O cinema, para mim, é muito mais do que entretenimento; é um espelho distorcido das nossas maiores aspirações e dos nossos medos mais profundos. É por isso que, de tempos em tempos, me pego revirando o catálogo de filmes em busca daquelas joias que ousam quebrar moldes, que nos forçam a olhar para o desconforto. Foi assim que, há alguns anos – e a lembrança ainda me arrepia, mesmo em pleno outubro de 2025 –, topei com A Maldição da Sereia, um filme que, desde a sua premissa, grita “ousadia”.
Sabe, a figura da sereia, no imaginário popular, é quase sempre sinônimo de beleza etérea, de um canto hipnotizante e da liberdade dos oceanos. Mas o que aconteceria se essa liberdade fosse brutalmente ceifada? E se a beleza se tornasse um fardo, uma prova de uma sanidade que ninguém mais está disposto a aceitar? A Maldição da Sereia, de Jeffrey Grellman, lançado em 2019, não só brinca com essa ideia, como a mergulha nas profundezas mais sombrias da psique humana.
A trama é um soco no estômago logo de cara: uma sereia, arrancada da imensidão do Pacífico, tem sua cauda cortada e é jogada em um hospício. Um hospício! Ali, ninguém, absolutamente ninguém, acredita que ela seja quem diz ser. A fantasia se choca de forma cruel com a realidade mais fria e asséptica de um sanatório. E aí, meu amigo, começa a verdadeira maldição: não a da sereia em si, mas a do desamparo, da incredulidade e do horror psicológico de ser aprisionado em um lugar onde a sua verdade é tratada como delírio.
Grellman, que não só dirige como assina o roteiro, tece uma narrativa que é ao mesmo tempo terror, fantasia e um thriller psicológico de tirar o fôlego. A gente se pergunta: ela é realmente uma sereia? Ou será que o trauma de alguma outra forma a fez acreditar nisso? Essa ambiguidade é o que sustenta boa parte da tensão. Você, o espectador, se vê na mesma posição dos médicos, tentando decifrar o mistério, mas com a vantagem de saber a premissa. E é essa vantagem que torna a experiência tão angustiante, porque a gente sabe que ela está sendo torturada, não por um monstro mitológico, mas pela crueldade da medicina que se recusa a ver além do diagnóstico.
| Atributo | Detalhe |
|---|---|
| Diretor | Jeffrey Grellman |
| Roteirista | Jeffrey Grellman |
| Elenco Principal | Alexandra Bokova, Meggan Kaiser, Burt Culver, Michelle Gallagher, Shepherd Stevenson |
| Gênero | Terror, Fantasia, Mistério, Thriller |
| Ano de Lançamento | 2019 |
| Produtoras | Grellman Film, Heartpine Pictures, Mermaid Down |
A performance de Alexandra Bokova como A Sereia é, sem exagero, a âncora emocional desse navio à deriva. Sem a cauda, sem o mar, ela está ali, nua em sua vulnerabilidade, mas com um par de olhos que gritam a verdade de sua identidade. Bokova não precisa de longos discursos; o que ela transmite com a linguagem corporal, com o olhar perdido, com a dignidade ferida, é mais eloquente do que qualquer diálogo. É o silêncio dela que nos assombra, que nos faz sentir o frio do chão do asilo, a dor fantasma de uma parte de si que foi extirpada. É uma demonstração visceral de como “mostrar, não contar” pode ser devastadoramente eficaz.
Ao seu lado, temos Meggan Kaiser como Ghost, uma figura misteriosa que adiciona camadas de mistério ao ambiente já sufocante. É ela uma aliada, uma projeção, mais uma vítima? E Burt Culver, como o Dr. Beyer, personifica a racionalidade implacável, a ciência que se recusa a aceitar o que não pode ser medido ou comprovado. O doutor não é um vilão caricato; ele é a face da ignorância disfarçada de conhecimento, e isso é o que o torna tão assustador. Michelle Gallagher (Sandra) e Shepherd Stevenson (Stanley) completam o elenco, contribuindo para a atmosfera opressora e a complexidade das relações internas.
O filme, uma produção conjunta da Grellman Film, Heartpine Pictures e Mermaid Down, tem um ritmo que varia, como as marés. Há momentos de quietude perturbadora, onde a câmera se detém na face de A Sereia, ou nos corredores estéreis, deixando o espectador absorver o horror da situação. E há picos de tensão, de pânico, que nos puxam para dentro do labirinto mental em que a protagonista se encontra. É uma dança delicada entre o drama da opressão e o terror do sobrenatural, ou, mais precisamente, do inaceitável.
A Maldição da Sereia não é um conto de fadas, nem mesmo um daqueles filmes de terror com jump scares fáceis. É um filme que te convida a questionar a linha tênue entre a sanidade e a loucura, entre a realidade e o que a gente escolhe acreditar. É uma experiência claustrofóbica, dolorosa, mas incrivelmente instigante. E para mim, é um lembrete vívido de que as maiores maldições, às vezes, não vêm de feitiços antigos, mas da incapacidade humana de aceitar o diferente e do medo do que não podemos compreender. E isso, você há de concordar, é um pensamento que ecoa muito além da sala escura do cinema.




