muito mais do que qualquer diálogo poderia. Ela se torna o corpo da denúncia, o rosto da perda e a voz que se recusa a ser silenciada. É uma performance que te aperta o peito, te faz sentir a areia sob seus pés e o suor escorrendo pela testa dela. A cada passo de Maria, a cada porta que ela bate, você sente o peso daquele universo que conspira para que a verdade permaneça oculta.

E não é apenas Maria; o elenco de apoio entrega atuações que solidificam esse mosaico de humanidade crua. Dunstin Farias, mesmo com pouco tempo de tela, deixa a impressão viva de Valdo, um jovem comum, com seus sonhos e suas vulnerabilidades, tornando sua ausência ainda mais dolorosa. Mawusi Tulani como Lúcia e Ana Carolina Marinho (também roteirista, o que confere uma camada extra de profundidade à sua contribuição) como Ana, representam diferentes facetas da comunidade, da solidariedade silenciosa à omissão forçada, criando um espelho para a complexidade das relações em ambientes onde a lei do Estado muitas vezes é sobreposta por outras leis. Henrique Zanoni, como Alemão, personifica a ambiguidade de quem navega entre a autoridade e a sobrevivência.

Cristiano Burlan, na direção, opta por uma estética crua, quase documental, que nos imerge na periferia. Não há glamour, não há filtros que suavizem a realidade. A fotografia é direta, a iluminação natural, e o som ambiente, muitas vezes, é o protagonista silencioso que nos envolve nessa atmosfera opressora. O ritmo do filme acompanha o ritmo da Maria: por vezes arrastado pelo cansaço e desespero, por vezes acelerado por um fio de esperança ou uma explosão de raiva. É uma construção orgânica que evita estruturas previsíveis, optando por um fluxo que parece emergir da própria vida, imprevisível e doloroso.

A Mãe é um filme que não te oferece respostas fáceis, nem um final catártico que alivia o coração. Pelo contrário, ele te deixa com perguntas, com uma dor incômoda e com a certeza de que a luta de Maria é a luta de muitos. É um convite para olhar além dos títulos de manchete, para a dor que se esconde por trás das estatísticas, para a humanidade que resiste mesmo quando o sistema parece querer esmagá-la. É uma obra essencial do cinema brasileiro, um espelho que reflete as contradições e feridas de nossa sociedade. E, para mim, continua sendo um lembrete contundente de que algumas histórias precisam ser contadas – e ouvidas – com a máxima atenção e sensibilidade. Porque só assim a verdade de Maria, e a de tantas outras mães, pode um dia, quem sabe, encontrar seu lugar.

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