Ah,Colossal. Poxa,quando me pego pensando em filmes que realmente me pegaram de surpresa,que viraram de cabeça para baixo minhas expectativas e que ainda hoje,em pleno 2025,me fazem refletir,esse aqui está lá no topo. E sabe por quê? Porque ele faz uma coisa que poucos filmes se arriscam a fazer:ele pega a absurdez mais completa e a transforma numa metáfora dolorosamente real sobre quem somos,sobre os monstros que carregamos e os estragos que fazemos. Eu me sinto compelido a falar sobre ele porque,no fundo,é um espelho. Um espelho distorcido,sim,mas ainda assim um espelho.
Nacho Vigalondo,o roteirista e diretor,nos entrega uma premissa que,lida no papel,soa como uma piada de mal gosto ou um delírio febril:Gloria (Anne Hathaway,numa performance que te faz esquecer o tapete vermelho por um instante) é uma mulher que está num dos piores momentos da vida. Perdeu o emprego,o noivo,e volta para a cidade natal. Lá,entre goles e noites mal dormidas,ela descobre que,de alguma forma bizarra,está mentalmente conectada a um lagarto gigante que,do nada,começa a destruir Seul,na Coreia do Sul. Um kaiju!Um filme de monstro gigante,mas visto sob a ótica de uma crise de meia-idade e de um colapso mental. Quem diria,hein?
É aí que a genialidade e a maluquice de Colossal se encontram e dançam uma valsa desconcertante. Vigalondo não está interessado em nos dar um filme de ação grandioso sobre salvadores do mundo. Não,longe disso. Ele está interessado nos pequenos dramas,nas escolhas erradas,na autodestruição que se manifesta em escala colossal. Gloria não é uma heroína relutante;ela é uma bagunça em tempo integral,uma alcoólatra em negação,cujas mãos tremem não pelo poder que detém,mas pela ressaca que a assola. E Anne Hathaway,ah,ela mergulha de cabeça nessa humanidade falha e irritante. Você sente a frustração dela,a vergonha que corrói,a inabilidade de controlar os próprios impulsos – e,por extensão,um monstro gigantesco que a imita do outro lado do mundo. Essa dualidade entre a insignificância aparente da vida dela e a responsabilidade global que a atinge é a espinha dorsal do filme. Como você lida com isso? Como você acorda sabendo que seus tropeços em um parquinho infantil podem resultar em prédios desabando em outra capital?
Mas Colossal não seria o filme complexo que é sem a presença de Oscar,interpretado por Jason Sudeikis. E aqui,meu amigo,é onde o filme dá uma guinada que te deixa com o estômago embrulhado. Sudeikis,conhecido por seus papéis cômicos e charmosos,entrega uma das performances mais perturbadoras e sutis dos últimos tempos. O que começa como um amigo de infância solidário,que oferece um emprego e um ombro amigo,se transforma em algo muito mais sinistro. Ele é a manifestação da toxicidade que muitas vezes se esconde sob o véu da familiaridade,do passado compartilhado. A forma como o personagem de Oscar manipula,controla e projeta suas próprias inseguranças em Gloria é um estudo sobre relações abusivas,mas com um toque extra:agora,as explosões de raiva dele também se manifestam como um robô gigante destruindo Seul. É uma analogia cruelmente eficaz sobre como o abuso psicológico pode devastar o mundo de alguém,fazendo as vítimas sentirem que são elas as verdadeiras “monstras”. Essa dinâmica é onde o drama e a ficção científica se fundem de uma forma tão orgânica que você quase esquece o quão insano tudo isso soa.
| Atributo | Detalhe |
|---|---|
| Diretor | Nacho Vigalondo |
| Roteirista | Nacho Vigalondo |
| Produtores | Nahikari Ipiña,Dominic Rustam,Zev Foreman,Nicolas Chartier,Russell Levine |
| Elenco Principal | Anne Hathaway,Jason Sudeikis,Austin Stowell,Tim Blake Nelson,Dan Stevens |
| Gênero | Drama,Fantasia,Ficção científica |
| Ano de Lançamento | 2017 |
| Produtoras | Toy Fight Productions,Brightlight Pictures,Sayaka Producciones,Route One Entertainment,Voltage Pictures,Union Investment Partners,Legion M |
Lembro-me de sair do cinema em 2017,com uma sensação estranha. Era como se tivessem me servido um prato que eu nunca tinha provado,com ingredientes familiares,mas combinados de um jeito completamente novo. O filme não é perfeito,claro. Algumas das escolhas de caracterização,como alguns críticos apontaram,podem parecer um pouco abruptas,ou a transição entre certos tons pode ser brusca demais para alguns paladares. Mas essas “falhas”acabam,de certa forma,reforçando a natureza caótica e imprevisível da narrativa e dos personagens. É um filme que te desafia a abraçar a bagunça,a ambiguidade.
Colossal não te dá respostas fáceis. Ele te força a questionar a fonte da raiva,do ressentimento,da autodestruição. Nos faz pensar sobre o peso das nossas ações,mesmo aquelas que parecem pequenas e insignificantes,e como elas podem ter um efeito dominó catastrófico no mundo ao nosso redor – seja ele a metrópole vizinha ou,literalmente,uma cidade do outro lado do planeta. É um drama sobre responsabilidade pessoal embalado em um filme de monstro gigante. É sobre a catástrofe que pode ser uma mente humana em desarranjo. E,para mim,é um lembrete vívido de que a paixão por contar histórias pode nos levar aos lugares mais inesperados e,muitas vezes,mais reveladores. Não é um filme que você “assiste”. É um filme que você “experimenta”.

