Sabe, tem filmes que a gente assiste e, mesmo que tenham sido bons, a memória deles se esvai como areia pelos dedos. E tem aqueles filmes. Aqueles que, mesmo passados quase três anos desde o seu lançamento em 2023, ainda reverberam na gente, nos fazendo pensar sobre fé, sacrifício e a própria natureza da realidade. Para mim, Batem à Porta, do M. Night Shyamalan, que chegou aos cinemas brasileiros em fevereiro daquele ano, é decididamente um desses segundos.
Eu, particularmente, tenho uma relação complexa com o trabalho de Shyamalan. Ele é um diretor que nos acostumou a esperar o inesperado, a questionar cada sombra e cada diálogo. E, às vezes, essa expectativa joga contra ele. Mas aqui, com Batem à Porta, ele nos lembra por que nos apaixonamos pela sua forma de contar histórias. É como um velho amigo que você não via há tempos, e ele te surpreende com uma conversa tão profunda e envolvente que você se esquece de todo o tempo perdido.
Imagine a cena: você e sua família, Eric (Jonathan Groff), Andrew (Ben Aldridge) e a pequena e adorável Wen (Kristen Cui), estão aproveitando o idílio de uma cabana remota, o cheiro de pinho no ar, o som da floresta. Um refúgio perfeito. Até que a tranquilidade é brutalmente invadida. Quatro estranhos – liderados por um colossal Dave Bautista, que aqui demonstra uma profundidade e uma doçura perturbadoras em seu personagem Leonard – surgem na sua porta, armados não só com objetos, mas com uma convicção gélida. A exigência? Que sua família faça uma escolha impensável, um sacrifício inimaginável, para evitar o fim do mundo.
É nesse ponto que o filme se agarra à sua garganta e não solta. Não é sobre um monstro no armário; é sobre a monstruosidade da escolha. Shyamalan, que também assina o roteiro com Michael Sherman e Steve Desmond, adapta a obra de Paul Tremblay com uma maestria que transbende tensão. Ele nos coloca bem no meio desse dilema, sentados na sala da cabana, tão reféns quanto a família. A gente se pergunta: eles estão loucos? É um culto bizarro? Ou a fé, nesse cenário apocalíptico, é a única arma contra o desespero?
| Atributo | Detalhe |
|---|---|
| Diretor | M. Night Shyamalan |
| Roteiristas | Michael Sherman, Steve Desmond, M. Night Shyamalan |
| Produtores | M. Night Shyamalan, Marc Bienstock, Ashwin Rajan |
| Elenco Principal | Dave Bautista, Jonathan Groff, Ben Aldridge, Nikki Amuka-Bird, Rupert Grint |
| Gênero | Terror, Mistério, Thriller |
| Ano de Lançamento | 2023 |
| Produtoras | Blinding Edge Pictures, FilmNation Entertainment, Wishmore, Universal Pictures |
A beleza e a angústia de Batem à Porta residem na forma como ele nos força a confrontar nossa própria bússola moral. Eric e Andrew, um casal gay com sua filha adotiva, são o coração pulsante do filme. A forma como seu amor, sua história, suas memórias são testadas, expostas e usadas como alavanca é de cortar o coração. Jonathan Groff e Ben Aldridge entregam performances carregadas de emoção crua, a gente sente o peso da incerteza, a desesperança e, ao mesmo tempo, a resiliência deles. E Dave Bautista, em um papel que desafia completamente o que esperamos dele, é magnético. Seus olhos, a voz grave, a postura… ele não é um vilão no sentido tradicional, mas um arauto de uma dor que é quase incompreensível. Nikki Amuka-Bird (Sabrina) e Rupert Grint (Redmond) completam o quarteto de invasores, cada um adicionando camadas de estranheza e um toque de humanidade distorcida à trama.
O filme não tem pressa em revelar suas cartas. Ele te envolve em uma atmosfera de mistério e ameaça constante. As câmeras, as cores, o silêncio quebrado por explicações angustiantes – tudo contribui para uma experiência imersiva. E Shyamalan, ah, ele está no auge de sua forma narrativa aqui. Não é um terror de sustos baratos, mas um terror psicológico que te faz pensar muito depois que as luzes se acendem. É um thriller que joga com sua percepção de realidade e com a sua própria fé no que é certo e errado.
Será que é preciso ver para crer? Ou a crença é um ato de escolha, independente das evidências? O filme explora a ideia de sacrifício não como uma imposição divina, mas como uma decisão humana, dolorosa e pessoal. É uma ode à tenacidade do espírito humano em face do impensável, à teimosia em proteger aqueles que amamos, mesmo quando o mundo parece implorar o contrário. A família resiste, busca alternativas, desafia a lógica, e é nessa deficiência que a história ganha sua verdadeira força.
Batem à Porta é mais do que um filme de terror ou um thriller de suspense; é um estudo sobre a natureza da fé e do amor incondicional, envolto em uma trama de apocalipse iminente. É o Shyamalan que a gente torce para ver, o contador de histórias que nos desafia a olhar para dentro, a questionar nossas convicções mais profundas. E, acredite em mim, quase três anos depois, ele ainda bate forte na porta da minha memória. É um filme que, se você ainda não viu, vale a pena abrir a porta e deixar entrar. Mas esteja avisado: talvez ele não saia tão facilmente.




