Abdução: Um grito silencioso na favela
Quatro anos se passaram desde que Abdução, a pérola obscura de Marcelo Lin, chegou aos cinemas brasileiros em 18 de outubro de 2021. E, acreditem, ainda estou processando a experiência. Não se trata de um filme fácil, nem de um filme bonito no sentido tradicional da palavra. Abdução é um filme visceral, que te agarra pela gola e te força a encarar a realidade crua da favela, misturada a um mistério sobrenatural que, surpreendentemente, funciona. A sinopse – uma vovó desconfiada de eventos estranhos na sua comunidade, sem que ninguém a leve a sério, até que finalmente descobre a verdade – apenas raspa a superfície de uma trama muito mais complexa e rica do que se imagina.
Neste artigo:
A Direção, o Roteiro, e a Magia do Realismo
Marcelo Lin, com Abdução, não entrega um filme de terror convencional. Esqueça sustos baratos e jump scares. Aqui, o terror reside na atmosfera opressiva, na câmera que se move com a agilidade de um gato pelas vielas escuras, captando a textura da pobreza e a fragilidade da vida. O roteiro, embora com algumas passagens que poderiam ser mais lapidadas, acerta em cheio ao construir uma trama que se apoia no realismo mágico. A estranheza não é explicada de forma barata, ela se infiltra lentamente, contaminando a rotina dos personagens, criando um desconforto latente que te deixa na ponta da cadeira.
As atuações são outro ponto alto. Robert Frank, como Tilico, entrega uma performance contida, mas profundamente expressiva. Seus olhos carregam todo o peso do sofrimento e da incerteza do personagem. Mas é Léo Vovozona, no papel da Vovó, que rouba a cena. Sua interpretação é absolutamente magnética, transmitindo uma sabedoria ancestral misturada com uma fé inabalável, mesmo diante do inexplicável. Ela é a alma do filme, o coração que pulsa em meio ao caos.
| Atributo | Detalhe |
|---|---|
| Diretor | Marcelo Lin |
| Produtor | Maurílio Martins |
| Elenco Principal | Robert Frank, Léo Vovozona |
| Ano de Lançamento | 2021 |
Pontos Fortes e Fracos: O Equilíbrio Precário
A força de Abdução reside na sua capacidade de criar suspense sem recorrer a clichês. O filme te envolve na atmosfera claustrofóbica da favela, te fazendo sentir a insegurança e a vulnerabilidade dos seus habitantes. A fotografia, com seus tons escuros e contrastes gritantes, realça essa sensação de opressão. Porém, alguns momentos parecem arrastados, o ritmo poderia ser mais ágil em determinados trechos. Algumas escolhas narrativas, apesar de ousadas, não se encaixam perfeitamente na trama, criando um leve desequilíbrio.
Temas e Mensagens: Um Olhar Sobre o Esquecimento
Abdução é mais do que um filme de suspense. É um grito silencioso sobre a invisibilidade das comunidades marginalizadas. A história da Vovó, sua luta pela justiça e a descrença da comunidade, funcionam como uma poderosa metáfora para a falta de voz e a falta de empatia em relação aos mais vulneráveis. O sobrenatural, nesse sentido, se torna um reflexo das injustiças sociais, um pesadelo que se materializa a partir do nosso desprezo e cegueira.
Conclusão: Uma Experiência Perturbadora, Mas Essencial
Abdução não é um filme para todos. Ele exige paciência e atenção. Não é um filme que te entretém de forma superficial. É um filme que te confronta, que te perturba, que te faz questionar. Mas, ao mesmo tempo, é um filme profundamente recompensador. A sua originalidade, a força das atuações e a sua capacidade de criar uma atmosfera única justificam amplamente a sua existência. Se você procura um filme que te faça pensar e sentir, que te deixe com a alma inquieta, Abdução é uma experiência cinematográfica essencial. Procure-o nas plataformas digitais, mesmo que ele não seja uma produção de grande visibilidade – ainda considero uma injustiça que, quatro anos depois, o filme ainda não tenha recebido o reconhecimento que merece. Afinal, obras como esta reforçam a importância do cinema como um veículo poderoso de denúncia e reflexão sobre o mundo em que vivemos.




