Em Suas Mãos

Mulher de véu e homens armados. Arame farpado em primeiro plano. Fundo com montanhas verdes, terreno vermelho e helicópteros. Clima tenso.
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Sabe, de vez em quando, a gente se depara com uma história que transcende a tela, que gruda na alma e te força a revisitar suas próprias convicções. Não é só sobre o que está acontecendo no filme, mas sobre o que ele diz sobre o mundo lá fora e, mais ainda, sobre quem somos nós enquanto espectadores. Pra mim, Em Suas Mãos é exatamente esse tipo de experiência.

Lembro-me de quando a notícia da queda de Cabul corria o mundo, em 2021. Era um misto de incredulidade e uma dor silenciosa, observando o desmantelamento de décadas de esforços, o fim de esperanças para milhões, especialmente para as mulheres. Naquele turbilhão de manchetes e análises geopolíticas, emergiu a figura de Zarifa Ghafari. E é ela quem nos guia por este documentário de Marcel Mettelsiefen e Tamana Ayazi, nos oferecendo não um resumo dos fatos, mas uma janela visceral para o abismo.

O que me prendeu a Em Suas Mãos não foi apenas a urgência do tema — que, vamos ser francos, continua alarmantemente atual em 2025, com o Afeganistão ainda sob o domínio talibã. Foi a coragem quase imprudente de Zarifa. Ela não é uma figura política distante; ela é a prefeita mais jovem e, até então, a única mulher prefeita do Afeganistão, lutando com unhas e dentes pelos direitos das mulheres, pela educação das meninas, pela própria dignidade num país que parecia determinado a arrancá-la de seus cidadãos mais vulneráveis. Você sente a pressão em cada palavra dela, em cada silêncio pesado. Não há espaço para rodeios, não há tempo para desespero fácil. Há apenas a resiliência inabalável, ou, às vezes, a máscara da resiliência.

Os diretores, Marcel e Tamana, conseguem algo raro aqui: a intimidade sem ser invasiva. Eles não nos contam que Zarifa está em perigo; eles nos mostram os rostos sombrios, as ameaças veladas nas redes sociais, o carro em alta velocidade nas ruas desertas, o ar de desconfiança que se tornara um manto pesado sobre todos. É uma câmera que respira com ela, que se encolhe quando o perigo se aproxima, que se expande quando ela encontra um momento de força. E Tamana Ayazi, sendo afegã, traz uma sensibilidade e um acesso que são palpáveis, permitindo que a história se desdobre de dentro para fora. É como se estivéssemos ali, sentindo a poeira e o medo, o peso das escolhas que ninguém deveria ter que fazer.

Atributo Detalhe
Diretores Marcel Mettelsiefen, Tamana Ayazi
Produtores Juan Camilo Cruz, Jonathan Schaerf
Elenco Principal Zarifa Ghafari
Gênero Documentário
Ano de Lançamento 2022
Produtoras Propagate Content, HiddenLight Productions, Moondogs

Há momentos no filme que são de uma crueldade chocante, não por violência explícita, mas pela sua implicação. Ver Zarifa tentando manter a calma, articular a resistência em meio à evacuação, enquanto seu país desmorona ao redor, é de cortar o coração. Você se pergunta: de onde vem tanta força? Será que não há um limite para o que uma pessoa pode suportar? É aqui que o documentário abraça a complexidade. Não é uma história de heroína infalível; é a saga de uma mulher real, com medos reais, que se recusa a ser silenciada mesmo quando a voz dela parece ser a única a ecoar num deserto.

E é aí que entra a nuance, que eu tanto valorizo numa obra. O filme não pinta o Talibã como monstros unidimensionais – embora suas ações sejam, sim, monstruosas. Ele mostra o impacto de seu retorno na vida diária, na ansiedade sufocante que se instala, no olhar furtivo das mulheres que cobrem seus rostos, no desmantelamento de esperanças que um dia floresceram. A ambiguidade moral de alguns que tentam sobreviver sob o novo regime é um lembrete sutil de que a vida real raramente cabe em caixas.

Em Suas Mãos, que estreou no Brasil lá em novembro de 2022, não é um filme para assistir com a pipoca e esquecer depois. É uma experiência que reverbera. Três anos depois de seu lançamento, a luta de Zarifa Ghafari, e das mulheres afegãs, continua. O documentário produzido por Juan Camilo Cruz e Jonathan Schaerf, com o suporte de produtoras como Propagate Content e HiddenLight Productions (um nome que não passa despercebido, né?), é um testemunho pungente da resiliência humana e um grito de alerta que ainda precisa ser ouvido.

No fim das contas, a pergunta que fica martelando na sua cabeça, mesmo depois que os créditos sobem e o silêncio preenche a sala, é: o que nós, daqui, faremos com essa história? Em Suas Mãos não oferece respostas fáceis, nem um final feliz açucarado. Oferece algo muito mais valioso: uma chance de olhar nos olhos da coragem, de sentir o pulsar da esperança mesmo quando ela parece estar por um fio, e de nunca, nunca esquecer que há vozes por aí lutando para não serem apagadas. É um convite urgente à empatia, um chamado para que cada um de nós pegue um pedacinho dessa luta e, à nossa maneira, a leve adiante. Não deixe de ver. De verdade.