Eu Não Me Importo Se Entrarmos para a História como Bárbaros

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Eu Não Me Importo Se Entrarmos para a História como Bárbaros de Radu Jude emerge como um dos filmes mais audaciosos e instigantes do cinema europeu recente, desafiando a forma como a história é contada, reencenada e, por vezes, convenientemente esquecida. Lançado em 2018, o longa-metragem romeno não se limita a retratar um evento histórico; ele se propõe a uma metanarrativa complexa, investigando a própria capacidade da arte de confrontar verdades inconvenientes e o processo de uma nação em lidar com seu passado.

A tese central do filme reside na exploração da memória coletiva e da responsabilidade histórica da Romênia no massacre de judeus de Odessa em 1941, um episódio sombrio frequentemente mitigado ou ignorado na narrativa nacional. Através da figura de Mariana (Ioana Iacob), uma diretora de teatro que se esforça para encenar o evento com um realismo brutal em praça pública, Jude não apenas expõe a brutalidade dos “bárbaros”, mas também dissecava a resistência e a indiferença contemporâneas à lembrança histórica. O filme argumenta que a história, quando dolorosa, é muitas vezes maquiada ou silenciada, e que a arte, mesmo com sua dose de controvérsia e artificialidade, pode ser um catalisador vital para a conscientização.

Radu Jude, conhecido por sua abordagem incisiva e seu distanciamento crítico em relação à história romena em obras como “Aferim!”, aprofunda seu estilo aqui. A direção de Jude é caracterizada por uma estética que mistura o documental com o ficcional, empregando longos planos fixos que observam o desenrolar das ações e discussões com uma frieza quase antropológica. Esse estilo permite que as performances teatrais dentro do filme se tornem tanto um espelho quanto uma lente de aumento para a realidade histórica, criando uma desconfortável ambiguidade que permeia toda a narrativa. A evolução de Jude é notável, passando da exploração do passado distante em “Aferim!” para uma intervenção mais direta e contemporânea sobre a recepção desse passado.

Tecnicamente, o filme é uma masterclass em como o roteiro pode dialogar com a encenação. O texto de Radu Jude é afiado, repleto de diálogos densos e interjeições que variam entre o intelectual e o coloquial, refletindo a complexidade do debate histórico e moral. A performance de Ioana Iacob como Mariana é o cerne emocional da obra, carregando o peso da frustração e da paixão de uma artista que busca a verdade em meio à apatia. Em uma cena particularmente marcante, Mariana discute acaloradamente com um oficial da prefeitura (Alexandru Bogdan, como Traian) sobre os detalhes da reconstituição, e a exasperação palpável em seu olhar e a crescente intensidade de sua voz capturam a batalha contra o revisionismo histórico de forma visceral. A câmera, frequentemente estática, serve como um observador imparcial, permitindo que a teatralidade das discussões e a encenação histórica se desenrolem sem interrupção. O design de som, por sua vez, alterna entre a crueza dos ensaios e a ambientação da Bucareste moderna, pontuando a justaposição entre o passado e o presente.

Direção Radu Jude
Roteiro Radu Jude
Elenco Principal Ioana Iacob (Mariana), Alexandru Bogdan (Traian), Alexandru Dabija (Movila), Ion Rizea, Claudia Ieremia
Gêneros História, Drama, Comédia
Lançamento 28/09/2018
Produção Klas Film, Hi Film Productions, Les Films d’Ici, Endorfilm, Komplizen Film, ZDF/Arte, Televiziunea Română

Os temas centrais do filme giram em torno da culpa nacional, da memória seletiva e do papel da arte como confrontação. Através da preparação para a encenação, o filme aborda o antissemitismo enraizado, a limpeza étnica e a participação do exército romeno no massacre, questões que por muito tempo foram tabu. A inserção da comédia, muitas vezes sombria e irreverente, funciona como um mecanismo de choque, subvertendo as expectativas do espectador ao introduzir o absurdo em meio ao horror histórico. O título do filme é uma citação literal do Conselho de Ministros de 1941, e o filme explora as repercussões dessa mentalidade desumana na psique coletiva romena, usando a sátira para expor as falhas da memória oficial.

Eu Não Me Importo Se Entrarmos para a História como Bárbaros se insere no nicho do drama histórico meta-narrativo com elementos de comédia negra e crítica social, abordando eventos traumáticos através de uma lente não convencional. Nesse contexto, o filme de Radu Jude encontra paralelos temáticos com sua própria obra anterior, “Aferim!”, que, embora ambientado no século XIX, também emprega uma estética crítica para explorar o racismo e a xenofobia intrínsecos à sociedade romena. Ambos os filmes utilizam uma narrativa histórica para comentar sobre questões identitárias e culturais persistentes. Outra comparação relevante, pela audácia em usar a encenação como ferramenta de confrontação com atrocidades históricas e a maneira como os perpetradores são levados a revisitar seus atos, é “The Act of Killing” (2012). Apesar de ser um documentário, sua abordagem de reencenação de crimes passados pelos próprios envolvidos se alinha com a proposta meta-crítica de Radu Jude, onde a representação se torna um palco para o trauma e a responsabilidade, com um foco cultural/identitário na confrontação com a história.

Eu Não Me Importo Se Entrarmos para a História como Bárbaros é uma obra-prima que exige reflexão. Não é um filme para o espectador passivo, mas sim para aqueles dispostos a enfrentar as complexidades da história e a moralidade da representação. Sua narrativa densa, performances intensas e a direção astuta de Radu Jude tornam-no essencial para cinéfilos interessados em dramas históricos desafiadores, crítica social afiada e o poder transformador do cinema. O filme não apenas revisita o passado, mas o traz para o presente, questionando como escolhemos lembrar – ou esquecer – quem fomos.

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