Adú

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O que faz um filme nos prender à cadeira, sabe? Não é só a história mirabolante ou os efeitos visuais que nos tiram o fôlego. Muitas vezes, é aquela faísca de humanidade, um eco da nossa própria jornada, que nos fisga de verdade. É por essa conexão íntima que, mesmo depois de cinco anos do seu lançamento original em 2020, ainda me pego pensando em Adú. Não é uma obra-prima que reinventa a roda do cinema, e a gente pode até discutir a originalidade de sua estrutura de narrativas cruzadas, mas o que ele faz, ele faz com uma honestidade palpável que, pra mim, é o que realmente importa.

Às vezes, a gente se sente um pouco como Gonzalo (um Luis Tosar sempre excelente, diga-se de passagem), o personagem central que decide virar a página da sua vida e se refugia em Moçambique para trabalhar em um projeto ambiental. Uma separação, a busca por um propósito, a ilusão de que a distância geográfica resolve as dores da alma. Quem nunca se sentiu assim, perdido, buscando um novo começo, só para descobrir que os problemas, e as pessoas, são mais complexos do que a gente imaginava? Gonzalo, com seu jeito carrancudo e seu coração pesado, é um espelho para as nossas próprias tentativas de fuga e redenção. Ele chega lá esperando um trabalho técnico, mas se depara com uma realidade social e humana muito mais urgente.

É nesse mosaico que o diretor Salvador Calvo, com um roteiro perspicaz de Alejandro Hernández, tece sua trama. Longe de ser um mero pano de fundo, Moçambique pulsa, vive, desafia. As paisagens deslumbrantes se misturam com a dureza da vida, e é nesse contraste que a história do pequeno Adú (um Moustapha Oumarou que carrega o filme nas costas com uma naturalidade tocante) se enraíza. Adú é uma criança, sim, mas sua jornada de fuga da África rumo à Europa é um grito silencioso que ressoa com a urgência de milhares de vidas. Ver aquele menino, com seus olhos curiosos e sua inocência roubada, navegando por um mundo tão hostil, é um soco no estômago. Você não precisa que te digam que ele está sofrendo; você vê nos passos lentos, no olhar que desvia, na maneira como ele se agarra a qualquer fio de esperança.

A genialidade de Adú não está em trazer uma história completamente inédita — como alguns críticos apontaram, narrativas entrelaçadas sobre temas sociais já foram exploradas, e de várias formas. Não, a força aqui reside na maneira como essas histórias são contadas e sentidas. A produção, encabeçada por Ghislain Barrois, Javier Ugarte, Álvaro Augustin e Edmon Roch, com o apoio de estúdios como Ikiru Films e Mediaset España, conseguiu algo raro: transformar um tema denso em uma experiência que, embora difícil, é profundamente humana e acessível. A gente se conecta com Mateo (Álvaro Cervantes), que se envolve com o trabalho de preservação e com Sandra (Anna Castillo), a ativista que tenta fazer a diferença. E sim, até com Miguel (Miquel Fernández), que, mesmo em um papel mais secundário, nos lembra da diversidade de perspectivas e motivações humanas.

Atributo Detalhe
Diretor Salvador Calvo
Roteirista Alejandro Hernández
Produtores Ghislain Barrois, Javier Ugarte, Álvaro Augustin, Edmon Roch
Elenco Principal Luis Tosar, Álvaro Cervantes, Anna Castillo, Moustapha Oumarou, Miquel Fernández
Gênero Drama
Ano de Lançamento 2020
Produtoras Ikiru Films, La Terraza Films, Mediaset España, Filmax, Paramount Pictures Spain, Telecinco Cinema

O filme não nos dá respostas fáceis. Ele não pinta vilões óbvios ou heróis imaculados. A beleza e a dor de Adú moram justamente nessa ambiguidade, nesse cinza moral que é a vida real. As mãos de Gonzalo, ásperas e hesitantes, não só trabalham no reservatório; elas tentam segurar pedaços de um mundo que se desfaz e se reconstrói diante de seus olhos. O filme nos convida a sentir a poeira, o calor, o medo e a esperança que permeiam cada cena. É uma jornada que, embora pareça distante, nos atinge em cheio porque fala sobre o que significa ser humano, sobre as escolhas que fazemos e as consequências que elas carregam, não só para nós, mas para o mundo ao nosso redor.

Então, sim, talvez Adú não seja a revolução cinematográfica que alguns buscam, mas ele é, sem dúvida, um filme necessário. É uma daquelas obras que, mesmo sem floreios excessivos, se aloja na nossa memória e no nosso coração, nos lembrando da complexidade do nosso planeta e da resiliência, muitas vezes invisível, de quem luta para sobreviver. E isso, meu caro leitor, é mais do que suficiente para justificar cada minuto que você dedicar a ele. É uma experiência que, em 2025, continua relevante, te chamando para refletir sobre o que realmente importa.