Além do Universo (Beyond the Universe), a produção de 2018 dirigida e roteirizada por Hasraf Dulull, estabelece-se como um intrigante exercício de ficção científica que transcende a mera exploração espacial. O filme não se contenta em ser uma aventura através de um wormhole; ele se configura como um estudo psicológico profundo sobre a inefabilidade da experiência cósmica e as consequências existenciais do contato extraterrestre, tudo encapsulado em uma estética pseudo-documental que confere urgência e veracidade à narrativa. Longe de focar no espetáculo grandioso, a obra mergulha na ressonância interna de seus personagens, tecendo uma tapeçaria de mistério, isolamento e a complexa busca humana por significado na vastidão do desconhecido.
A tese central de Além do Universo reside na premissa de que a descoberta mais profunda não ocorre nas estrelas, mas na psique humana em face do incompreensível. A missão de 2019, que leva astronautas a um recém-descoberto wormhole e os traz de volta inesperadamente, não é o ponto de clímax, mas o catalisador. O filme se debruça sobre o que acontece depois: a Agência Espacial tenta decifrar os segredos de sua primeira viagem interestelar, enquanto os próprios astronautas, em seu retorno, personificam a lacuna intransponível entre o que foi vivido e o que pode ser compreendido ou comunicado. A “amizade alienígena” mencionada nas palavras-chave não é um encontro amigável em um sentido convencional, mas uma conexão transformadora que desafia a linguagem e a percepção, tornando os protagonistas estrangeiros em seu próprio planeta.
A direção de Hasraf Dulull, cujo currículo inclui notáveis trabalhos em efeitos visuais para produções como “Gravidade” e “Batman: O Cavaleiro das Trevas“, demonstra uma habilidade ímpar em criar impacto com recursos contidos. Dulull opta por uma estética visual que foge do grandiloquente e abraça o minimalismo, utilizando o formato pseudo-documental para enraizar a ficção científica em uma sensação de autenticidade quase jornalística. Sua abordagem privilegia a atmosfera e a tensão psicológica sobre a pirotecnia espacial, revelando uma maturidade narrativa que valoriza a sugestão em detrimento da exposição explícita. O estilo visual é deliberadamente cru, com câmeras de mão, cortes abruptos e a inserção de “imagens de arquivo” que simulam o processo de uma investigação de alto sigilo.
Tecnicamente, o filme se destaca pela maneira como a montagem e o design de som contribuem para a imersão. A edição alterna habilmente entre entrevistas com funcionários da agência, gravações internas (simulando câmeras de segurança ou diários de bordo dos astronautas) e cenas de reconstituição. Essa fragmentação da narrativa não apenas constrói o suspense em torno do que realmente aconteceu, mas também espelha a natureza quebrada e difícil de articular da experiência dos astronautas. O design de som é crucial para estabelecer a sensação de isolamento e estranheza. Longos períodos de silêncio na estação espacial, pontuados por ruídos metálicos distantes ou a voz sintética de Jessica 2.0, a inteligência artificial, acentuam a solidão e a vastidão inóspita do cosmos. A atuação de David Bailie como Jacob e Jane Perry como Gillian é contida, mas profundamente eficaz. Ambos transmitem, através de olhares perdidos e hesitações na fala, o peso esmagador de um segredo indizível e a dificuldade de reintegrar-se a uma realidade que não pode mais compartilhar sua percepção. A voz de Kosha Engler como Jessica 2.0 serve como um contraponto frio e lógico à turbulência emocional dos humanos, sublinhando a barreira entre a tecnologia e a experiência transcendental.
| Direção | Hasraf Dulull |
| Roteiro | Hasraf Dulull |
| Elenco Principal | David Bailie (Jacob), Jane Perry (Gillian), Kosha Engler (Jessica 2.0 (voice)), Brian Deacon (David Johnson), Noeleen Comiskey (Jessica Johnson) |
| Gêneros | Ficção científica |
| Lançamento | 09/01/2018 |
| Produção | Ground Control Entertainment, Sector 99 |
Os temas centrais de Além do Universo gravitam em torno da solidão existencial, da natureza da memória e do trauma, e da incapacidade humana de compreender plenamente o “Outro” — seja este alienígena ou a própria experiência alterada de um semelhante. Uma cena memorável, embora sutil, revela-se quando Gillian tenta descrever o que viu e sentiu através do wormhole. A câmera se fixa em seu rosto, que alterna entre o êxtase e o terror, enquanto suas palavras falham, incapazes de traduzir a magnitude da experiência. Esse momento sublinha a tese de que há verdades que simplesmente não podem ser articuladas, permanecendo para sempre no reino da vivência individual. A “amizade alienígena” torna-se, então, uma metáfora para a alteridade radical que os astronautas trouxeram de volta, não como um ser físico, mas como uma transformação interna que os alienou do seu próprio mundo.
No nicho de Thriller Científico de Contato/Isolamento em Formato Pseudo-Documentário, Além do Universo encontra paralelos significativos. Ele compartilha uma similaridade estética e temática com Europa Report (2013), que, através de uma narrativa de missão espacial misteriosa e um formato found footage, explora a tensão do primeiro contato e o isolamento psicológico da tripulação. Outra comparação pertinente é com Apollo 18 (2011), que, embora pendendo mais para o terror, emprega a premissa de filmagens “perdidas” de uma missão lunar para construir um suspense de descoberta e paranoia, ressoando com o aspecto pseudo-documental e o mistério sobre o que foi encontrado “além”. O enfoque identitário em ambos os casos reside na exploração da fragilidade da psique humana diante do desconhecido cósmico e na forma como a nossa percepção da realidade é moldada por tais encontros.
Além do Universo é um filme que ressoa profundamente com espectadores que buscam uma ficção científica cerebral, que prioriza a exploração psicológica e existencial sobre o mero espetáculo visual. É uma obra para aqueles que apreciam o poder do subtexto e a capacidade de uma narrativa de baixo orçamento de evocar grandes questões filosóficas. Não é uma aventura de ficção científica convencional, mas uma meditação inquietante sobre os limites da compreensão humana e o que realmente significa viajar “além do universo”, tanto no espaço quanto dentro de si. Para os amantes de um cinema que desafia e provoca a reflexão, este filme se revela uma experiência instigante e duradoura.




