Entre Mundos

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Entre Mundos (Between Worlds), dirigido e roteirizado por Maria Pulera, emerge como uma incursão audaciosa no território do mistério e da fantasia, oferecendo uma premissa singular onde a dor do luto se entrelaça com o inexplicável. Lançado em 21 de dezembro de 2018, este filme de Rise Up e Voltage Pictures convida o público a uma jornada turbulenta pelas fronteiras da vida e da morte.

A obra de Pulera transcende a simples narrativa de uma busca espiritual, consolidando-se como uma exploração visceral dos mecanismos psicológicos da perda e da culpa, onde a linha entre a realidade e o sobrenatural se dissolve para mascarar ou aliviar o sofrimento humano. Não se trata apenas de encontrar uma alma, mas de como a mente em luto constrói pontes para o impossível, utilizando o esotérico como um bálsamo ou, inversamente, uma nova fonte de tormento.

A direção de Maria Pulera demonstra uma visão autoral que privilegia o onírico e o perturbador. Seu estilo evoca um senso de desorientação deliberada, misturando elementos de um drama com a crueza de um thriller psicológico e o surrealismo da fantasia. A cineasta utiliza uma paleta de cores frequentemente saturada e uma iluminação que favorece contrastes acentuados, o que acentua a atmosfera de pesadelo lúcido. A montagem fragmentada de Pulera, que intercala visões oníricas e flashbacks nebulosos com a crueza do presente, contribui para essa atmosfera desorientadora, especialmente quando os cortes rápidos subvertem a linearidade temporal nas tentativas de Julie de se comunicar com o além.

O elenco principal entrega performances que ancoram a premissa fantástica na dor humana. Nicolas Cage, no papel de Joe, oferece uma interpretação que encapsula a intensidade de um homem dilacerado pela perda. Sua dor é palpável, manifestada não apenas em seus arroubos mais conhecidos, mas na quietude de seu olhar ao confrontar a dor e a culpa, especialmente nas cenas em que tenta se conectar com sua filha. Franka Potente confere a Julie uma aura de mistério e convicção, fundamental para a credibilidade de seus dons, transformando-se de forma convincente quando a alma de Billie a possui. A câmera, por vezes instável e em outras, contemplativa, reflete o estado mental fragmentado de Joe, enquanto os close-ups nos rostos de Cage e Potente expressam a tormenta interna dos personagens, e planos abertos da paisagem desolada reforçam o isolamento. O design de som é igualmente crucial; a trilha sonora, com seus ecos e distorções, e os sons ambientes etéreos amplificam a sensação de que algo ‘além’ está sempre presente, contribuindo para o clima de constante suspense e sobrenatural.

Direção Maria Pulera
Roteiro Maria Pulera
Elenco Principal Nicolas Cage (Joe), Franka Potente (Julie), Penelope Mitchell (Billie), Garrett Clayton (Mike), Hopper Penn (Rick)
Gêneros Mistério, Thriller, Fantasia
Lançamento 21/12/2018
Produção Rise Up, Voltage Pictures

Os temas centrais de Entre Mundos gravitam em torno do luto e da culpa. O filme mergulha na dor esmagadora de Joe pela morte de sua esposa e pelo coma de sua filha, Billie. A busca pela alma de Billie é, na verdade, uma busca por redenção e uma forma de lidar com a culpa do sobrevivente. A cena em que Joe revisita a casa vazia, com ecos de memórias felizes sobrepostas à realidade desoladora, ilustra essa tormenta de forma pungente. A espiritualidade e a percepção da realidade são constantemente questionadas: seriam os dons de Julie autênticos ou a manifestação da fé desesperada de Joe? A obra explora a ambiguidade da conexão pós-morte, um desejo humano universal de manter contato com entes queridos perdidos, mas com a advertência de que o que se encontra nem sempre é o que se esperava. O momento único em que Billie, possuindo o corpo de Julie, interage com Joe pela primeira vez, é um exemplo vívido dessa dualidade: a mudança sutil na expressão de Potente, o timbre de voz alterado e a reação emocionalmente carregada de Cage criam uma sequência de profunda inquietude e ternura, encapsulando a estranheza e a beleza trágica da premissa.

No nicho de thrillers de fantasia sobrenatural com elementos de drama psicológico, Entre Mundos compartilha a exploração da dor do luto e a busca por conexão com o além, mergulhando no psicológico e no etéreo com uma atmosfera de suspense. A obra pode ser comparada a “Don’t Look Now” (1973), de Nicolas Roeg, pela forma como o luto avassalador de um casal pela filha afogada se manifesta em visões perturbadoras e uma crescente paranoia, com um enfoque na dissolução da sanidade e na presença ambígua do sobrenatural. Similarmente, “Personal Shopper” (2016), de Olivier Assayas, explora a busca por comunicação com o espírito de um ente querido (irmão gêmeo) e a ambiguidade entre o real e o metafísico, em um thriller psicológico com nuances de drama e mistério, abordando temas de identidade e o vazio pós-perda. Ambos os filmes utilizam uma estética que subverte a realidade para refletir o estado interno dos personagens e a inquietude do sobrenatural.

Entre Mundos é um experimento cinematográfico audacioso, destinado a espectadores que buscam narrativas que desafiem as fronteiras entre o mistério e a fantasia, e que estejam dispostos a se entregar a uma jornada de luto e redenção onde as respostas são tão etéreas quanto as perguntas. O filme oferece uma experiência visceral, ideal para quem aprecia a filmografia de Nicolas Cage quando ele se permite explorar papéis complexos e marginalizados, e para aqueles fascinados por tramas que desconstroem a realidade para revelar a psique humana em seu estado mais vulnerável.

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