Absolutamente Impossível de Terry Jones é uma comédia sci-fi britânica hilária, onde Simon Pegg ganha poderes divinos. Com Robin Williams, explora o caos humano com humor sagaz.
A cinematografia vibrante e a premissa ambiciosa delineiam Absolutamente Impossível, uma comédia de ficção científica britânica que marca o retorno à direção de Terry Jones, um dos pilares do Monty Python, e que, de forma agridoce, apresenta a última performance de Robin Williams. Lançado em 2015, o filme se insere no cânone das obras que exploram o desejo humano por poder e as consequências inesperadas de sua realização.
A tese central da obra reside na desconstrução do arquétipo do “super-herói” ou do indivíduo agraciado com dons divinos. Absolutamente Impossível argumenta que a onipotência, longe de resolver os problemas existenciais de um homem comum, serve apenas para amplificá-los, expondo a falibilidade inerente à condição humana. Neil Clarke, um professor desiludido, não se torna um salvador, mas um arauto do caos, cujas tentativas de usar poderes cósmicos para fins mundanos – ou até mesmo altruístas – resultam em uma série de desventuras hilárias e moralmente questionáveis. O filme é uma meditação cômica sobre como a ética e a compreensão do “certo” e do “errado” são mais cruciais que a mera capacidade de alterar a realidade.
A direção de Terry Jones manifesta sua assinatura de humor absurdo e irreverente, já consolidada em trabalhos anteriores com o Monty Python. Jones opta por uma estética visual que, embora moderna, mantém um certo charme britânico pragmático, evitando o espetáculo grandioso em favor de reações humanas e do timing cômico. A fotografia, predominantemente ambientada em uma Londres cotidiana, capta a normalidade que é progressivamente subvertida pelos poderes de Neil, criando um contraste visual eficaz. Jones demonstra uma evolução ao transpor seu estilo satírico para um cenário contemporâneo de ficção científica, focando não nos efeitos especiais ostensivos, mas na dinâmica entre os personagens e na comédia de situação.
Tecnicamente, o roteiro de Terry Jones e Gavin Scott é o motor principal, centrado na premissa engenhosa de que os poderes de Neil dependem da precisão das palavras. Esta dependência linguística é uma fonte inesgotável de comédia e conflito, desde a incapacidade de Neil em articular exatamente o que deseja até as consequências imprevistas de uma formulação imprecisa. Simon Pegg, como Neil Clarke, entrega uma performance notável, transitando entre o cinismo do professor e a perplexidade do homem comum que se vê com poderes divinos. A sua habilidade em mesclar a frustração com o deslumbramento é palpável, como na cena em que tenta, sem sucesso, manipular o amor de sua vizinha Catherine (Kate Beckinsale), mostrando a ineficácia dos poderes perante os sentimentos humanos. A atuação vocal de Robin Williams como Dennis the Dog é, sem dúvida, um dos pontos altos do filme. Williams imprime ao cão uma personalidade rica em sarcasmo, sabedoria e resignação, transformando-o no mais sensato e divertido dos personagens, um verdadeiro porto de ancoragem cômico e moral para Neil. O design de som é sutil, mas eficaz, amplificando os momentos de estranheza e as reações exageradas de Dennis, enquanto a edição mantém um ritmo ágil, essencial para a comédia, mas permite que o espectador saboreie as expressões e a reação dos personagens ao absurdo que se desenrola.
| Direção | Terry Jones |
| Roteiro | Terry Jones, Gavin Scott |
| Elenco Principal | Simon Pegg (Neil Clarke), Kate Beckinsale (Catherine), Robin Williams (Dennis the Dog (voice)), Rob Riggle (Grant), Sanjeev Bhaskar (Ray) |
| Gêneros | Comédia, Ficção científica |
| Lançamento | 13/02/2015 |
| Produção | Phoenix Pictures, Bill and Ben Productions |
Tematicamente, o filme aborda o poder e a responsabilidade de maneira cômica. Neil inicialmente usa seus dons para vinganças triviais – como silenciar alunos ou fazer sua ex-namorada se apaixonar por ele –, mas é confrontado com dilemas maiores, como a ressurreição. Um momento particularmente marcante é quando Neil ressuscita alguns mortos, apenas para perceber as complexidades e o horror de suas ações, uma prova visual da futilidade de tentar brincar de Deus sem compreender as ramificações. O absurdo da condição humana é outro tema central; Neil, mesmo com poderes divinos, continua sendo um indivíduo falho, lutando com suas inseguranças e relacionamentos. O antropomorfismo de Dennis, o cão falante, serve como um espelho satírico da humanidade, oferecendo comentários perspicazes e muitas vezes desdenhosos sobre a irracionalidade dos humanos.
No nicho de Comédias de Ficção Científica Britânicas com Poderes Divinos e Elementos de Sátira Social, Absolutamente Impossível encontra ressonância com obras que subvertem expectativas e exploram a falibilidade humana diante do extraordinário. É comparável a “A Vida de Brian” (1979) e “O Sentido da Vida” (1983), ambos filmes do Monty Python com Terry Jones envolvido diretamente na direção. Assim como em Absolutamente Impossível, esses títulos compartilham uma veia satírica que desmistifica figuras divinas ou eventos milagrosos através do humor e do absurdo, um enfoque cultural britânico de irreverência frente à autoridade e ao dogma. De forma complementar, a obra dialoga com filmes como “Todo Mundo Quase Morto” (Shaun of the Dead, 2004), também estrelado por Simon Pegg. Estes filmes partilham a estética da comédia britânica de gênero, onde personagens comuns são lançados em situações fantásticas, com o humor emergindo de suas reações realisticamente desajeitadas e da forma como o extraordinário irrompe no cotidiano londrino, um traço identitário do humor que mistura o fantástico com o mundano.
Absolutamente Impossível é uma comédia sagaz e bem-humorada que oferece mais do que risadas passageiras. É uma reflexão sobre o que realmente faríamos se tivéssemos o poder de fazer qualquer coisa, e como a sabedoria e a empatia são qualidades muito mais valiosas que a onipotência. Este filme é ideal para fãs do humor britânico de Terry Jones e do Monty Python, para aqueles que apreciam a performance carismática de Simon Pegg, e para qualquer um que busque uma comédia de ficção científica que, por trás de suas piadas, instigue uma reflexão genuína sobre a condição humana. É, em última análise, um testamento à genialidade de Robin Williams em sua despedida, entregando uma performance vocal memorável que eleva a comédia a outro patamar.