Era Uma Vez Carnaval

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Poxa, a gente tá em 18 de outubro de 2025. O carnaval de 2023, quando Era Uma Vez Carnaval da Brasil Paralelo fez sua estreia, já parece uma memória distante para muitos, uma batucada que ecoa ao longe. Mas, sabe, tem filmes que a gente assiste e, mesmo passados quase três anos, eles continuam aqui, cutucando a gente, provocando uma coceirinha no pensamento. E foi exatamente por essa ressonância que eu senti que precisava revisitar esse documentário.

Porque, veja bem, o carnaval… ah, o carnaval! Não é só uma data no calendário, é um vórtice. Uma mistura selvagem de catarse, alegria, escape, fantasia, e para muitos, um mergulho profundo numa ideia de liberdade que talvez não exista fora daqueles dias. Eu, você, nós já nos vimos, em algum momento, seja pulando num bloco suado, seja assistindo pela TV, ou mesmo, e talvez principalmente, pulando o carnaval, buscando um refúgio do barulho. É essa dualidade que me fisgou na sinopse de Era Uma Vez Carnaval: “A festa nunca termina”? E sua vida, quando começa? Uma pergunta que, na minha cabeça, ecoou como um sino grave em meio à folia.

Dirigido por Lucas Araújo, o documentário promete – e cumpre, à sua maneira – uma imersão nas origens, nos caminhos tortuosos e nos desvios dessa festa que é tão visceralmente brasileira. A Brasil Paralelo, como produtora, já insere o filme num contexto específico de análise crítica, e isso, claro, não passa despercebido. Mas o interessante aqui não é apenas o ponto de vista que eles trazem, e sim como eles o constroem. Não espere um samba-enredo otimista sobre a “maior festa do planeta”. Pelo contrário, o filme se debruça sobre a melancolia de um ideal perdido ou, no mínimo, transformado.

A narrativa flui com uma inteligência que me surpreendeu, misturando imagens de arquivo — olhares nostálgicos para carnavais de outrora, talvez mais inocentes, talvez só menos midiatizados — com o testemunho de figuras públicas que, por um motivo ou outro, já tiveram suas vidas intrinsecamente ligadas à folia. Valéria Valensa, por exemplo, que encarna em si mesma a figura da rainha, da musa, da explosão de uma época, nos oferece uma perspectiva pessoal e às vezes dolorida sobre a mercantilização e a mudança dos valores. Dá pra ver nas suas expressões, nos seus silêncios, a ponta de um desencanto, como se as plumas tivessem perdido um pouco do brilho original. Antonia Fontenelle, com sua voz firme, contribui com um olhar mais direto e crítico sobre os rumos culturais, enquanto Guilherme Almeida e João Filho, presumo, trazem a bagagem mais analítica, talvez de historiadores ou sociólogos, que ajudam a tecer a tapeçaria conceitual do documentário.

Atributo Detalhe
Diretor Lucas Araújo
Elenco Principal Valéria Valensa, Antonia Fontenelle, Guilherme Almeida, João Filho
Gênero Documentário
Ano de Lançamento 2023
Produtora Brasil Paralelo

O que Era Uma Vez Carnaval faz bem é nos convidar a pausar. Em vez de simplesmente nos atirar na euforia, ele nos puxa para trás, para a contemplação. Ele não apenas lista os fatos sobre a história do carnaval, mas tenta destrinchar o que essa festa representa – e o que, segundo a ótica do filme, ela deixou de representar. Não é um filme que entrega respostas fáceis, mas que serve como um espelho, nos forçando a questionar a nós mesmos: o que celebramos? O que buscamos nessa fuga coletiva? E, talvez o mais importante: qual é o preço dessa evasão?

Lucas Araújo, como diretor, orquestra essa orquestra de vozes e imagens com um ritmo deliberado. Não é frenético como um bloco de rua, mas tem a cadência de uma marcha mais reflexiva. Ele intercala os depoimentos com uma edição que busca contrastar o passado e o presente, a promessa e a realidade. A produção da Brasil Paralelo, nesse sentido, é impecável tecnicamente, com uma qualidade visual e sonora que potencializa a mensagem. A gente se sente imerso na discussão, quase como se estivéssemos numa roda de conversa densa e séria, enquanto lá fora a bateria não para de rufar.

Claro, a festa é complexa, multifacetada. Tem quem veja no carnaval um espaço legítimo de transgressão e liberdade artística, uma válvula de escape essencial numa sociedade tão cheia de amarras. E o documentário, mesmo com sua inclinação crítica, não apaga completamente essa chama. Mas ele acende outra: a da reflexão. Ele questiona se a liberdade que celebramos nesses dias é, de fato, libertadora, ou se é apenas mais uma ilusão, um ciclo que se repete e que nos impede de começar a viver “nossa” vida de verdade.

Depois de assistir, a sensação que fica é de ter participado de um debate interno. Aquele som de serpentina e confete que, para alguns, é o som da alegria, para outros, pode ser o barulho de algo se desfazendo. Era Uma Vez Carnaval não é um ataque à festa, nem um panfleto moralista. É um convite. Um convite, aliás, que ainda ressoa forte em mim, mesmo dois anos e meio depois de sua estreia. Um convite a olhar para o carnaval, e para nós mesmos, com outros olhos, buscando não só a batucada que nos impulsiona, mas também o silêncio que nos faz perguntar: e a minha vida, quando é que ela começa de verdade?