Há filmes que, anos depois, ainda ecoam dentro da gente, como conchas vazias que guardam o som de um mar distante. “Ammonite”, de Francis Lee, lançado lá em 2020 – e que só chegou aos cinemas brasileiros em meados de 2021 – é um desses para mim. Já estamos em 2025, e a lembrança desse drama silencioso e poderoso ainda se impõe, quase me compelindo a sentar e articular o que ele me fez sentir. Talvez seja a melancolia intrínseca à sua narrativa, ou talvez a beleza crua de sua ambientação que simplesmente não me abandona.
Lee nos transporta para a costa de Dorset, em 1840, um lugar onde o vento é um personagem por si só, e o mar, um espelho implacável da vida árdua dos que dependem dele. É ali que encontramos Mary Anning, interpretada com uma profundidade quase insuportável por Kate Winslet. Mary é uma caçadora de fósseis, uma paleontóloga autodidata que, apesar de suas descobertas revolucionárias – descobertas que remodelaram nossa compreensão da história da Terra –, vê-se agora na penumbra. Seus dias de fama se foram, e o sustento vem da venda de fósseis comuns para turistas, enquanto cuida de sua mãe doente, Molly (uma Gemma Jones tão familiar e comovente). A vida dela é um monumento à resiliência solitária, um retrato de uma mulher à frente de seu tempo, mas presa nas amarras de uma sociedade que a reconhece pouco e a isola muito.
Winslet entrega uma Mary que é uma rocha: dura, espinhosa, quase avessa a qualquer afeto. Seus olhos carregam o peso de uma vida de desapontamentos e de uma mente brilhante em um corpo exausto. Não há grandiloquência em sua atuação; cada gesto, cada silêncio, é um universo de emoção contida. É uma performance que te mantém a uma distância inicial, como se a própria Mary impusesse essa barreira, e é exatamente essa escolha deliberada que torna a eventual quebra dessa barreira tão arrebatadora.
A reviravolta na rotina monótona de Mary vem com a chegada de Charlotte Murchison (Saoirse Ronan), a jovem esposa de um geólogo rico que, após um período de luto, é deixada sob os cuidados de Mary. Ah, Charlotte! Inicialmente frágil, um fantasma de si mesma, ela é o contraste perfeito para a aspereza de Mary. Ronan, com sua habitual delicadeza e força sutil, nos mostra uma mulher que está, também ela, em busca de algo, de uma voz que a sociedade patriarcal de seu tempo tentava sufocar.
| Atributo | Detalhe |
|---|---|
| Diretor | Francis Lee |
| Roteirista | Francis Lee |
| Produtores | Iain Canning, Emile Sherman, Fodhla Cronin O'Reilly |
| Elenco Principal | Kate Winslet, Saoirse Ronan, Gemma Jones, James McArdle, Alec Secăreanu |
| Gênero | Romance, Drama |
| Ano de Lançamento | 2020 |
| Produtora | See-Saw Films |
O que se desenvolve entre elas não é um romance grandioso, com declarações e paixões ardentes à primeira vista. Não, “Ammonite” é muito mais complexo, ambíguo e, por isso, mais real. É uma história de aproximação lenta, quase geológica, como a formação de um fóssil. Primeiro, há a curiosidade, depois a convivência forçada que se transforma em uma cumplicidade silenciosa. Vemos as mãos de Mary, calejadas e acostumadas à dureza das pedras, hesitarem antes de tocar a pele macia de Charlotte. Percebemos o olhar inicialmente apreensivo de Charlotte se transformar em admiração, depois em algo mais profundo, mais adoring. Francis Lee não nos conta sobre o amor; ele nos mostra através de pequenos gestos, de olhares furtivos sobre a mesa de jantar, do compartilhamento de um cigarro na praia gelada, da vulnerabilidade que emerge em um banho de mar.
É uma relação que desafia as convenções de 1840, uma ponte construída sobre a solidão e a necessidade mútua de conexão. A química entre Winslet e Ronan é inegável, palpável, e elas nos levam a um lugar de intimidade que é ao mesmo tempo cru e gentil. O filme se deleita nos detalhes sensoriais: o som das ondas quebrando, a textura dos fósseis nas mãos de Mary, o cheiro salgado do ar, o calor da lareira em contraste com o frio externo. Tudo isso contribui para uma experiência imersiva que nos convida a sentir o que essas mulheres sentem.
Lee, tanto na direção quanto no roteiro, tem uma sensibilidade para a complexidade humana. Ele não se esquiva das sombras, da ansiedade e da melancolia que permeiam a vida de Mary, mas também ilumina os raros momentos de alegria, de êxtase, quando a conexão se estabelece. O drama é construído com um ritmo deliberadamente lento, permitindo que a emoção se infle gradualmente, como a maré que sobe. E quando o abraço final acontece, quando a verdadeira natureza de seu relacionamento é (re)conhecida, a potência é avassaladora, justamente por não ter sido precipitada.
“Ammonite” é, no fim das contas, uma exploração sobre a paixão – não apenas a romântica, mas a paixão pela descoberta, pela ciência, e pela busca de um lugar no mundo. É uma biografia íntima, um drama de época que transcende sua época para falar de sentimentos universais: a busca por aceitação, o desejo por uma conexão verdadeira, e a coragem de amar em um mundo que nem sempre está pronto para isso. E é por toda essa complexidade e beleza que este filme, lançado há tanto tempo, ainda me faz refletir sobre a força silenciosa do amor e da perseverança humana. Vale, e muito, revisitá-lo.




