Decisão

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É engraçado como a vida, volta e meia, nos coloca de cara com encruzilhadas que parecem pequenas, mas que carregam o peso de um mundo. Uma escolha aqui, um desvio ali, e de repente, a paisagem inteira muda. É sobre essa dança sutil e, às vezes, bruta da Decisão que me pego pensando hoje, enquanto a lembrança de um filme homônimo, lá de 1997, assoma à memória como um farol no tempo. Por que revisitar Decisão, vinte e poucos anos depois? Porque, para mim, ele encapsula uma verdade tão universal sobre os relacionamentos que transcende qualquer década: a linha tênue entre o que achamos que queremos e o que realmente precisamos valorizar.

Sabe, eu já estive em situações onde a tentação do imediatismo, do prazer efêmero, acenou de forma sedutora. E foi essa a armadilha em que Beto (um jovem Murilo Benício, com aquele charme meio desengonçado que só ele tem) caiu de cabeça. A sinopse é simples, quase banal: ele troca a promessa de um encontro com Laura (a sempre etérea Letícia Sabatella) por um bate-bola na praia e uma cervejinha com os amigos. Quem nunca, né? Mas é justamente nessa banalidade que reside a genialidade do roteiro e da direção de Leila Hipólito. Ela nos mostra que, às vezes, a “decisão” mais impactante não é um drama shakespeariano, mas sim aquele pequeno desvio de rota, o “sim” sussurrado para o ego e o “não” gritado para o coração do outro.

E o que acontece depois daquela bola rolar e da cerveja descer? Laura, com uma dignidade que Letícia Sabatella imprime com maestria, decide que já basta. Ela termina. Não é uma cena de gritos e discussões ensurdecedoras; é a constatação fria de uma prioridade que não foi dada, de um cuidado que faltou. É como se Laura, ao invés de explodir, murchasse por dentro, e com ela, o que havia entre os dois. A câmera de Leila Hipólito não se detém apenas no rosto de Beto; ela nos força a sentir o vazio que se instala, o peso de uma ausência que, antes, era apenas um futuro incerto.

Mas o filme não se contenta em nos deixar apenas no purgatório do arrependimento. Ah, não. Beto precisa pagar. E o preço, para um rapaz que prioriza o futebol, é alto: o ingresso para a final de um campeonato. É aqui que Decisão transita de uma comédia de erros para um romance que exige um sacrifício genuíno. Não é só sobre um pedaço de papel, gente; é sobre o que ele simboliza. É sobre entender que, para reconstruir algo quebrado, você precisa abrir mão de algo que lhe é valioso, mostrar que a outra pessoa agora ocupa um lugar mais alto na sua lista de prioridades. Essa é a beleza da redenção: ela não vem de graça, nunca.

Atributo Detalhe
Diretor Leila Hipólito
Roteirista Leila Hipólito
Elenco Principal Murilo Benício, Letícia Sabatella, Ernesto Piccolo, Bel García, Rafael Camargo
Gênero Romance, Comédia
Ano de Lançamento 1997

A cena final, no Teatro Municipal, é um primor de delicadeza e expectativa. Um cenário grandioso para um drama tão íntimo. É quase como se o universo inteiro estivesse em suspenso, aguardando a reação de Laura. Será que o esforço de Beto será suficiente? Será que a dor daquela “decisão” inicial já cicatrizou ou ainda arde? Murilo Benício, sem precisar de muitas palavras, transmite toda a ansiedade e a esperança de quem está à mercê do perdão. E Letícia Sabatella, com um olhar que diz mil coisas ao mesmo tempo – surpresa, dúvida, uma pontinha de calor –, nos faz acreditar na possibilidade de um recomeço. É um balé de emoções que se desenrola ali na entrada do teatro, um palco improvisado para o amor.

E não posso deixar de mencionar o elenco de apoio que, mesmo em papéis menores, pinta o cenário da vida de Beto. Ernesto Piccolo como Chico e Bel García como Bia provavelmente trazem a dimensão da “turma”, do mundo que Beto precisa aprender a equilibrar com o de Laura. Rafael Camargo, mesmo que seja apenas como o “Amigo no Balet”, adiciona uma pitada de comicidade e textura ao universo do protagonista, mostrando que a vida segue seu curso, mas algumas escolhas, ah, essas sim, mudam tudo.

Leila Hipólito, ao assinar tanto o roteiro quanto a direção, nos entrega uma obra coesa, onde cada cena parece um capítulo bem pensado da complexidade humana. Não há excessos, não há melodrama desnecessário. Há apenas a crueza e a beleza das consequências das nossas “decisões”. Vinte e oito anos se passaram desde que Decisão chegou às telonas, em 1997, mas a sua mensagem ecoa com uma clareza impressionante em 2025. Porque, no fim das contas, seja em 97 ou hoje, a grande questão continua sendo: o que você está disposto a sacrificar pelo que realmente importa? E a resposta, meu caro leitor, reside sempre na sua próxima, e talvez, mais importante, “decisão”.