Caçada Selvagem

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Ah, Caçada Selvagem! Permita-me contar, quando a gente passa anos e anos a fio navegando pelo oceano vasto e, por vezes, traiçoeiro do cinema, começa a desenvolver uma espécie de radar para aquelas joias que, mesmo que não estejam gritando nos tapetes vermelhos, conseguem fisgar a gente pela garganta. E é justamente por isso que, mesmo tendo sido lançado lá em 2019, esse filme do David Hackl me chamou de volta. Há algo na proposta, na frieza do cenário e na promessa de uma Gina Carano em plena forma que me fez pensar: “Será que tem mais aqui do que os trailers mostram?” E, olha, a resposta não é tão simples quanto um sim ou um não, mas é rica em texturas, eu garanto.

O que me puxa para histórias como essa, você sabe, é a universalidade da dor e da proteção familiar, embrulhada numa capa de adrenalina pura. A trama, à primeira vista, é direta: Claire Hamilton (Gina Carano) retorna à sua terra natal após a morte do pai, lidando com um filho adolescente, Charlie (Anton Gillis-Adelman), que está, digamos, em um momento delicado da vida. Normal, né? Luto, adolescência, um pacote. Mas aí, a notícia de uma herança vultosa se espalha como fogo na floresta seca, e o garoto é levado por uma gangue local cujo líder atende pelo perturbador e enigmático codinome de “Pai” (Richard Dreyfuss). E é aqui que a coisa esquenta, porque Claire não é uma mãe comum. Ela é uma força da natureza, uma ex-militar que conhece o sabor da luta e está disposta a tudo.

O filme se joga de cabeça no gênero de ação e thriller, e faz isso com uma honestidade brutal. Não há rodeios. Desde o momento em que Charlie desaparece, a urgência se instala, e você sente o desespero de Claire crescendo, não como um grito histérico, mas como uma determinação fria e calculada que se solidifica em cada músculo tenso de seu rosto. Carano, que vem de um background de artes marciais, não precisa de muitos truques de câmera para convencer na hora da pancadaria. Ela não apenas interpreta Claire; ela é Claire, uma mulher cuja força física é apenas um espelho de sua resiliência emocional. Quando ela se move pela neve espessa, rastreando os sequestradores, cada passo parece pesar a dor e a fúria de uma leoa ferida. Não se trata de coreografias mirabolantes que desafiam a física, mas de uma luta visceral, suada e, por vezes, desajeitada, como a vida real. É o tipo de atuação que te faz encolher no sofá, pensando: “Caramba, essa mulher não tá pra brincadeira.”

E falando em não estar pra brincadeira, precisamos dar uma boa olhada em Richard Dreyfuss como “Pai”. Ah, Dreyfuss! Um ator que já nos deu tantas figuras memoráveis. Aqui, ele assume um papel que é quase um anti-Dreyfuss clássico, e o faz com uma maestria que me deixou genuinamente impressionado. Ele não precisa gritar ou fazer grandes gestos para ser ameaçador. Seu “Pai” é um tipo que opera nas sombras, um chefe de gangue que, por trás de uma fachada de homem comum, esconde uma psicopatia fria e metódica. É a calma na voz, o olhar distante, a autoridade que emana de cada instrução que ele dá aos seus capangas que te faz sentir um arrepio na espinha. Não é um vilão caricato; é algo mais sutil, mais perigoso, porque ele parece acreditar nas suas próprias regras tortas. A interação entre a brutalidade física de Carano e a malevolência cerebral de Dreyfuss é o motor que impulsiona o filme, criando uma tensão palpável.

Atributo Detalhe
Diretor David Hackl
Roteirista Nika Agiashvili
Produtores Kevin DeWalt, Douglas Falconer, Danielle Masters, Benjamin DeWalt
Elenco Principal Gina Carano, Brendan Fehr, Anton Gillis-Adelman, Sydelle Noel, Richard Dreyfuss
Gênero Ação, Thriller
Ano de Lançamento 2019
Produtoras Minds Eye Entertainment, Falconer Pictures, VMI Worldwide, Petra Pictures, Invico Capital, The Fyzz

O ambiente também é um personagem à parte. A “wintry wilderness of the Great Northwest”, como uma crítica bem descreveu, é um cenário de tirar o fôlego e, ao mesmo tempo, claustrofóbico. As florestas densas e a neve implacável não são apenas um pano de fundo; elas são um obstáculo, um elemento que aumenta o senso de isolamento e perigo. Imagine o vento cortante, a dificuldade de caminhar, o silêncio opressor que só é quebrado pelos sons da caçada. O diretor David Hackl e o roteirista Nika Agiashvili usam essa paisagem gelada para intensificar a sensação de que Claire está em uma corrida contra o tempo, contra os bandidos e contra a própria natureza. Não é um embate apenas contra balas e socos, mas contra o congelamento, o desespero e a solidão da vastidão branca.

O que me prendeu em Caçada Selvagem não foi a busca por algo grandioso e inovador, mas sim a execução competente de uma premissa familiar. É o tipo de filme que não reinventa a roda, mas a faz girar com força e propósito. Ele fala sobre a essência de ser pai ou mãe – aquela linha tênue entre a civilidade e a barbárie quando se trata de proteger um filho. E faz isso sem cair na armadilha do sentimentalismo barato. Há uma crueza na narrativa que te lembra que, em certas situações, a vida não tem filtros.

No fim das contas, Caçada Selvagem é uma jornada intensa, uma odisseia de resgate que se beneficia muito das performances centrais e de um cenário que é tanto belo quanto implacável. Se você busca um thriller de ação direto, com um bom ritmo, sequências de combate críveis e um confronto entre duas forças opostas que elevam o material, então, meu amigo, você encontrou algo digno de ser visto. Não é um filme para mudar sua vida, mas certamente vai te deixar grudado na tela, talvez até roendo as unhas, e te fará refletir sobre o que você faria se estivesse no lugar de Claire. E isso, para mim, já vale o ingresso.