Amor e Esperança

Jovem casal abraçado sob céu claro, com pássaros. Abaixo, figura em silhueta caminha por campo de grama alta ao pôr do sol. Clima esperançoso.
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A vida, meus caros, tem uma mania terrível de nos pegar desprevenidos. A gente constrói castelos de certezas, armazena memórias em potes de cristal e, de repente, uma ventania súbita desaba tudo. É aí que a gente se vê no chão, catando os cacos, questionando cada tijolo que parecia tão firme. E, honestamente, é exatamente essa fragilidade intrínseca à existência humana que me atrai a obras como Amor e Esperança, um filme de 2019 dirigido pela talentosa Brittany Goodwin.

Não me interpretem mal, não sou masoquista por emoções difíceis. Mas há uma beleza brutal na forma como a arte nos força a encarar o que evitamos no dia a dia. Este filme, em particular, não promete respostas fáceis, nem um final embrulhado em laço cor-de-rosa. O que ele oferece é um espelho, por vezes desconfortável, da nossa própria jornada quando o chão cede. E para mim, um crítico que busca a verdade nos pixels, isso já é meio caminho andado para uma experiência cinematográfica que vale a pena.

A premissa, você pode pensar, já foi vista: um desaparecimento misterioso que abala as fundações de um relacionamento. Mas Amor e Esperança se eleva sobre o clichê ao mergulhar de cabeça na psique de Lillian White, interpretada com uma vulnerabilidade palpável por Masey McLain. Quando o veterano Brad Lee, o amor da vida de Lillian, some na noite da própria festa de formatura – um momento que deveria ser de celebração, não de angústia – o mundo dela vira de ponta-cabeça. Não é apenas a ausência física dele que a corrói, mas a erosão das suas certezas mais íntimas.

Sabe aquela sensação quando você revisita uma memória e ela já não parece tão sólida? É isso que Lillian enfrenta. Cada risada compartilhada, cada promessa sussurrada, cada olhar profundo com Brad agora é questionado, distorcido pela sombra do desconhecido. Masey McLain não diz que Lillian está perdida; ela mostra isso no tremor quase imperceptível das mãos, na forma como o olhar dela se desvia para um ponto distante quando alguém tenta oferecer uma palavra de consolo, como se a realidade presente fosse um peso insuportável. É uma atuação que nos faz apertar os lábios em empatia, sentindo o nó na garganta dela como se fosse nosso.

Atributo Detalhe
Diretora Brittany Goodwin
Produtores John Goodwin, Brittany Goodwin
Elenco Principal Masey McLain, Desiree Ross, Ben Davies, Burgess Jenkins
Gênero Drama
Ano de Lançamento 2019
Produtora Every New Day Pictures

A fé, um pilar muitas vezes inabalável em momentos de crise para alguns, também é posta à prova. Lillian, talvez como muitos de nós faríamos, se vê em um labirinto onde as velhas verdades já não oferecem o mesmo conforto. É uma luta interna que ressoa profundamente: como manter a esperança quando o motivo da sua esperança evaporou? Como continuar a acreditar quando tudo ao seu redor parece desmoronar? O filme não prega um sermão, mas nos convida a caminhar ao lado de Lillian enquanto ela tateia no escuro, buscando uma luz, qualquer luz, que a guie de volta.

Brittany Goodwin, como diretora e também produtora ao lado de John Goodwin pela Every New Day Pictures, tem um toque delicado, mas firme. Ela não abusa de artifícios melodramáticos. Em vez disso, constrói uma atmosfera de suspense e melancolia com um ritmo que permite que as emoções respirem, que o luto se instale, que a busca se torne uma obsessão compreensível. Não há pressa para a resposta; a jornada emocional de Lillian é a estrela aqui.

Os coadjuvantes servem como âncoras e catalisadores. Anna Redmond, a amiga interpretada por Desiree Ross, tenta ser o porto seguro, oferecendo o que pode de um tipo de apoio que a própria Lillian talvez não consiga processar completamente. Michael ‘Lizard’ Lizardo (Ben Davies), um elo com Brad, traz uma perspectiva diferente, talvez um passado que Lillian não conhecia tão a fundo, adicionando camadas à complexidade do homem que desapareceu. E Burgess Jenkins, como o Detetive Padron, personifica a frieza procedural da investigação, um contraponto brutal à fervura emocional de Lillian. O embate entre a razão e a emoção, entre a prova concreta e a fé cega, é um dos pontos fortes aqui.

Amor e Esperança não é um filme para quem busca um entretenimento leve de sábado à noite. É para quem está disposto a se sentar com o desconforto, a questionar suas próprias crenças e a refletir sobre a resiliência do espírito humano. Ele nos lembra que o amor, em sua forma mais pura, é também sinônimo de vulnerabilidade, e que a esperança, por mais frágil que pareça, é a última chama que se recusa a apagar quando tudo o mais virou cinzas. Lançado em 2019, o filme, mesmo passados alguns anos, mantém sua relevância, pois as questões que ele aborda – a perda, a fé, a busca por um sentido – são eternas, não são? E talvez seja essa a maior esperança que um filme pode nos dar: a de que não estamos sozinhos nas nossas perguntas mais difíceis.