Disforia

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Eu sei, eu sei. Em um mundo onde o streaming nos inunda com novidades a cada semana, revisitar um filme de 2020 pode parecer um capricho, não é? Ainda mais quando, cá entre nós, o cinema nacional, por vezes, luta para furar a bolha do grande público e chegar à boca de quem devora produções internacionais. Mas, veja bem, algumas obras têm essa capacidade teimosa de fincar raízes na gente, de vez em quando sussurrando no silêncio da noite, e Disforia é uma dessas para mim. Cinco anos depois da sua estreia (lembram, 12 de março de 2020? Pouco antes de o mundo virar do avesso), sinto que é a hora de a gente conversar sobre ele de novo. Não é um retorno casual; é a certeza de que a experiência que Lucas Cassales nos entregou não se dissolveu com o tempo.

A disforia, afinal, é uma sensação de mal-estar, de angústia. E é exatamente isso que o filme de Cassales faz: ele te envolve num abraço apertado de desconforto, um mal-estar que não te larga. A gente é jogado no mundo de Dário, um homem que, de cara, a gente percebe que não está inteiro. Rafael Sieg, no papel de Dário, faz um trabalho que transcende a atuação comum; ele é a dor de Dário. Não precisa de um monólogo expositivo para sabermos que ele carrega um fardo pesado. Vemos isso na forma como ele segura os talheres, no olhar vago que se perde no vazio, na maneira como ele evita a luz. É a linguagem não verbal, o corpo que grita o que a boca se recusa a dizer. Você sente o tremor quase imperceptível nas suas mãos, a tensão nos ombros curvados, a respiração presa que não encontra alívio. Dário é uma cratera em erupção silenciosa, e Sieg nos convida a espiar lá dentro, mesmo sabendo que é perigoso.

A sinopse, sempre tão breve e direta, nos fala de Dário e sua dificuldade de se recuperar de um “acontecimento assustador”. Mas Disforia não te entrega a chave desse trauma de bandeja. Não, ele prefere te guiar por um labirinto escuro, com paredes que se movem e sombras que dançam. E o catalisador dessa viagem infernal é a pequena Sofia, interpretada com uma doçura inquietante por Isabella Lima. A chegada de Sofia na vida de Dário não é um raio de sol, mas um holofote cruel que ilumina os cantos mais empoeirados de sua memória. A interação entre Sieg e Lima é delicada e tensa; a pureza de Sofia, ao invés de curar, parece esfregar sal nas feridas abertas de Dário. É como se cada risada da menina fosse um sino que ressoa no passado, chamando por algo que Dário desesperadamente tenta manter enterrado.

E então, o filme, que até certo ponto se movia como um drama psicológico, começa a se inclinar para o mistério e o terror. E não um terror de monstros saltitantes ou sustos baratos, mas um terror visceral, aquele que nasce da incerteza, da paranoia, da dúvida sobre a sanidade do próprio protagonista. Lucas Cassales e Thiago Wodarski, roteiristas, constroem uma trama que se assemelha a uma teia de aranha, cada fio uma nova camada de suspeita. Quem é Sofia, de verdade? O que há de tão sombrio na sua família? O Paolo de Vinícius Ferreira, a Tania de Janaína Kremer, e a Maria Luiza de Ida Celina — todos eles tecem essa tapeçaria de segredos com performances calculadas. Não são meros coadjuvantes; são peças-chave em um quebra-cabeça que parece cada vez mais impossível de montar, e cada um deles carrega um olhar que diz mais do que as palavras. Há momentos em que você sente o ar rarefeito, a claustrofobia não de um espaço físico, mas de uma verdade se aproximando, e Lucas Cassales, na direção, domina essa orquestração do medo lento e psicológico.

Atributo Detalhe
Diretor Lucas Cassales
Roteiristas Lucas Cassales, Thiago Wodarski
Produtores Lucas Cassales, Arno Schuh, Alice Castiel, Henrique Schaefer, Mariana Mêmis Müller
Elenco Principal Rafael Sieg, Isabella Lima, Vinícius Ferreira, Janaína Kremer, Ida Celina
Gênero Thriller, Mistério, Terror
Ano de Lançamento 2020
Produtora Sofá Verde Filmes

A fotografia, muitas vezes em tons frios e sombrios, e a sonoridade que pontua o silêncio com ruídos perturbadores, tudo isso conspira para nos manter à beira do assento. A Sofá Verde Filmes, com Cassales e a equipe de produtores, entregou uma atmosfera que é quase um personagem em si. O ambiente não é apenas um pano de fundo; ele respira, geme e sussurra os medos de Dário. Você sente o frio da pedra, o cheiro de mofo de um lugar abandonado, a textura da culpa. É uma experiência imersiva que te arrasta para dentro da cabeça de Dário, onde a realidade se dissolve e os fantasmas do passado são tão palpáveis quanto o ar que respiramos.

Disforia é um filme que nos força a encarar o peso do trauma não resolvido. Ele questiona a natureza da memória, como ela pode nos aprisionar, nos moldar e, por vezes, nos destruir. Será que o passado é sempre um monstro que nos persegue, ou somos nós que o alimentamos com nossos medos e culpas? O filme não oferece respostas fáceis, e talvez essa seja sua maior virtude. Ele nos deixa com um nó na garganta, uma inquietação que persiste muito depois dos créditos rolarem, fazendo-nos questionar a fragilidade da mente humana e a forma como lidamos com aquilo que nos quebra. E, sim, cinco anos depois, Disforia continua a ressoar, um lembrete vívido de que algumas feridas nunca cicatrizam de verdade, apenas se escondem, esperando o momento certo para reaparecer. E isso, meu amigo, é o terror mais autêntico que existe.