O corpo. Uma casca vazia. O ponto final de uma oração vital que parecia não ter fim. É curioso, não é? Nós passamos a vida inteira fugindo da ideia de nos tornarmos um, ou de encontrar um, e ainda assim, a morte é o destino mais democrático que existe. Então, por que diabos eu me peguei tão atraído por um documentário chamado Cadáver, lançado em 2023, uma obra de Benjamin Kodboel produzida pela NFTS? Talvez seja porque, no fundo, a minha própria mortalidade me intriga, e a de todos nós, também. Ou talvez seja apenas a curiosidade mórbida, que admito, faz parte da experiência humana. Mas garanto, este filme vai muito além disso.
Não espere aqui um mergulho no sensacionalismo ou no horror fácil. Nada disso. Kodboel nos convida, com uma rara delicadeza, a observar. E é essa a palavra-chave: observação. Desde os primeiros minutos, Cadáver estabelece um tom quase reverente, um olhar clínico, sim, mas impregnado de uma humanidade que desarma. O que vemos não é apenas o que resta, mas também o que o precede e o que o sucede – a ciência que o estuda, a arte que o representa, o luto que o acompanha e a dignidade que, de alguma forma, persiste.
Lembra daquela sensação quando você está em um museu de anatomia, diante de algo que já foi um ser humano vibrante, e a mente começa a te trair, preenchendo as lacunas? É um pouco assim, mas o filme eleva essa experiência a um patamar mais profundo. Benjamin Kodboel, com a sua direção, não está interessado em te assustar, mas em te fazer pensar. Ele não joga os fatos brutos na sua cara para chocar, mas os apresenta com uma sutileza que permite que você absorva a informação no seu próprio ritmo, processando as camadas complexas que envolvem a transição da vida para a não-vida. Como uma folha que, após o outono, se desprende da árvore e se entrega à terra, o filme mostra a inevitabilidade de um ciclo, mas sem a frieza de um tratado científico. Há uma poesia melancólica na forma como cada cena é enquadrada, como a luz incide sobre os detalhes mais insignificantes, transformando o que poderia ser grotesco em uma meditação sobre a existência.
E a produção da NFTS? Ah, eles parecem ter concedido a Kodboel a liberdade de explorar essa temática sem amarras comerciais óbvias. Sente-se uma autenticidade, quase uma crueza no bom sentido, que apenas uma instituição com foco acadêmico e artístico pode proporcionar. Não há truques, não há trilhas sonoras manipuladoras tentando ditar sua emoção. O som ambiente, o silêncio preenchido por olhares, por gestos lentos, é que constrói a atmosfera. É como estar em uma sala com a respiração suspensa, o ar pesado de significado, enquanto você testemunha algo que é tão final, e ainda assim, tão parte da jornada.
| Atributo | Detalhe |
|---|---|
| Diretor | Benjamin Kodboel |
| Gênero | Documentário |
| Ano de Lançamento | 2023 |
| Produtora | NFTS |
Você, eu, nós, somos seres de carne e osso, emoção e razão. E Cadáver de Kodboel é um lembrete vívido de que essa complexidade não desaparece no instante final. Pelo contrário, ela se transforma. O filme me fez refletir sobre a doação de corpos para a ciência, sobre o respeito aos mortos, sobre como diferentes culturas enfrentam a ausência. Será que nossa sociedade moderna se distanciou tanto da morte que a vemos como um tabu, em vez de uma parte integrante da vida? Este documentário não oferece respostas fáceis, nem um manual de como lidar com a finitude. Mas ele te dá o espaço, o silêncio, e as imagens cuidadosamente construídas para que você comece a formular as suas próprias perguntas.
No final das contas, o que Cadáver entrega é uma experiência profundamente humana. É desconfortável, sim, porque a verdade sobre a nossa fragilidade costuma ser. Mas é também enriquecedor, esclarecedor e, de uma forma estranha, até belo. Benjamin Kodboel não apenas nos mostra um corpo inanimado; ele nos convida a contemplar o ciclo da vida através do seu fim, a encarar o que nos aguarda e a, quem sabe, valorizar ainda mais o tempo que temos para sentir, amar e existir. E isso, meu caro leitor, é o poder que só a arte mais honesta pode nos dar.




