Creed III

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Sabe, de tempos em tempos, um filme aparece na tela e te lembra por que a gente ama tanto essa experiência coletiva da sala escura. Não falo só do espetáculo visual ou da narrativa mirabolante, mas daquela ressonância que faz você sair do cinema com algo a mais martelando na cabeça. Para mim, Creed III, lançado em 2023, um par de anos atrás, é um desses filmes que ainda ecoam, não pela grandiosidade de suas lutas – que são excelentes, diga-se de passagem –, mas pela intensidade crua de suas feridas abertas.

Eu, particularmente, sempre tive um carinho especial pela saga que Rocky Balboa começou. Não era apenas sobre boxe; era sobre a vida, sobre levantar depois de cair, sobre a dignidade de um azarão. E a franquia “Creed” conseguiu pegar essa tocha e correr com ela numa direção que, para mim, é igualmente potente, talvez até mais psicologicamente complexa. Quando soube que Michael B. Jordan não só voltaria como Adonis, mas também assumiria a cadeira de diretor, minha curiosidade atingiu um nível estratosférico. Como um ator tão imerso no personagem traduziria essa intimidade para trás das câmeras?

E o resultado, olha, me pegou de jeito. Creed III mergulha na fase pós-glória de Adonis Creed. Ele está no topo, aposentado do ringue, desfrutando de uma vida que muitos sonhariam em ter em Philadelphia, Pennsylvania. Sua esposa, Bianca (Tessa Thompson, uma força silenciosa e vital), continua sendo seu pilar, e a pequena Amara (Mila Davis-Kent), que é surda e cheia de vida, adiciona uma camada de ternura e responsabilidade. Essa relação de husband wife relationship e a dinâmica familiar são a âncora de Adonis, o porto seguro. Mas, como sabemos, a vida tem uma forma engraçada de trazer o passado de volta para uma acerto de contas.

É aqui que Jonathan Majors entra em cena como Damian “Dame” Anderson, e, cara, o que posso dizer? A performance dele é uma força da natureza. Dame é um former best friend, um childhood friend, um ex-prodigy do boxing que passou anos numa prisão, cumprindo uma longa sentença. Ele era o “irmão” de Adonis nos tempos de orfanato e do juvenile detention center, um prodígio cujo talento bruto foi silenciado pelas grades enquanto Adonis construía seu império. Quando Dame reaparece, não é apenas um reencontro; é a personificação de tudo o que Adonis deixou para trás, de tudo o que ele teme. Majors entrega um personagem que é ao mesmo tempo magnético e terrivelmente vulnerável, intense, assertive, quase audacious em sua demanda por uma chance que a vida lhe roubou.

Atributo Detalhe
Diretor Michael B. Jordan
Roteiristas Keenan Coogler, Zach Baylin
Produtores Michael B. Jordan, Ryan Coogler, Charles Winkler, William Chartoff, David Winkler, Jonathan Glickman, Irwin Winkler, Sylvester Stallone, Elizabeth Raposo
Elenco Principal Michael B. Jordan, Tessa Thompson, Jonathan Majors, Phylicia Rashād, Mila Davis-Kent
Gênero Drama, Ação
Ano de Lançamento 2023
Produtoras Metro-Goldwyn-Mayer, Chartoff-Winkler Productions, Proximity Media, Outlier Society

O que torna esse filme tão fascinante é que Dame não é o vilão unidimensional de praxe. Ele é a sombra, o espelho distorcido de Adonis, um homem que não tem nada a perder. Você sente a raiva acumulada, a injustiça que ele carregou por anos. E Michael B. Jordan, como diretor, entende isso perfeitamente. Ele não te obriga a odiar Dame; ele te convida a entender sua dor, seu ressentimento. A crítica que mencionava que “o vilão é tão, senão mais, interessante que nosso protagonista” não poderia estar mais correta. É um duelo que transcende os punhos; é um choque de destinos, de legados interrompidos e de culpas silenciadas.

A direção de Jordan é surprisingly madura para uma estreia. Ele usa o ringue não apenas como um palco para a action, mas como um espaço psicológico onde os traumas se manifestam. Há momentos em que a câmera se apega aos lutadores de uma forma quase claustrofóbica, tirando o som da multidão, focando no ranger das cordas, no baque da luva, na respiração ofegante, quase como se estivéssemos dentro da cabeça de Adonis, sentindo cada golpe, cada dúvida. É intenso, a forma como ele traduz a luta interna para a tela. E ele faz isso sem abrir mão da emoção que se tornou a marca registrada da franquia.

O roteiro de Keenan Coogler e Zach Baylin, sob a batuta de Jordan, explora essas camadas de culpa e redenção sem cair em clichês fáceis. A presença de Mary-Anne Creed (Phylicia Rashād), a mãe adotiva de Adonis, serve como uma bússola moral, lembrando-o das raízes, da responsabilidade. É um sequel que se sustenta não apenas na nostalgia, mas na evolução de seus personagens e na coragem de explorar novos territórios emocionais.

Em última análise, Creed III é um filme sobre as escolhas que fazemos e as consequências que carregamos, sobre a dificuldade de perdoar – não só os outros, mas a nós mesmos. É um drama pesado, pulsante, que usa o pano de fundo do sports para contar uma história profundamente humana. Não é só sobre um campeão aposentado que volta ao ringue; é sobre um homem confrontando os fantasmas de seu passado, lutando para proteger o futuro de sua família, e, talvez, finalmente, encontrando a paz. E isso, meu amigo, é algo que continua a reverberar muito tempo depois que o último sino tocou.