A Primeira-Dama do Estado Islâmico

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O Olhar Perturbador sobre o Abismo: Uma Análise de A Primeira-Dama do Estado Islâmico

Em um mundo onde as manchetes sobre terrorismo e fanatismo parecem se repetir com uma frequência aterradora, é fácil cair na armadilha de ver os perpetradores como figuras unidimensionais, monstros sem face ou história. Mas o cinema, em suas melhores intenções, muitas vezes nos empurra para fora dessa zona de conforto. E poucos filmes fizeram isso com a intensidade e a audácia de A Primeira-Dama do Estado Islâmico, o documentário de Ricki Stern que, mesmo três anos após seu lançamento original em 2022, continua a ecoar em minha mente.

O título, por si só, é um convite à polêmica. Uma “primeira-dama” do ISIS? A simples junção das palavras já causa um estranhamento visceral. Stern, conhecida por sua capacidade de mergulhar em narrativas complexas e muitas vezes chocantes, volta seu olhar para Tania Joya. Por doze longos anos, Joya foi casada com John Georgelas, um americano que ascendeu aos escalões mais altos do Estado Islâmico. O que o filme propõe é uma jornada exclusiva e, aviso desde já, desconfortável: a insólita história de dois amantes sedentos por poder e como essa sede os conectou a ideais e organizações radicais. O ponto de partida é o testemunho da própria Tania, uma mulher que se descreve como membro, esposa e mãe dentro da estrutura do Exército Islâmico.

O que Ricki Stern realiza aqui não é apenas um feito jornalístico, mas um ato de coragem cinematográfica. A direção é precisa, quase cirúrgica, ao nos apresentar Tania Joya sem floreios, sem julgamentos explícitos, mas com uma franqueza brutal que é, ao mesmo tempo, repulsiva e hipnotizante. Stern não se esquiva da complexidade, antes a abraça. O “roteiro” – se é que podemos chamar assim em um documentário tão focado em um único depoimento – é a própria vida de Tania, desdobrada camada por camada. A habilidade da diretora reside em conduzir essa narrativa pessoal de forma a expor não só os horrores do ISIS, mas também as raízes mais profundas e perturbadoras que podem levar indivíduos a abraçar tais ideologias. Não há atuações no sentido ficcional, claro, mas a presença de Tania Joya na tela é uma performance em si: a de uma mulher revisitando sua história, suas escolhas, seus arrependimentos, talvez suas justificativas. É um testemunho que exige do espectador uma dose de resiliência e a capacidade de confrontar a dissonância cognitiva.

Atributo Detalhe
Diretora Ricki Stern
Produtores Ricki Stern, Lisa Kalikow
Gênero Documentário
Ano de Lançamento 2022
Produtoras Break Thru Films, Original Productions, Galactic Globe

Entre os pontos fortes inegáveis do longa-metragem está a sua audácia em dar voz a uma perspectiva tão marginalizada e, para muitos, inaceitável. Ao invés de nos entregar a caricatura do “terrorista”, o documentário tenta desvendar as motivações humanas por trás da fachada da barbárie. O filme nos força a questionar: o que leva alguém, especialmente um americano, a buscar poder e propósito em uma organização tão destrutiva? A “sede por poder” mencionada na sinopse é um fio condutor que humaniza (para o bem e para o mal) Georgelas e Joya, mostrando que a radicalização nem sempre é apenas religiosa ou política, mas pode estar profundamente entrelaçada com ambições pessoais e falhas de caráter. É um soco no estômago para qualquer um que acredite em respostas fáceis.

Contudo, este mesmo ponto forte carrega consigo uma fraqueza inerente e um desafio ético. O risco de, ao tentar compreender, acabar por, ainda que involuntariamente, oferecer uma plataforma de justificativa ou, pior, de glamorização, é real. A linha é tênue, e a direção de Stern parece caminhar sobre ela com um equilíbrio notável. Meu receio é que alguns espectadores possam interpretar a exploração da “sede por poder” como uma tentativa de desviar do cerne ideológico e das atrocidades inquestionáveis do ISIS. O filme não oferece respostas simples, e a ausência de um contraponto externo mais robusto para o testemunho de Joya poderia ser vista como uma lacuna, embora compreensível dada a proposta de exclusividade de seu relato.

Os temas que emergem são densos e multifacetados: a natureza do poder e sua capacidade de corromper; a sedução de ideologias radicais que prometem propósito e pertencimento; a complexidade das relações pessoais (amor, lealdade, casamento) dentro de contextos extremos; e, acima de tudo, a questão da responsabilidade individual. O filme é um estudo de caso sobre como a psique humana pode se adaptar, sobreviver e, por vezes, prosperar em ambientes moralmente devastadores.

Em suma, A Primeira-Dama do Estado Islâmico não é um filme para assistir com leveza. É uma obra que perturba, provoca e, talvez, deixa mais perguntas do que respostas. É um espelho incômodo que nos confronta com a capacidade humana para o extremismo, mas também com as nuances que se escondem por trás das manchetes. Recomendo este documentário a qualquer pessoa que esteja disposta a enfrentar a complexidade da condição humana, a mergulhar nas sombras do radicalismo sem buscar consolo em simplificações. É um filme essencial para o nosso tempo, um lembrete vívido de que a verdade, por vezes, é mais estranha e mais aterrorizante do que qualquer ficção. Assista, mas esteja preparado para ser profundamente impactado.

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