O cheiro de papel velho e as páginas gastas de gibis são, para mim, um portal no tempo. É impossível falar de Asterix Conquista a América, lançado lá em 1994, sem antes mergulhar nas memórias afetivas que a dupla gaulesa, criada pelos gênios Goscinny e Uderzo, evoca. Sabe, a gente cresce, o mundo muda, mas a essência de uma boa aventura, daquela que nos faz rir e torcer pelos improváveis heróis, permanece. E é com esse espírito de quem revisitou uma velha amizade que eu quero conversar com vocês sobre essa animação que, mesmo distante dos quadrinhos originais em alguns aspectos, tenta manter a chama da irreverência acesa.
Eu me pergunto, você se lembra daquela sensação de virar a página e descobrir que os romanos, pela milésima vez, seriam ridicularizados por um punhado de gauleses? Era mágico. E Asterix Conquista a América tenta traduzir essa magia para a tela grande, mas com uma reviravolta que, confesso, me pegou de surpresa quando vi pela primeira vez: a troca do Império Romano por terras desconhecidas e culturas ainda mais distantes. É como se alguém pegasse o seu jogo de tabuleiro favorito e dissesse: “Que tal virarmos a mesa, literalmente?”
A trama, para quem ainda não embarcou nessa viagem, começa com o caos tão familiar à vila gaulesa. Os romanos, sempre à espreita, veem uma oportunidade de ouro quando a poção mágica, a fonte da força sobre-humana de Asterix e Obelix, se esgota. E o que acontece? Panoramix, o nosso querido druida, é raptado. Não, não para Roma ou para alguma base secreta de César, mas arremessado para além-mar. E é aqui que a aventura ganha contornos épicos – ou, no mínimo, geograficamente ambiciosos. Asterix e Obelix, numa missão de resgate que os leva a crer que estão seguindo o druida, acabam desembarcando em um lugar que, para eles, é simplesmente “o fim do mundo”, mas que nós, com nossa visão do século XXI (e um mapa-múndi à mão), reconhecemos como a América.
Pense comigo: Asterix e Obelix no século I d.C. encontrando nativos americanos. A licença poética aqui é tamanha que você quase pode ouvir Goscinny e Uderzo dando de ombros e sorrindo. É uma viagem que não se preocupa com a precisão histórica – e nem deveria, é Asterix! O filme se joga de cabeça na premissa e nos entrega um choque cultural que é, ao mesmo tempo, ingênuo e divertido. Os índios, que já haviam feito de Panoramix seu prisioneiro, agora capturam Asterix também. Aquele velho roteiro de “o forasteiro versus o chefe tribal” entra em cena, com o pajé da tribo obstinado em conseguir a receita da poção. E Miraculix, como sempre, é o mestre da dissimulação e da proteção de seu segredo, com uma astúcia que faria qualquer espião romano corar.
| Atributo | Detalhe |
|---|---|
| Diretor | Gerhard Hahn |
| Roteiristas | Thomas Platt, Gerhard Hahn |
| Produtores | Gerhard Hahn, Jürgen Wohlrabe |
| Elenco Principal | Peer Augustinski, Ottfried Fischer, Ralf Wolter, Jürgen Scheller, Kristiane Backer |
| Gênero | Família, Animação, Aventura, Comédia |
| Ano de Lançamento | 1994 |
| Produtora | Extrafilm Produktion |
As vozes, meus amigos, são o coração de uma animação, e aqui o elenco alemão brilha. Peer Augustinski como Asterix e Ottfried Fischer como Obelix dão uma camada extra de personalidade aos nossos heróis. Augustinski, com sua voz que transita entre a sagacidade e a ocasional irritação, encapsula o espírito do pequeno guerreiro. E Fischer? Ah, Fischer é Obelix em carne e osso (ou, neste caso, em celuloide e som): grandalhão, comilão, um coração de ouro e uma paixão inabalável por javalis e romanos quebrando. Ralf Wolter como Miraculix (ou Panoramix, dependendo da sua tradução preferida) é a voz da calma estratégica, um contraponto perfeito para a impaciência de Asterix e a simplicidade de Obelix. E temos a adição de Kristiane Backer como Ha-Tschi, a jovem índia que ajuda os gauleses – um toque feminino e de aliança que traz uma perspectiva diferente para a aventura.
Gerhard Hahn, no comando da direção e co-roteiro com Thomas Platt, tenta costurar uma tapeçaria visual que, embora não tenha o mesmo traço icônico dos quadrinhos que nos acostumamos nos filmes anteriores (lembro-me de como Os Doze Trabalhos de Asterix era visualmente impecável), ainda carrega o charme da animação tradicional dos anos 90. É como ver uma pintura que talvez não seja do seu artista favorito, mas que ainda tem um toque de familiaridade e carinho. A produtora Extrafilm, com Hahn e Jürgen Wohlrabe, nos entrega um filme que é, acima de tudo, uma aventura para a família.
E o que fica no ar depois que os gauleses finalmente escapam dos índios e retornam para casa, prontos para a “outra missão: libertar o povo gaulês do imperador Júlio César”? Fica a ideia de que a aventura, a amizade e a capacidade de rir de si mesmo e dos desafios são universais. Asterix Conquista a América é um filme que, talvez, não esteja no panteão dos clássicos absolutos de Asterix, mas que arrisca, que ousa tirar os gauleses de sua zona de conforto e os joga num mundo totalmente novo. É uma prova de que a franquia, mesmo com suas particularidades, tinha fôlego para explorar novos horizontes, mesmo que isso significasse atravessar um oceano antes de Cristóvão Colombo.
Para mim, revisitar Asterix Conquista a América em 2025 é como folhear um álbum de fotos de uma viagem divertida e um tanto quanto excêntrica. Não é perfeito, tem suas esquisitices, mas a alma de Asterix, a irreverência, a celebração da amizade e a eterna luta contra o opressor (seja ele romano ou uma nova cultura que não entende sua poção mágica) ainda estão lá. E isso, meu caro leitor, é o que realmente importa, não é? A capacidade de nos fazer sorrir e, por um instante, acreditar que uma pequena vila gaulesa pode, sim, conquistar o mundo, um javali assado e um soco em um romano (ou índio, neste caso) de cada vez.




