Imersão

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Imersão: Um mergulho claustrofóbico na alma humana

Confesso, cheguei a Imersão com certa reserva. Thriller chileno de 2022, dirigido por Nicolás Postiglione, a premissa – um homem que hesita em ajudar pessoas em apuros – soa um tanto genérica. Mas, três anos depois de seu lançamento, em 16/09/2025, posso afirmar com convicção: me enganei profundamente. Este não é apenas mais um thriller; é um estudo de caráter desconcertante, uma exploração visceral da culpa e da hipocrisia disfarçadas de pragmatismo.

O longa acompanha Ricardo, interpretado com maestria contida por Alfredo Castro, que leva suas filhas para sua casa de campo no sul do Chile. Durante um passeio de barco, eles testemunham um naufrágio. A decisão de Ricardo de não interferir, alimentada por uma suspeita latente e uma inegável dose de auto-preservação, é o gatilho de um drama psicológico que nos prende do início ao fim. As atuações são impecáveis, com Consuelo Carreño, Michael Silva, Mariela Mignot e Alex Quevedo dando corpo a personagens complexos e ambíguos, que refletem os dilemas morais do protagonista. A frieza calculada de Castro, contrastando com as reações mais viscerais de suas filhas, cria uma tensão palpável que nos mantém em estado de alerta constante.

A direção de Postiglione é magistral. Ele utiliza o cenário deslumbrante, mas também opressivo, do sul chileno como um personagem à parte. A fotografia, sombria e atmosférica, intensifica o clima de suspense, criando uma sensação de isolamento e aprisionamento que espelha o estado mental de Ricardo. A narrativa, embora linear, é habilmente construída, com revelações graduais que mantêm o espectador sempre a um passo à frente do protagonista, mas nunca totalmente seguro de seus motivos. O roteiro, assinado por Postiglione, Agustín Toscano e Moisés Sepúlveda, evita cair em armadilhas maniqueístas, apresentando personagens moralmente ambíguos, sem heróis ou vilões facilmente identificáveis.

Atributo Detalhe
Diretor Nicolás Postiglione
Roteiristas Nicolás Postiglione, Agustín Toscano, Moisés Sepúlveda
Produtores Francisco Hervé, Isabel Orellana Guarello, Alejandro Wise, Moisés Sepúlveda, Juan Bernardo González, Nicolás San Martín, Arturo Pereyra
Elenco Principal Alfredo Castro, Consuelo Carreño, Michael Silva, Mariela Mignot, Alex Quevedo
Gênero Thriller
Ano de Lançamento 2022
Produtoras Araucaria Cine, Primatelab, Juntos Films, Whisky Content

Um dos pontos fortes do filme é sua capacidade de nos confrontar com o nosso próprio julgamento moral. Ricardo não é um monstro, mas um homem comum, com suas fraquezas e medos. Sua recusa em ajudar não é fruto de pura maldade, mas de um cálculo frio baseado em suas percepções, por mais equivocadas que sejam. É essa ambiguidade moral que torna Imersão tão fascinante e perturbador. A capacidade do filme de gerar desconforto e questionamentos é, paradoxalmente, sua maior virtude.

Apesar de suas qualidades, o filme apresenta alguns pontos fracos. A narrativa, apesar de bem construída, pode se tornar um tanto lenta para alguns espectadores. Certos diálogos poderiam ser mais concisos, e algumas subtramas poderiam ser melhor desenvolvidas para alcançar seu total potencial. No entanto, esses defeitos são menores em comparação com a força geral da obra.

Imersão não é um filme de fácil digestão. É um trabalho denso, que exige do espectador atenção e reflexão. Ele nos força a confrontar nossas próprias hipocrisias, a nos questionar até que ponto estamos dispostos a ir para proteger a nós mesmos e nossos entes queridos. Os temas da responsabilidade individual, da culpa e da fragilidade humana são explorados com uma profundidade rara em thrillers contemporâneos. Se você busca um filme de ação frenética e resolução fácil, este talvez não seja o ideal. Mas se você aprecia cinema que provoque reflexões profundas e que permaneça na memória muito depois dos créditos finais, Imersão é uma experiência cinematográfica imperdível. Recomendo fortemente sua busca em plataformas digitais ou serviços de streaming, mesmo três anos após seu lançamento. Ainda que não tenha tido uma recepção massiva, a obra merece ser (re)descoberta.

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