Corra Que a Polícia Vem Aí!

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Sabe, quando a notícia começou a circular de que iriam desenterrar a franquia de Corra Que a Polícia Vem Aí!, juro que senti um misto de nostalgia aquecedora e um medo gélido na espinha. Não é que eu seja um purista intransigente que abomina reboots, mas vamos ser honestos, certas coisas parecem intocáveis. Leslie Nielsen como Frank Drebin não era apenas um ator; ele era uma força da natureza cômica, um raio que dificilmente cairia duas vezes no mesmo lugar. Então, a pergunta que martelava na minha cabeça era: como, como eles sequer tentariam? E mais importante, quem teria a audácia de calçar os sapatos oversized e desastrados de Drebin? A resposta veio em forma de Liam Neeson, e, amigos, essa já foi a primeira piada que o filme nos contou antes mesmo de eu comprar meu ingresso.

Corra Que a Polícia Vem Aí! (2025), que aterrissou em terras brasileiras em 14 de agosto, é a tentativa de Akiva Schaffer de revigorar um gênero de comédia que, para ser bem sincero, andava meio moribundo por aí. Com roteiro assinado por Dan Gregor, Doug Mand e o próprio Schaffer, e a batuta de produção de Seth MacFarlane e Erica Huggins pela Fuzzy Door Productions e Paramount Pictures, o filme tinha a missão ingrata de ser ao mesmo tempo uma homenagem e uma inovação. E quer saber? Ele consegue, mas não sem deixar a gente com um gostinho de “quase lá” em alguns momentos.

A grande aposta, claro, é Liam Neeson interpretando Frank Drebin Jr. Sim, Jr. E aqui está a sacada: Neeson, que nos últimos anos se consolidou como o herói de ação taciturno e implacável que resgata a filha pela trigésima vez, de repente se joga de cabeça num universo de slapstick comedy e piadas visuais que fariam um monge gargalhar. Ver esse titã do drama e da ação bancando o bobo, com aquela mesma cara séria e inabalável enquanto o caos se desenrola ao seu redor, é como assistir a um leão vestindo um chapéu de aniversário e tentando tocar flauta. Ele não tenta ser engraçado; ele é engraçado pela incongruência de sua própria seriedade perante a absurdidade. Você percebe a sutileza nas microexpressões, no tremor quase imperceptível da mão enquanto ele tenta se manter estoico diante de mais uma gafe monumental. Não é a mesma energia de Nielsen, é verdade – faltou um tiquinho daquela malícia descarada que só o original tinha –, mas Neeson abraça a persona com uma entrega que merece aplausos, transformando a ausência da “mordida” original em uma inocência cômica renovada.

Ao seu lado, temos Pamela Anderson como Beth Davenport, trazendo um ar de nostalgia e, ao mesmo tempo, uma dose de carisma que complementa o jeito meio lerdo de Drebin Jr. Ela é a âncora de bom senso num mar de maluquices, e a química entre ela e Neeson, por mais improvável que pareça, funciona. E que surpresa boa ver Paul Walter Hauser como Ed Hocken Jr.! Ele captura a essência do parceiro desorientado e leal de forma brilhante, com um timing cômico que é pura poesia. Completam o elenco Danny Huston como o vilão Richard Cane e CCH Pounder como a Chefe Davis, ambos entregando performances que sustentam o universo absurdo sem piscar.

Atributo Detalhe
Diretor Akiva Schaffer
Roteiristas Dan Gregor, Doug Mand, Akiva Schaffer
Produtores Seth MacFarlane, Erica Huggins
Elenco Principal Liam Neeson, Pamela Anderson, Paul Walter Hauser, Danny Huston, CCH Pounder
Gênero Comédia, Ação, Crime
Ano de Lançamento 2025
Produtoras Fuzzy Door Productions, Paramount Pictures, Domain Entertainment

A direção de Akiva Schaffer é um show à parte. Ele claramente estudou os mestres do gênero, misturando a comédia de situação com um fluxo incessante de gags visuais e piadas pontuais. O ritmo é frenético, não dando tempo para a gente respirar entre uma risada e outra. De repente, você se pega dando aquela gargalhada solta, quase engasgando com a pipoca, enquanto um carro capota de uma forma completamente desnecessária ao fundo ou um diálogo completamente sem sentido se desenrola na tela. É uma action comedy que entende a importância da ação como um trampolim para o ridículo. As transições entre cenas, por vezes abruptas, colaboram para essa sensação de que a realidade se dobra à vontade da piada, criando um fluxo natural e deliciosamente imprevisível.

As críticas que li por aí, como aquela que diz que é “um retorno triunfante a um tipo de comédia que está à beira da extinção”, acertam em cheio. Este filme é uma carta de amor, com manchas de batom e cheiro de gasolina, a um estilo de humor que sentimos falta. Sim, pode ser que lhe falte um pouco daquela faísca imprevisível do original, como sugerido por quem disse que “lacks the original’s bite”, mas não confunda isso com falta de inteligência ou esforço. O filme de 2025 não é uma cópia barata; é um reboot que se propõe a ser sua própria criatura, enquanto respeita as raízes.

E para os fãs mais assíduos, posso adiantar que os famosos duringcreditsstinger e aftercreditsstinger estão lá, garantindo aquelas risadas finais e talvez até semeando a esperança de que esse Esquadrão Policial ainda tenha muitas missões desastradas pela frente.

No fim das contas, Corra Que a Polícia Vem Aí! é um filme que entrega o que promete: muitas risadas. Não espere a mesma magia exata do passado – isso seria pedir demais de qualquer sequel ou reboot. Mas espere ser entretido, rir alto e, quem sabe, se sentir um pouco mais leve depois de testemunhar o único homem com as “habilidades necessárias” para liderar o Esquadrão Policial e “salvar o mundo”, mesmo que ele derrube a estante da sala no processo. É um gozo ver esse tipo de comédia de volta aos cinemas, nos lembrando que, às vezes, a coisa mais nobre que o cinema pode fazer é simplesmente nos fazer rir até doer a barriga. E isso, meu caro, não tem preço.