Há certos filmes que não nos chegam por acaso. Eles nos encontram, em silêncio, e nos convidam para um mergulho profundo, às vezes desconfortável, mas sempre necessário. Os Filhos do Katrina é um desses. Em 2025, quase duas décadas após a passagem devastadora do furacão Katrina, talvez você se pergunte por que revisitar essa ferida. Eu me pergunto, você se pergunta, e é exatamente aí que reside a força inegável deste documentário: ele nos lembra que algumas feridas, por mais que tentemos fechá-las com o tempo, deixam cicatrizes que moldam para sempre a pele de uma comunidade, a alma de uma geração.
Minha motivação para escrever sobre esta obra de Edward Buckles não vem de uma busca por mais uma crítica de cinema, mas de uma necessidade quase visceral de dar voz ao que ele tão brilhantemente captura. É um lembrete vívido de que a história não é apenas feita de grandes eventos, mas de como esses eventos se infiltram na vida de pessoas comuns, especialmente crianças. E, olha, quando se trata de memórias infantis, elas são como raízes em solo fértil: profundas, resistentes e muitas vezes dolorosas.
Buckles, um filho de Nova Orleans que viveu o Katrina em primeira mão, nos entrega um olhar tão íntimo que parece que estamos sentados na sala de estar de cada um dos jovens que compartilha sua história. Ele não nos conta o que aconteceu; ele nos mostra a reverberação daquele dia fatídico através dos olhos de Calvin Baxter, Arnould Burks, Damaris Calliet, Cierra Chenier, Quintina Thomas Green e Miesha Williams. E a beleza aqui, a humanidade crua, está no fato de que todos eles se apresentam como “Self” — eles são eles mesmos, despidos de roteiro, maquiagem ou qualquer artifício. Isso, por si só, já é um ato de coragem avassaladora.
Imagine-se um adolescente, talvez pré-adolescente, quando sua casa é tragada por uma água escura, fedorenta, que não para de subir. Você lembra do medo nos olhos dos seus pais, do cheiro de mofo que nunca mais saiu das suas narinas, da promessa quebrada de que tudo ficaria bem. É exatamente essa memória sensorial e emocional que Os Filhos do Katrina exuma com uma delicadeza assustadora. O filme não se limita a recriar o terror inicial do furacão; ele se debruça sobre o “depois”. Como se cresce com essa marca? Que tipo de adulto emerge de uma infância interrompida por uma catástrofe natural e, mais ainda, por uma resposta governamental falha?
| Atributo | Detalhe |
|---|---|
| Diretor | Edward Buckles |
| Roteiristas | Edward Buckles, Luther Clement Lam, Audrey Rosenberg |
| Produtores | Edward Buckles, Audrey Rosenberg, Rebecca Teitel |
| Elenco Principal | Calvin Baxter, Arnould Burks, Damaris Calliet, Cierra Chenier, Quintina Thomas Green, Miesha Williams |
| Gênero | Documentário |
| Ano de Lançamento | 2022 |
| Produtoras | HBO Documentary Films, Invisible Pictures, TIME Studios, Creative Control, House of the Young Entertainment |
O ritmo da narrativa é um balé entre o passado e o presente. Buckles, que também assina o roteiro com Luther Clement Lam e Audrey Rosenberg, usa imagens de arquivo com uma sensibilidade notável. Não são apenas recortes de noticiários para contextualizar; são flashes de trauma que reverberam no rosto adulto dos protagonistas. Uma frase dita por um deles, por exemplo, sobre a água subindo e a sensação de que “a água sabia para onde ir, sabia de tudo”, não é apenas uma descrição. É a personificação de um medo infantil, de uma força incontrolável que se tornou quase mística na mente de uma criança.
E aqui reside a complexidade que tanto me toca: não há vilões óbvios ou heróis unidimensionais. A tragédia do Katrina não é uma história “preto e branco”. É cinza, nublada, cheia de nuances. O documentário não aponta dedos de forma simplista, mas revela as falhas estruturais, a negligência sistêmica que se desenrolou sob os olhos do mundo. Ele nos convida a sentir a raiva, sim, mas também a admiração pela resiliência teimosa, quase desafiadora, do povo de Nova Orleans. A forma como eles se agarram à sua cultura, à sua música, à sua culinária, como se dissessem: “Vocês podem tirar nossas casas, mas não nossa essência.”
A fotografia é um espetáculo à parte, mesmo em um documentário. Há closes que revelam a textura da pele marcada pelo tempo, olhares que contam histórias inteiras de superação e perda. E a trilha sonora? Ela respira Nova Orleans, com seu jazz melancólico e vibrante, que é quase um personagem por si só, embalando as confissões e os silêncios.
Eu, particularmente, fui pego de surpresa pela crueza das emoções. Não espere um filme que te deixe confortável. Os Filhos do Katrina é um soco no estômago, mas um soco que te acorda, que te força a sentir, a refletir. Ele nos lembra que, por trás dos números e estatísticas de qualquer desastre, estão histórias humanas, vidas que foram viradas de cabeça para baixo e que, contra todas as expectativas, continuam a respirar, a sonhar.
Dirigido por Edward Buckles e produzido por um coletivo de peso como HBO Documentary Films e TIME Studios, o filme teve seu lançamento original em junho de 2022. Infelizmente, ainda não temos uma data para sua chegada ao Brasil, o que é uma pena. Este é um filme que transcende fronteiras geográficas, pois fala de temas universais: a inocência perdida, a força do espírito humano, a memória coletiva de uma cidade.
Ao final da projeção, a sensação que permanece não é de tristeza pura, mas de uma profunda reflexão sobre o que significa crescer em meio à adversidade. É um tributo à capacidade de reconstrução, não apenas de edifícios, mas de almas. E me faz pensar: quantos “filhos do Katrina” existem por aí, em outras partes do mundo, com outras catástrofes, cujas vozes ainda não foram ouvidas? Este filme é um poderoso lembrete de que devemos continuar a ouvir, a olhar e, acima de tudo, a sentir. Porque é na partilha dessas histórias que encontramos nossa própria humanidade.




