Humane: Um banquete de terror familiar, temperado com cinismo
Confesso, ao me deparar com a sinopse de Humane, senti um misto de fascínio e apreensão. Um filme de terror distópico ambientado num futuro próximo, onde um jantar familiar se transforma em um pesadelo por causa de um programa governamental de eutanásia? O gancho era irresistível. Lançado em 2024, o longa, dirigido por Caitlin Cronenberg e escrito por Michael Sparaga, já está disponível em diversas plataformas digitais e, acredite, a experiência vale a pena, apesar de suas imperfeições.
A trama, sem grandes spoilers, apresenta a família York lidando com as consequências de um colapso ambiental que obrigou a humanidade a reduzir drasticamente sua população. Jared, o pai, planejou uma saída “digna” – ou, pelo menos, era assim que ele a via – e o jantar em família se torna o palco de uma jornada tensa e angustiante que explora os limites do amor, da responsabilidade e do desespero.
A direção de Caitlin Cronenberg é segura e eficaz. Ela constrói a atmosfera de opressão e claustrofobia com maestria, usando a intimidade do ambiente familiar para potencializar o horror que se instala aos poucos. A câmera se torna uma intrusa silenciosa, registrando as micro-expressões de seus personagens, a crescente tensão palpável que permeia cada diálogo, cada gesto. A trilha sonora, por sua vez, é um elemento fundamental, intensificando os momentos de suspense e ampliando o impacto emocional de cada cena.
| Atributo | Detalhe |
|---|---|
| Diretora | Caitlin Cronenberg |
| Roteirista | Michael Sparaga |
| Produtor | Michael Sparaga |
| Elenco Principal | Jay Baruchel, Emily Hampshire, Sebastian Chacon, Alanna Bale, Sirena Gulamgaus |
| Gênero | Terror, Ficção científica, Thriller |
| Ano de Lançamento | 2024 |
| Produtoras | Victory Man, Elevation Pictures, Prospero Pictures |
O roteiro de Michael Sparaga, no entanto, é onde a narrativa apresenta suas maiores fragilidades. A crítica de que Humane é “positivamente pingando com a agenda progressista”, como li em alguns comentários (de setembro de 2025), possui certa validade. Há uma crítica social explícita ao sistema, à desigualdade, e à forma como o Estado pode manipular a população em nome da “solução de problemas”. Porém, em certos momentos, a mensagem parece martelada, em detrimento da sutileza e da profundidade que o tema merecia. A narrativa busca a contundência, mas, às vezes, tropeça em diálogos um tanto didáticos.
As atuações são um ponto forte do filme. Jay Baruchel, como Jared, é especialmente convincente, entregando uma performance multifacetada que equilibra a fragilidade com um toque de manipulação. Emily Hampshire, como Rachel, consegue transmitir a angústia e a luta interna com precisão. O restante do elenco também entrega atuações sólidas, contribuindo para a credibilidade dos personagens e suas complexas relações.
A força de Humane reside na sua capacidade de provocar desconforto e gerar uma reflexão sobre temas pesados. A eutanásia assistida, a responsabilidade parental em tempos de crise, a fragilidade da família diante de um futuro incerto são apenas alguns dos temas que o filme aborda com coragem, ainda que de forma nem sempre sutil.
Porém, a tentativa de mesclar elementos de terror, suspense psicológico e comédia negra, embora ousada, não se mostra totalmente bem-sucedida. A tonalidade oscila em alguns momentos, criando um leve desequilíbrio que prejudica a imersão total do espectador.
Em suma, Humane é um filme que merece ser visto. Sua proposta é ousada, sua execução é competente, e suas falhas, apesar de presentes, não ofuscam a força de sua mensagem. Ele nos confronta com dilemas morais complexos, nos deixa perturbados e, acima de tudo, nos faz pensar. Recomendo para quem aprecia filmes de terror psicológico com um toque de cinismo e crítica social, e que não se importa com uma narrativa que, por vezes, se aproxima mais da panfletagem do que da sutileza. A experiência, apesar de seus desvios, é memorável. Recomendado para maiores de 18 anos.




