Até os Ossos de Luca Guadagnino desafia convenções ao retratar um romance canibal na América Reagan, explorando marginalização e instinto em uma jornada visceral.
Assim como o brilho utópico de um comercial de refrigerante da década de 1980 pode mascarar a crueza da pobreza ou da dependência química que assolava a mesma época nos Estados Unidos, Até os Ossos (Bones and All), lançado em 18 de novembro de 2022, oferece um contraste chocante. O filme de Luca Guadagnino mergulha na face oculta de uma América idealizada, revelando a busca por amor e aceitação em meio a um instinto canibal incontrolável. Não se trata apenas de terror, mas de uma meditação melancólica sobre o ‘outro’ e o isolamento inerente à sua condição.
Até os Ossos estabelece um nicho próprio dentro do cinema de horror romântico de estrada, evocando a intensidade de “A Dama na Água” (Near Dark, 1987) pela sua jornada de um casal marginalizado impulsionado por impulsos primais, mas com a melancolia e a exploração de um primeiro amor que Guadagnino já havia magistralmente apresentado em “Me Chame Pelo Seu Nome” (Call Me By Your Name, 2017). A obra redefine a narrativa de monstro ao centralizar a humanidade e a vulnerabilidade de seus protagonistas.
| Direção | Luca Guadagnino |
| Roteiro | David Kajganich |
| Elenco Principal | Taylor Russell (Maren), Timothée Chalamet (Lee), Mark Rylance (Sully), Anna Cobb (Kayla), André Holland (Maren's Father) |
| Gêneros | Terror, Romance, Drama |
| Lançamento | 18/11/2022 |
| Produção | Frenesy Film, Per Capita Productions, MeMo Films, The Apartment Pictures, 3 Marys Entertainment, Tenderstories, Elafilm |
A tese central da obra reside na exploração do canibalismo não como mero choque, mas como uma metáfora visceral para a marginalização social, a solidão e a busca desesperada por pertencimento. Através do romance de Maren e Lee, o filme questiona se o amor pode florescer e oferecer salvação quando a própria natureza do indivíduo o condena à exclusão.
Tecnicamente, o filme é um espetáculo de contrastes e texturas. A direção de Luca Guadagnino utiliza planos abertos que capturam a vastidão e a solidão das paisagens americanas, em oposição a close-ups íntimos e muitas vezes grotescos que focam na fisicalidade da existência de Maren e Lee. A fotografia de Arseni Khachaturan evoca uma paleta desaturada, quase suja, que reflete a sordidez e a esperança tênue de seus personagens. A atuação de Taylor Russell como Maren é um estudo de vulnerabilidade e resiliência, enquanto Timothée Chalamet empresta a Lee uma combinação de carisma imprudente e dor existencial, culminando em uma química palpável que eleva a narrativa do roteiro de David Kajganich.
Uma cena marcante ocorre quando Maren e Lee se deparam com Sully (Mark Rylance), outro “comedor”, em um supermercado. A introdução de Sully, um homem idoso e enigmático, oferece a Maren uma primeira visão de como seria uma vida solitária e codificada, onde a “adição” (como ele se refere à sua fome) é uma constante. Rylance entrega uma performance inquietante, com um olhar que é simultaneamente gentil e predador, revelando a complexidade e o perigo da “comunidade” à qual Maren e Lee involuntariamente pertencem.
Os temas centrais de Até os Ossos giram em torno da marginalização, da busca por identidade e da resiliência do amor. A condição de canibal serve como um poderoso símbolo para qualquer grupo ou indivíduo que é sistematicamente excluído e incompreendido pela sociedade. A jornada de Maren e Lee é uma odisseia por autoaceitação e pela tentativa de forjar uma conexão genuína em um mundo que não os aceita, explorando a natureza do instinto humano versus a moralidade socialmente imposta.
Em sua essência, Até os Ossos é uma obra provocadora que transcende a mera provocação. É uma história de amor brutalmente honesta e melancólica, enraizada na repulsa e na ternura. O filme de Guadagnino valida a busca por conexão humana mesmo nas circunstâncias mais extremas, deixando o espectador com uma reflexão duradoura sobre o que significa ser humano e o preço da aceitação.