Às vezes, a gente se depara com histórias tão brutais, tão desumanas, que a primeira reação é desviar o olhar, proteger o coração. Mas, então, vem uma obra como A Tree of Life: Ataque à Sinagoga Pittsburgh, e ela nos puxa para perto, quase nos obriga a encarar o abismo, não para nos consumir, mas para nos lembrar do que significa ser humano, o que significa resistir, o que significa ter fé, mesmo quando tudo parece desmoronar. E é por isso que me sinto compelido a escrever sobre este filme; não é apenas uma resenha, é um testemunho da arte de contar uma história que, de outra forma, poderia se perder na vastidão de notícias efêmeras.
Já estamos em 2025, quase sete anos se passaram desde aquele sábado frio de 27 de outubro de 2018, e a ferida ainda pulsa. Trish Adlesic, com este documentário lançado em 2022, não deixa que cicatrizemos por completo, e talvez nem devamos. Acontece que um supremacista branco, com um ódio que não consigo sequer começar a compreender, invadiu a sinagoga da Árvore da Vida. Quatro armas de assalto semiautomáticas, e gritos de “todos os judeus devem morrer”. Onze vidas ceifadas, pessoas entre os 54 e os 97 anos, que estavam ali, simplesmente orando, buscando paz, comunidade.
E o filme, veja bem, não se contenta em nos narrar os fatos como um boletim de notícias. Adlesic faz algo muito mais profundo. Ela nos apresenta Carol Black, Dr. Joseph Charny, Anthony Fienberg, Audrey Glickman, Daniel Leger. Não há estrelas de cinema aqui, você sabe. Os rostos que preenchem a tela são de gente como a gente, ou melhor, de gente que, contra todas as expectativas, ainda respira e encontra voz depois de um trauma indizível. São eles que carregam o filme, que dão corpo à sinopse fria e dolorosa. Você não vê as mãos tremendo, mas sente o tremor na voz de Audrey Glickman ao recordar o horror. Não é preciso um flash de câmera lenta para entender o pavor nos olhos de Daniel Leger, que se escondeu e sobreviveu, mas que carrega as sombras daquele dia.
A diretora Trish Adlesic não nos joga na carnificina, nem explora o sensacionalismo. Ela nos conduz, quase com luvas de pelica, pelo labirinto da memória, da fé, da perda, e sim, da esperança. O ritmo do documentário é uma dança delicada entre o silêncio pesado do que foi perdido e a força resiliente do que permanece. Há momentos em que você se pega prendendo a respiração, esperando o próximo depoimento, e em outros, um nó se forma na garganta, porque a humanidade de cada pessoa na tela é tão palpável que a dor delas se torna, por um breve instante, a nossa.
| Atributo | Detalhe |
|---|---|
| Diretora | Trish Adlesic |
| Produtora | Susan Margolin |
| Elenco Principal | Carol Black, Dr. Joseph Charny, Anthony Fienberg, Audrey Glickman, Daniel Leger |
| Gênero | Documentário |
| Ano de Lançamento | 2022 |
| Produtoras | Ruby River Productions, Incognegro Productions, St. Marks Productions, HBO Documentary Films |
A produção, com Susan Margolin à frente e o apoio de Ruby River Productions, Incognegro Productions, St. Marks Productions e a HBO Documentary Films, é impecável na sua discrição. Não há floreios visuais desnecessários ou trilhas sonoras manipuladoras. A força reside na verdade crua dos relatos. E é essa verdade que nos incomoda, que nos força a confrontar o antissemitismo, o ódio que, infelizmente, ainda caminha entre nós. O filme não oferece respostas fáceis, porque a vida real raramente o faz. Ele nos mostra a cicatriz, a ferida que não sara por completo, mas também a incrível capacidade de uma comunidade de se unir, de chorar junta e de encontrar pequenos raios de luz na escuridão mais densa.
Árvore da Vida. Que ironia cruel, ou talvez, que resiliência poética, dar este nome a um local onde a vida foi tão brutalmente ceifada, mas onde a fé e a memória se recusam a morrer. É como se a raiz mais profunda se recusasse a secar, mesmo depois de tanta tempestade. Este documentário é um grito, sim, mas também um abraço. Um lembrete de que, mesmo diante do ódio mais visceral, a comunidade, a solidariedade e a memória daqueles que se foram podem, e devem, servir como pilares para construir um futuro onde tais atos não se repitam. E é por isso que eu digo: assista. Não para sofrer, mas para lembrar, para aprender, e para honrar a resiliência que brota da dor mais profunda.




