Quando se trata de documentários sobre a natureza, muitas vezes esperamos uma janela para um mundo distante, um vislumbre da beleza intocada. Mas, vez ou outra, uma obra surge para nos lembrar que essa janela pode ser também um espelho, refletindo nossa própria humanidade – nossas grandezas e, principalmente, nossas falhas. Foi exatamente isso que senti ao revisitar Cecil: O Legado de um Rei, um filme que, lançado originalmente em 2020 e chegando ao Brasil em janeiro de 2021, continua a ressoar profundamente em mim, quase cinco anos depois.
Por que eu me debruçaria sobre a história de um leão? Bem, porque a história de Cecil não é apenas sobre um leão. É sobre a majestade da vida selvagem, sobre o impacto da nossa existência no planeta e sobre a estranha forma como o luto por um animal pode unir e, paradoxalmente, dividir a humanidade. Minha motivação é simples: há certas histórias que precisam ser contadas e recontadas, e a de Cecil, o rei de Hwange, é uma delas, encapsulada com uma paixão palpável pelas produtoras Lion Mountain Media e Goddunnit Promotions.
O filme não começa com o fim, e essa é uma das suas maiores virtudes. Em vez de mergulhar de cabeça na tragédia que viria a chocar o mundo, Cecil: O Legado de um Rei nos convida a uma jornada ao coração da Reserva de Hwange, no Zimbábue. Ele nos apresenta a Cecil não como uma futura vítima, mas como o que ele realmente foi: uma criatura magnífica, um leão imponente, dotado de uma juba escura e uma presença que dominava a savana. Sabe aquele momento em que você está assistindo a um documentário de natureza e, de repente, sente que está lá, quase sentindo o cheiro da terra, o calor do sol? É essa a sensação que o filme nos entrega, capturando a essência da vida selvagem com uma fotografia que é pura poesia. Os diretores não apenas filmam, eles observam e nos ensinam a observar. Vemos Cecil se movimentando com uma autoridade tranquila, interagindo com sua alcateia, caçando, defendendo seu território. Não é só um animal; é uma personalidade, uma força da natureza que a câmera, com reverência, tenta traduzir.
O que me prendeu, e acredito que prenderá você também, é como o documentário constrói, camada por camada, o “legado” de Cecil antes mesmo de tocar na questão de sua morte. Não é um filme que busca apenas explorar a indignação, embora ela seja uma parte inegável da história. Pelo contrário, a narrativa se empenha em nos fazer entender a dimensão da vida que foi perdida. É como se, ao nos dar tempo para admirar a coroa de um rei, ele nos preparasse para a dor de vê-la derrubada. As tomadas de seus filhotes, a complexidade social da alcateia, tudo isso serve para pintar um quadro vívido do ecossistema que Cecil representava, do equilíbrio que ele mantinha. É um trabalho primoroso de “mostrar, não contar” a importância de um wild animal em seu habitat natural. Não me disseram que ele era importante; eu vi sua importância em cada rugido, em cada passo calculado.
| Atributo | Detalhe |
|---|---|
| Gênero | Documentário |
| Ano de Lançamento | 2020 |
| Produtoras | Lion Mountain Media, Goddunnit Promotions |
E então, sim, a inevitável virada. Quando a notícia da morte de Cecil nas mãos de caçadores veio à tona, em 2015, a mídia global explodiu. O documentário revisita esse momento, mas com uma sensibilidade notável. Não é um grito de raiva vazio, mas um lamento ponderado. Ele aborda a controvérsia, a onda de choque, mas sempre retorna ao cerne da questão: o que perdemos? Não é apenas um animal, mas um símbolo, uma parte irreplaceável daquela natureza selvagem. O filme nos faz questionar: qual é o nosso papel nesse cenário? Somos meros espectadores, intrusos, ou temos uma responsabilidade genuína para com essas criaturas? As perguntas retóricas que surgem na minha mente enquanto assisto são muitas, e o filme não se propõe a dar respostas fáceis, mas a nos convidar a uma reflexão honesta e muitas vezes desconfortável.
Cecil: O Legado de um Rei é, no final das contas, um tributo. É uma carta de amor à vida selvagem e um lembrete sombrio da nossa capacidade de destruição. Mais do que contar a história de um leão específico, ele nos força a confrontar a fragilidade da beleza natural e a urgência de protegê-la. Anos após sua estreia, sua mensagem permanece tão potente quanto a rugido de um leão na savana. É um filme que nos transforma, que nos faz olhar para a próxima imagem de um animal selvagem com um novo tipo de respeito, e talvez, uma nova promessa em nossos corações. Recomendo, com a paixão de quem se sente tocado, que você o assista.



